30.12.07

tá aí, finalmente aparado, cortado, tosado


Eu me vingo...

Sou aquele menino de cabelos cacheados sentado ali no canto, ao lado da pilastra de madeira. Sou jovem e suficientemente belo. Conheço algumas moças que me desposariam. Em casa, em frente ao fogo da lareira, dispo-me, e me ponho a admirar os meus músculos- movo o meu corpo- sou como um felino. Durante o verão trabalho nos vinhedos. No inverno, procuro uma ou outra ocupação. Estou sentado agora ali no canto da taberna. Estou bêbado e eletrizado pelas palavras que ecoam por sobre as mesas. Alguém me chama para a batalha, e meu corpo se contorce, estou em pleno gozo. Sou aquele jovem de cabelos castanhos e cachos firmes, sentado no canto, ao fundo, e estou exultante. Dentro de poucos meses eu serei bala, pistola, serei avião de bombardeio; eu serei o asfalto sobre o qual passará o tanque, eu ultrapassarei a trincheira ou então serei o seu adubo. Sou aquele rapaz, logo ali, magnífico, glorioso.

Quando caminho na direção contrária de você,

sou estúpida trágica alegria.

23.12.07

Indelicadeza(publicar o que não é meu, mas eu gosto, então, e daí!?)

Vício

By Luis Junqueira

Foi num trago entorpecente
Destes do final da tarde
Onde as gotas do escuro
Escorregam do extremo
Se misturam e entranham
No amargo gosto da vida

Lá, parados um instante
Contemplando uma pequena
Morte, ele, um amigo
Mais velho de dores fortes
No ego, inspira profundo
Espera, segura e solta

A vista é névoa
O vício é vida

(pausa) se é vida
cheira tempestade
espreita tragédia
é unha cravada no chão

é vida então
as rugas no espelho
a corda no peito
o laço na mão.

Feliz Natal

Nestes momentos de terror supremamente silenciosos não sei o que sou materialmente, o que costumo fazer, o que me é usual querer, sentir e pensar. Sinto-me perdido de mim mesmo, fora do meu alcance. A ânsia moral de lutar, o esforço intelectual para sistematizar e compreender, a irrequieta aspiração artística a produzir uma coisa que ora não compreendo, mas que me lembro de compreender, e a que chamo beleza, tudo isso se me some do instinto do real, tudo isso se me afigura nem digno de ser pensado inútil, vazio e longínquo. Sinto-me apenas um vácuo, uma ilusão de uma alma, um lugar de um ser, uma escuridão de consciência onde estranho inseto procurasse em vão sequer a cálida lembrança de uma luz

9.12.07

o eliot que eu gosto

"O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?"

(T. S. Eliot, Terra Desolada, I. O enterro dos mortos)

literatura como imagem, símbolo, tradutora das várias tentativas de ser. e um gosto especial por essas imagens de contrários que se tocam, de pólos que se transmutam em seus opostos e carregam de ambigüidade todos os símbolos.

6.12.07

Lógica

Sabe, começa a me preocupar o fato de que talvez não seja verdade que a medida que envelhecemos, nos tornamos mais sábios. Alguém poderia objetar-me, dizendo que isso é óbvio. Mas, outro responderia que exatamente por ser óbvia a falsidade dos mitos, esquecemos que não acreditamos mais neles, e continuamos agindo como se eles falassem a verdade. (recuperando a lição da Beatriz Sarlo).

Pois bem, sempre esqueço que não acredito mais que a idade me ensinará a viver melhor. Quer dizer, contra as dúvidas de hoje sobre o que realmente quero, envelhecer é encontrar as certezas que me faltam. E depois, envelhecer mais um pouco para aprender como alcançar aquilo que a idade me mostrou querer. A falha de hoje, então, é sempre uma lição necessária, não um pedágio, mas o próprio cascalho que pavimenta o caminho àquilo que quero. Me esqueço que não acredito nisso.

Mas, agora, tenho uma decisão difícil a tomar. E se ela for a errada, não terei aprendido um pouco mais sobre tomar decisões difíceis. Não existirá compensação pelo preço que pagarei. Os erros que cometo, não servirão para serem trocados por acertos futuros. Erro, se acumula. Como as cinzas no fundo daquele lago. E se você aprendeu alguma coisa com o seu, desconfie. Um erro é bem capaz de te ensinar a acreditar numa certeza absurda e nociva.

Bem, se errar não serve pra nada, ainda bem que esquecemos. O Santiago lembrava de tudo. Esquecer é não aprender, e, de fato, os velhos, que supostamente mais teriam aprendido na vida, são os que menos se lembram de qualquer coisa. De fato, meu pai ainda fala abobrinha, talvez fale mais ainda hoje do que a dez anos atrás, mas sei lá, não me lembro mais.

Então, viver não tem nada a ver com descobrir o que se quer, e construir o caminho até lá. Mas daí, já não entendo mais nada, digo, sobre mim mesmo. Segunda-feira dessa semana, chorei muito, e um dos motivos, foi exatamente por, com 26 anos no ano que vem, não estar construindo o meu caminho. (Existe a crise dos 26?). Bem, mas se não há caminho a ser construído, por que não somos capazes de aprender nada com a vida, então, não devo deixar me incomodar o fato de estar desempregado e vivendo com os meus pais.

Que alívio! o incomparável conforto dos raciocínios niilistas... única coisa, que esse aí não foi niilista, foi pura sensatez, para não dizer, um senso comum. Nunca será uma proposição filosófica dizer que a vida na Terra não se organiza em torno dos desejos de cada indivíduo. Se dissesse o contrário, aí sim teríamos uma polêmica.

Enfim, teria logrado evitar futuras crises de choro da minha parte, não fosse a constatação óbvia que falta: essa conclusão é estapafúrdia, inaceitável, completamente estúpida! Sejam quais forem os meus argumentos, não posso aceitar, e não aceito, não ver como um problema os meus 26 anos desempregados e vivendo com meus pais. Donde, a única conclusão que resta, é que realmente, definitavemente, não há o que se aprender com a vida. (o que confirma as minhas premissas, ao negar a conclusão que elas permitem chegar)

2.12.07

Paisagem

Uma descrição ingênua, talvez infantil: a brisa fresca que sopra, a sombra extensa de uma paineira que sempre esteve ali, o perfume cítrico de certas folhas que lambuzam os nossos dedos quando as esmagamos, todas as tonalidades de verde; um córrego, caminho de pedras polidas, de água gelada e cristalina; com prazer, megulhamos nossos pés descalços na terra escura e lodosa das margens. E tudo isso foi, de fato em fato. Não me culpe, me culpe. Repito a mim mesmo não se tratar de tristeza. Quero ver a vida se estender dourada, com horizontes purpúreos, mãos dadas por aléias floridas, sempre tomadas por novos odores, que se evanescem antes de os identificarmos. Tenho-me num formigamento d’alma, de quem compreende. Dor não percorre o meu corpo convulsionante, não vejo abismo, nada me esmaga, apenas o chão, quietinho, se desfaz, os metais enferrujam, corrói-se, tudo se desprende sem alarde e, de cinzas em cinzas, se acumula nas profundezas lodosas do lago. Ele se decompõem, lentamente, alastrando as suas margens podres, lentamente, incorporando a vida ao redor, não como um câncer, não com violência; com descaso, sem intenção, como curso inevitável.

30.11.07

sexo, religião e psicanálise

Foi um padre que me disse que o Freud, de algum jeito lá no pensamento dele, atribui ao sexo o papel de principal objeto lírico da personalidade.

Que é um argumento importante eu não tinha a menor dúvida, a gente nasce de uma foda e cria dando trepada. Que o bagulho gostoso que a gente tem entre as pernas é gostoso é verdade.

Daí o cara lá nos quase cinqüenta anos, que não é padre, é pastor – desculpem -, indica que o prazer e a culpa estão conectados...

E aí eu digo que não, é que isso tem muito a ver com a religião cristã.

E aí ele diz sereno e indistinto que todos nós assimilamos formas de repressão.

Pra fora e pra dentro. Pra dentro e pra fora (coro)

E, entre as idéias lá do Freud e a prática no divã, as coisas mudam de figura. Ninguém tá lá pra ser salvo do mal da humanidade, mas pra conviver com as merdas que você ganhou sabe-se de lá quem, ou melhor, a gente sabe, dos pais, dos avôs, dos filhos, de todo peso da tradição & rituais afins e da gente, óbvio. Que tudo isso você me indica que vem de Deus o todo criador.

Aí no meio do enquanto - pensava no que dependia do sexo afinal - a sentença:

Sua barriga pode ser gigante. Seus olhos podem ser cansados. Seu pau pode ser enorme. Seu cérebro atrofiado. Conviva com isso, meu filho.


29.11.07

Brasília não é uma festa

brasília é uma cidade anti-gente. aliás, brasília não parece uma cidade, porque nela não pulsa a urbanidade tecida pelo vaivém dos transeuntes. as pessoas são escassas em brasília, pelo menos a céu aberto.
a amplitude do espaço é opressiva: a distância que o olhar alcança não pode ser vencida pelas pernas. as largas avenidas sem calçadas avisam ao recém-chegado qual é o meio adequado ao movimento.
brasília é o delírio modernista do controle absoluto, não deixa espaço para que o inconsciente da cidade se expresse em alguma
esquina, até porque, para não abrir a possibilidade de surpresas, não há esquinas. quilômetros são percorridos sem que a paisagem se transforme. a cidade plasma-se na retina como uma sucessão de caixas de fósforo de concreto, todas iguais: mesma tonalidade, mesma altura, mesmas janelas quadradas sem sacadas. moro na 615 sul, quadra B. um mundo assustador digno de orwell.

finalmente a deia

Que tal o cartaz?
dias 15, 16 e 17 de dezembro, eu vou me fingir de atriz, encenando esta peça ai, adapatada do Guimarães. vocês, meus queridos amiguinhos, é lógico que já estão convidados. ia ser bom se pudessem ir, mas eu não sei bem como recomendar o espetáculo. com ceretza vocês nunca viram algo parecido, mas o que vão achar do que assistirão ....
bem manerem nas críticas da peça, tá! mas podem dizer de verdade o que acharam do cartaz, que ainda é provisório.
.
Da inauguração no blog.
pelo tempo que isso demorou pra acontecer, acho que eu acho bem difícil escrever pra vocês viu! e ainda, a isso, se deveria somar uma fase de total falta vontade de falar, triplicada no que diz respeito a falar por escritos, mesmo que pra vocês. fase que eu não sei se está passando. talvez sim. mas não se animem muito, não! a julgar por essa minha inauguração por aqui, já devem ter podido notar que essa vontade de me 'comunicar' que está vindo não quer mesmo dizer ter algo muito super fabuloso pra mostrar. é mais só uma vontade de contar. e sobre isso eu quis contar pra vocês e saber da opinião de vocês. foi aí que, para mim, o blog desapareceu como uma obrigação de dívida não cumprida e pareceu legal!

Dizer absolutamente nada é uma forma de Arte? Não

Ainda agora, agora neste minuto, eu tentava respirar. Erguer a cabeça pra fora, inflar o peito de ar, expirar em seguida.

Sempre há um passo. Sempre um passo atrás.

Estar a todo tempo assim, a cada momento, aprendendo algo novo - de novo - é constrangedor, por que me entrego, dando a ver a mim mesmo o quanto ignoro. E já não é mais tempo de pensar. Se você não toma o bonde da vida, ele te atropela. Sacou?

Dexei de molhar a cama aos sete anos. Talvez seja mal hábito de criança, este de não saber crescer. Ainda bem que poesia, que música também, ainda bem, há.

Mas ainda, o que há de se fazer? Além de seguir. Afinal, há tanto por fazer, que me canso antes de começar.

Mas hoje, ainda, como ontem também, tomo o dia como parque de diversões, paro diante da aparente estaticidade do mundo – aqui do décima andar – e começo a escrever, pois afinal, o que resta a fazer?

Muito alías, daqui a pouco, pois não se deve deixar nada para mais tarde.

Ontem eu quase chorei. Quase(o que é um avanço).

Viva o Dia das Crianças,

(aqui em casa pelo menos, todo dia é Dia das Crianças)

20.11.07

Uma cena

Feriado. Muitas pernas cruzam a pequena cidade que insiste em afirmar uma autenticidade um tanto quanto postiça. Vieram para o circo das vaidades e das convenções armado com dinheiro público.
No quarto de hotel barato, a escuridão que entra pela janela trava um combate com a opaca luz da única lâmpada. Do banheiro, propagam-se os estalos dos pingos arremessados compassadamente pelo chuveiro enferrujado. O menino-homem tenta dissolver o nervosismo repetindo em voz alta palavras tão antigas como a pequena cidade. É preciso dizê-las até que soem naturais e comuniquem uma intimidade convincente. No quarto ao lado, a voz da Fátima Bernardes anuncia em tom corriqueiro a perseguição assassina aos “criminosos” de uma favela latino-americana. Outras vozes se encontram lá embaixo na calçada. Quanto tempo. Não parecem sinceras. Que bom te achar por aqui. Parabéns pelo artigo. Cumprem seus papéis. Vamos combinar qualquer coisa para qualquer dia e tal. E a voz do menino-homem segue ainda com as mesmas palavras obscuras.
O silêncio vai surgindo aos poucos, junto com o apagar das luzes das janelas vizinhas. O menino-homem resiste pouco e apaga sua lâmpada também. A quietude da madrugada deixa então se mexer o desconforto, já conhecido, já esquadrinhado, que apenas vem com a roupa nova da ocasião.

18.11.07


pra quem estiver um pouco cansado da vista e quiser alguém que te dê uma paisagem, nada melhor que poesia... Esta aí vai ficando boa com o tempo.

The Love Song...



contexto

10.11.07

Bastidor da foto

A única luz acesa é a da copa. É o plano mais distante. Todos os outros na frente estão com a luz apagada. A luz da cozinha estoura com o obturador aberto a cinco segundos, sob uma abertura do diafragma em 5.6 (razoavelmente bem aberto)

Assim, daria para ver na sala escura o lustre, o teto marrom, a luz da copa que reflete no teto. A Parede amarelada, o vaso com flores vermelhas e brancas em cima da mesa. No primeiríssimo plano não dá pra identificar direito a poltrona nem suas cores. A foto está borrada porque o tempo do obturador é muito longo para agüentar manualmente. Nada de tripé nas experimentações.

Mudando o tempo para 1/25 segundos de obturador aberto a cena é esta (A foto do blog):

A copa tem uma luz nítida, um tanto quanto amarelada. Dá pra ver nitidamente uma cadeira, outra parte de uma cadeira, a mesa, a cortina branca ao fundo, a grade na janela, uns pequenos detalhes nela, e a noite lá fora. É noite. Fora do foco do retângulo que forma a copa, vemos uma grande escuridão. O vaso, em cima da mesa, à direita, no plano médio, ofusca alguma luz, irreconhecível. De resto, o contraste é grande. Uma luz muito boa dentro da copa, uma luz opaca por toda a cena. Essa luz seria muito boa para tirar foto dentro da copa, se eu estivesse por lá. Mas estou sentado numa poltrona, a uns 10 metros de distância da copa, vejo uma cadeira, estou de frente para uma poltrona, vejo a sala da mesa e do vaso das rosas, o jardim de inverno, o chão e o retângulo que é a porta da copa, tudo escuro.

Em homenagem ao Santiago, eu vou lá no quarto da minha vó, ela assiste novela, falo que tem uma coisa legal lá na copa, peço pra ela sentar e esperar. Aí, eu desapareço no escuro, onde ela é incapaz de enxergar, e tiro fotos. Depois eu volto, falo que não tinha nada não, que ela podia voltar a assistir novela. Ela me xinga e volta lá pro seu quarto, pra sua rotina.

5.11.07

Foto da NASA, as luzes na Terra (clique sobre ela para ampliar)

Homenagem à foto do Luis (publique mais, porque quantidade é qualidade)

Estático, nas fotografias, a vida parece inofensiva. Algo de essencial se perde, de essencialmente nocivo. A vida domesticada. Se o instante é a expressão, inexpressível, do estar vivo, porque irrecuperável e imprevisível, então, a fotografia quando o captura, o faz castrando-o de sua essência, mas preservando a certeza de que um dia existiu. O instante paralisado se duplica em eternidade, essa eternidade que é paz, e é também terror, porque expansão incontida, capaz de esmagar, desintegrando, tudo em seu interior. A fotografia, quando interrompe (ou/e expande) o tempo, neste movimento, faz o morto resurgir em sua imagem antiga (igualzinho ao recém-nascido de outra fotografia). Como por mágica, vida e morte se igualam num outro plano (artificial) da existência.

Quando olhava as fotos de uma viagem, as cores que via eram mais vivas que as da minha memória, os sorrisos(os meus, os dela) eram mais sinceros. Aquilo que vivemos sem entender, num movimento atropelado e sem direção, ganhava cores nítidas, contornos claros, compreensíveis, sintetizáveis. Um olhar pode ser tristeza, mas uma tristeza pontual, localizável e contida somente, exclusivamente, nele. Enquanto na vida, a tristeza se espatifa sobre nós, como um copo de vidro sobre o assoalho da cozinha. Sem querer, sempre encontramos aquele caco que esquecemos de varrer, que nos penetra a carne, que sangra, e sem aviso redói. Dor que não pode ser rasgada, como a foto que nos desagrada. Ato metonímico, rasgar a parte pelo todo. Ato patético de quem não domina o tempo como as máquinas(fotográficas)

1.11.07

A história do meu primeiro personagem

Primeira Parte
A Descoberta

Luis Augusto nunca teve muita consideração por si. Jamais acreditou ser capaz de realizar algo significativo. Não é que não tinha sonhos, obviamente que os tinha. Só não tinha esperança de concretizá-los. A aritmética foi simples: ponderou a sua inteligência, a intensidade de suas ambições, o grau de desconforto que estava disposto a suportar e, sem muita dificuldade, concluiu pela falta de grandeza de seu espírito. Havia lido Braz Cubas, e se entendia, portanto, muito bem acompanhado. Ademais, acrescentava ele, de si para si, “e mesmo que tivesse nascido grande de espírito, do que adiantaria? Daqui desse fim de mundo.”. Neste último ponto, talvez tivesse razão. Mococa do Sul era o fim do mundo. Nasceu, cresceu, e vivia ali até hoje, naquela cidade minúscula e miserável, cravada na monotonia interminável das lauvouras de cana.

Mas, quando num terrível acidente automotivo, seus pais morreram subitamente, foi obrigado a reconsiderar essa opinião. Não a princípio, a princípio foi acordado pela campainha às três horas da manhã, com um policial a sua porta, aparentando não dormir a anos e tremendo muito. Ele vinha pedir que Luis o acompanhasse até o hospital, que teria que reconhecer os corpos. Como o policial esqueceu de comentar sobre o acidente antes, sua primeira reação foi continuar com sono, dissipado pela reação inusitada do policial que, diante da aparente falta de reação do orfão, explodiu num choro convulsivo. E então Luis Augusto compreendeu. Não, obviamente não foi nada fácil, mesmo que por pouco mais de um minuto, o cheiro químico, a sujeira nas paredes brancas, os corpos estáticos iluminados pela luz fria. Só chorou depois de voltar para casa, encostado na parede do corredor, até cair no sono ali mesmo.

Mas não foi o fato em si que obrigou-o a reconsiderar o seu ceticismo. Investigando as propriedades do pai, seus extratos bancários, descobriu que não herdara apenas a pequena casa em que moravam, seus móveis e eletrodomésticos velhos, e a belina verde destruída no acidente. O que obrigou-o a reconsiderar o seu ceticismo foi descobrir que tinha dinheiro. Quanto dinheiro? Teria que investigar. Antes disso, no entanto, todos os sentimentos, do comichão de uma euforia que se antevê até o incômodo incompreensível de se descobrir subitamente só, foram colocados de lado por uma questão que parecia à Luis Augusto muito mais importante, muito mais preemente: porque é que seu pai havia vivido como pobre? Não pensava em tudo que essa escolha o havia privado, só queria entender que pessoa era essa, que durante toda sua vida, havia parecido simples e óbvia? Diante de quem ele nunca havia dispendido um minuto sequer de reflexão séria. De repente, aquele velho enterrado na poltrona da sala, que cuidava do jardim porque sua mãe mandava, que ia a padaria sempre às seis da tarde, que nem ao menos bebia, se tornava um enigma, era engolido pelo breu, repleto de segredos e promessas, por um passado, que pela primeira vez se dava conta, nunca conhecera.

Essa se tornou a sua ocupação. Aquela casa velha, carcomida, tão familiar, surgia como um campo arqueológico intocado, sepultando em seus esconderijos os mistérios da criação. Examinava minuciosamente cada objeto pessoal do pai, ruminava teorias, decifrava padrões nos seus comportamentos mais usuais, procurava indícios de sua vida passada, cadernos de anotações, fotos, qualquer coisa, voltou-se aos seus conhecidos na cidade, aos parentes distantes. Dormia agora na cama dos pais, faxinava a casa-nunca fizera isso antes-, e sonhava com ele de vez em quando. Os meses que se sucederam foram de muitas descobertas. Havia uma peruca empoirada no fundo de uma gaveta; meias gastas remendadas que seu pai não jogou fora; numa agenda de telefone, uma foto 3x4 de uma moça jovem e bela; uma espingarda de chumbinhos no quarto das ferramentas; uma tira de papel rasgado com um telefone pela metade, dentro de um de seus palitós; e muitos outros objetos, que ele catalogava e organizava, guardando-os, segunda distintas categorias, ao longo dos armários da sala e do seu quarto(transformado em escritório). Além disso, considerou imprescindível, a medida em que acumulava informações, contrastá-las com suas próprias memórias. Passava então, vários dias sem mexer em nada, num esforço de rememoração, tentando reviver os momentos passados com o pai, buscando pistas, reconstituindo as suas falas, a variação de seus humores, suas atitudes suspeitas, os momentos de desconforto. Em tudo, em cada uma dessas coisas de que se apropriava, podia residir a resposta para sua questão, provavelmente em todas elas simultaneamente, se fossem articuladas da maneira certa.

Sem perceber, superara a morte do pai, tornando-a a sua vida. Tomara a direção contrária, desbravando o passado, e esquecendo o futuro. Foi pensando nisso que acordou, infestado de picadas de pernilongos, suando toda gordura do seu corpo, num calor insuportável do pior verão do mundo. Olhou ao seu redor e sentiu vergonha, lembrou-se que era rico, e decidiu se mudar dali.

Cinco meses depois, já tinha vendido as terras do pai, recolhido todo o seu dinheiro, embolsado o seguro de vida, vendido a casa, e estava agora de pé na rodoviária, com duas valises grandes, uma herdada de seu pai, e um baú de madeira fechado a cadeado, esperando o ônibus que o levaria para capital. Sabia o que esperava por ele, que não devia se apaixonar por qualquer menina e que não devia dizer aos outros sobre o seu dinheiro, lera Quincas Borba. De fato, além do gerente do banco(que recebeu 1000 reais para ficar quieto), ninguém em Mococa jamais desconfiou da fortuna de sua família. E, logo, logo, isso não importaria mais. Mas Luis Augusto não havia desistido da sua questão, só havia interrompido as suas investigações, para cuidar de si, afinal, agora tinha dinheiro e não precisava mais suportar o mal-cheiro da cidade, o calor das noites de verão e, principalmente, os malditos pernilongos. Os objetos do pai que considerava mais importantes, ele ainda carregava com ele, nas duas valises. As suas poucas coisas estavam no baú, eram poucas, porque nunca teve muitas e porque pretendia comprar tudo novo na cidade. Eram nove horas da noite, decidira não se despedir de seus amigos. A distância, olhava com orgulho para si mesmo, e tentava não fugir da sensação opressora de se ver obrigado a reconsiderar o alcance que dava a seus sonhos. Nunca tinha visto um, mas talvez, quem sabe, era este um começo.


Folhetim

Decidi publicar a minha primeira ficção em folhetim. Assim, quem sabe, vocês me forçam a terminar a história, em seguida o primeiro capítulo.

31.10.07

Noman isanis land

Eu queria ser uma ilha. Mas são as ilhas mais do as esperanças de um navegante solitário? E mesmo quando escrevo coisas que só eu entendo, elas perturbam as outras. Um texto, meu deus do céu, é só um texto. Quem é que acredita em qualquer um deles? A tentativa de escrever é a tentativa de se aproximar de algum ser inapreensível. Então falamos de como a luz se derrama sobre ele, sobre a nitidez das sombras, notamos o leve deformação do ar ao seu redor, seu reflexo incerto sobre as superfícies que o circundam. As vezes, falamos dele, até ele desaparecer. Quem é estúpido a ponto de descrever uma música ou um poema? Quando a experiência em si reside naquelas porções indizíveis, que poderiam muito bem serem confundidas com a nossa imaginação, projeções de nós mesmos, não fosse o estranhamento que nos arrebatando, nos assegura de nossa insignificância e impotência. Pois que beleza é impotência, mutismo diante do absoluto. E no instante em que falo dela, nada, além do nada em que mergulho os meus sentidos. Branco.

25.10.07

Duas imagens interiores

Eu não posso mudar nada completamente, nada de uma só vez. Quando queremos que a vida empoce, ela nos arrasta como enxurrada. Quando queremos que ela se transforme, nos vemos restritos ao curso do mesmo rio. O tempo que passa um segundo de cada vez não existe. Cada unidade temporal e sua multiplicação, o que é que representam quando olhados de perto, para nós mesmos? O que representam os segundos que nos atravessaram, a cada um de nós, um segundo pode valer mais que um ano, ser igual a três dias, quase uma década.

Mas não falava do tempo, falava da mudança. E falava também da comunicação. Nos textos que venho escrevendo neste blog, já abandonei toda a pretensão de me fazer compreender. Já não conto, nem hipoteticamente, com a atenção cuidadosa de quem me lê. Como posso? Quando eu mesmo não me dedico a leitura dos textos de vocês com o carinho que deveria. Os textos que escrevo aqui terminam sendo trechos interrompidos de sensações-pensamentos de um nódulo interior qualquer.(Nossos pensamentos não são como pequenos tumores que dificultam a passagem de certos flúidos vitais?). Densidade demente que me apartar do outro e me insula do mundo.

Assumi o pressuposto de que não importa quem ou como me leêm, seguirei escrevendo. Um autista assumido então? É, parece que sim. Não minto, isso me assusta. Não era para eu ser autista, mas se o mundo não é como quero que ele seja, que eu contrua o meu? Um mundo em que ocupo o centro do sistema é melhor do que um em que não fui esquecido, porque nunca descobriram que eu existia. Esse segundo, em que ocupamos a periferia esquecida, é o mundo real. É? Ou é mais um mundo interior, só que mais assustador? A questão não é qual é o mundo real, e sim, que importa o mundo real? Minhas paranóias e disfunções devem ser contidas, viver sobre essas bases me aleija, porque deixo de acreditar que as minhas pernas me sustentam.

Levei a minha analista a distinção entre problemas psíquicos e problemas filosóficos. Ela, pessoalmente, não entende o que são problemas filosóficos, o que por si, mostra as limitações dela. Mas as limitações delas não importam, porque quando ela disse que não entendia o que são problemas filosóficos, ao invés, de começar a discutir com ela, e tentar convencê-la de que eles existem, e o que são, eu simplesmente questionei a distinção que eu, pessoalmente, faço entre esses dois tipos de problemas. E fui obrigado a reconhecer que no passado recente havia incluído na categoria filosóficos, problemas psíquicos que eu simplesmente não tinha coragem, nem vontade de enfrentar. Precisamos de análise porque não podemos confiar nos nossos pensamentos. É isso que na verdade eu penso hoje. Não é porque pensamos, que sabemos como pensamos. Não conhecemos o nosso próprio pensamento(como processo), apenas os seus resultados.

Mudança(e a impossibilidade da mudança), leva a comunicação, que leva ao blog, que leva ao autismo(negação da comunicação), que leva a análise, que leva ao meu pensamento(e a minha ignorância sobre ele). Só não entendi a relação entre mudança e comunicação. Porque é que construí essa passagem? Porque são as duas pontas que quero aproximar eu acho, porque o que quero mudar é o meu autismo, quero poder me comunicar. Mas eu já desisti e me decepcionei tanto com isso.

Minha analista insiste num conceito de normalidade ao qual eu deveria me enquadrar. Não, não a repudiei por causa disso. Me perguntei não o que essa idéia continha de errado, porque isso eu chegaria facilmente. Me perguntei o que essa idéia podia conter de verdadeiro, de correto. E de fato ela continha. E de fato eu precisava me normalizar. Sei lá o que é normalidade, mas isso não me impede de me normalizar. Porque, do ponto de vista da minha psíque, não importa o verdadeiro conceito de normalidade, não importa porque, quando eu penso em me normalizar, isso possui um sentido para mim. E o meu sentido de normalização é o de fazer as pazes com o mundo e com a vida. Será que foi isso que a minha analista quis me dizer? Provavelmente não, mas isso não importa, enquanto eu puder me servir de suas palavras para a extração de certos tumores malignos. Mas se o autismo é para mim um problema. (se lembram de quantas vezes vocês falaram comigo e eu não escutei, e estava preocupado apenas com o que eu tinha a dizer, essa é uma das forma do meu autismo). Mas se o autismo é para mim um problema, não é a minha maneira de ver e de fazer a análise, portanto a minha maneira de lidar com o autismo, também uma forma autista? Eu não estou simplesmente ignorando a minha analista, usando ela para refletir sozinho sobre o meu próprio mundo, mas sem de fato escutar o que ela tem a me dizer?

E o que me assusta mais é que eu gosto do meu mundo, e se imagino dentro dele como seria o mundo de fora, esse mundo de fora me assusta, parece inóspito, sem qualquer ordem, sem justiça, sem beleza, sem paz. Não quero abandonar o meu mundo, dentro do qual vivo todos os prazeres da vida.

Duas imagens anterios

A pessoa sentada no parapeito, não é uma pessoa é um boneco.

O búfalo é cego.

18.10.07

Formalismo subjetivo

olha aí a estrofe do Bruno:

Eu bem que queria ficar de papo pro ar
Mas a vida não dá
Olhei no relógio, estás atrasado
Estou em atraso
De tanto reclamar


Vou tratar de uma única questão. Proponho que o último verbo (reclamar) está atrapalhando o ritmo do verso e da estrofe. Ele tem uma sílaba a mais.

Me explico:

bem que queria (entre as tônicas, duas átonas)
papo pro ar (entre as tônicas, duas átonas)
vida não (entre as tônicas, duas átonas)
Olhei no regio (entre as tônicas, duas átonas)
estás atrasado (entre as tônicas, duas átonas)
Estou em atraso (entre as tônicas, duas átonas)

De tanto reclamar (tem três átonas aqui)

Até acho que o verbo reclamar nem seja essencial para cena. Há sinônimos e palavras próximas com duas sílabas que se encaixam no ritmo.

Agora, eu não sei se foi intenção ou não do Bruno quebrar o compasso. Talvez seja uma questão que não importe, tudo bem. Reafirmo, pessoalmente, eu acho que um verbo (para substituir o reclamar) de duas sílabas se encaixaria muito bem no ritmo da estrofe.

16.10.07

(primeira proposição sobre o sentido da arte)


Prêambulo

Em pelo menos uma coisa os marxistas tinham razão (às vezes sem se darem conta): toda luta política se reduz a uma disputa classificatória.

Parte única

Fui a uma palestra sobre Walter Benjamin, que distinguia três maneiras de se apropriar da “cultura”: pelo conceito de tradição, pelo de herança,e, pelo de transmissão.

A tradição é a maneira burguesa de se apropriar do passado, que é transformado num inventário de “bens culturais”, sobre os quais a sociedade burguesa exerce a propriedade.

A herança corresponde a propriação do passado pelo marxismo vulgar, que por sua vez, o reduz a um arsenal de potenciais intrumentos à disposição da luta de classes. O problema é que, neste caso, o passado segue sendo uma propriedade.

Só o conceito de transmissão é realmente revolucionário. Por que propõe não ver o passado como tempo morto, que ao ser acumulado, leva inexoravelmente ao presente. Um passado assim contruído, só pode ser mais uma forma de alienação, e portanto, mais uma barreira à verdadeira transformação. Um futuro novo exige um novo passado, pois o sonhar nasceria sempre da memória. Mas de uma outra memória, colhida nesse outro passado. Memória viva que se permite surpreender, encontrando no passado algo novo, e não apenas formas conhecidas que anunciam o presente.

Bem, bem, bem. Mas afinal, eu, sim eu, o Renato, não leio atualmente nada que, de alguma forma, não se encontre já consagrado pelo cânone ocidental. Eu devo então ser um burguês. Lembro agora que tanto eu quanto o Luiz defendíamos, e há não tanto tempo atrás, o Eliot.

Mas, não. Por outro lado, quando eu leu os clássicos não procuro neles apenas aquilo que eles contém de antecipação do presente. Intensa e incessante é a minha busca pelo diferente, por aquilo do passado que nada se assemelha conosco. Estou, então, em busca do novo! Ufa, sou revolucionário.

Mas todo mundo sabe que eu não acredito na revolução, e nem sou marxista, nem vulgar nem de grife. E sou mais vulgar que burgês, e mais de grife que marxista. E, caminhando por aí, cheguei a um aforismo ( e nele me sentei com preguiça de seguir mais adiante):

Aquilo que eu falo sobre as coisas grandes, tão grandes que eu não consigo ver, parece tão insignificante quanto aquilo que digo sobre mim, tão pequeno que ninguém me vê

E a arte não seria, talvez, essa instância, capaz de comunicar ao tão pequeno o tão grande, e de encontrar no tão grande o tão pequeno?

15.10.07

Comentário de texto

Olha isso:

Vários pescoços passavam por sua fatal espada, e a cada homem morto por ele, um grama de uma certa felicidade vinha-lhe à tona. E com mais energia para matar ele ficava.

Ou isso:

Parou seu cavalo, deu meia volta e correu girando a espada a cima (acima) de sua cabeça. Não estava pensando, estava simplesmente com ódio, desejava matar todos por aquilo. Esqueceu todas as imprudências que cometia ao correr sozinho, esqueceu que poderia vingar-se depois e esqueceu que era um simples soldado, que não podia tomar decisões por ele mesmo. Atingiu vários homens que caiam (caíam – hiato, já estudamos) com cortes e furos fatais pelo corpo, o sangue destacava as tristes figura. (bom parágrafo, Ares é um ser inteligente: dialoga com o narrador que transmite para o leitor)

Não sei ainda quão consciente você está de como anda sua escrita. Ela está boa. Mesmo porque às vezes você seja mau aluno, meio que debochado, meio que opressivo na rebeldia. Sua escrita é boa. A forma como você une a palavra aos significados é interessante de se ler. Você tem uma sensibilidade criadora.

E isso nos diz muito sobre você.

Que o seu herói tem sintomas de vilão conforme os atos vão acontecendo, percebe? Isso é um sintoma que me diz que um dia você vai gostar de Shakespeare. Por mais que por muito tempo você irá repudiá-lo e esquecê-lo num canto.

Que sua simpatia com a Antiga Grécia - com um mundo revolucionado de guerras e aristocracia – me revela seu interesse pelo tempo. Pela história que vai deixando rastro.

(Não é? Seu metaleiro de merda? (essa parte é brincadeira))

Continue escrevendo no seu máximo, porque dá tempo. Seu livro já está encaminhado, basta se dedicar constantemente agora no final. O final, pense assim, pode ser a parte mais intrigante; afinal ele é um herói que anda passado de vícios.

Dedique-se porque o livro te dará inspiração lá na frente.

12.10.07

uma letra, por sinal horrível

Assim, Caros amigos

Ando com saudades da conversa assim baixa,
Dedilharmos um pouco de prosa e três dedos de olhar
No primeiro botequim em que se possa desaguar

Ando com aquela preguiça de escrever cartas longínquas
Destravar a minha língua em uma pena sem te enfastiar
No segundo papel já bem sei que vou me desarmar

Se encontrar um esquina por aí
Dê a volta, estou por ali
Entre duas cadeiras
Dobrando guardanapos
Tirando dois rótulos da garrafa
Mil casas de palitos de dentes

Eu bem que queira ficar de papo pro ar
Mas a vida não dá
Olhei no relógio, estás atrasado
Estou em atraso
De tanto reclamar

Ando sem deixar saudades
Agora vou para as bandas de lá
Dormir outro tanto, ter que acordar

Ando, senão a coisa enguiça
Vou te escrever mesmo enchendo linguiça
Só para não deixar de constar

8.10.07

O Blog vive! E viva o blog!


Só falta você!

O reverso da memória

Nós não somos feitos de ar. Se bater o vento, não saímos voando por aí não. Em toda a nossa finitude, rasgamos o mundo ao meio e deixamos nossa marca, e depois, todas as pessoas morrem e vamos embora junto delas. Mas até esse momento, somos de pedra, não é que o tempo nos derruba, o tempo é a proporção de nossa força, dizemos, apenas o tempo nos derruba. Um dia é uma vida inteira, e uma vida inteira, um único dia. Ou com sorte, uma hora e meia de filme.

A morte é um sentimento agudo e uma sombra densa que esconde a pupila no fundo dos olhos. Mas não vale morrer para sentir a morte. Daí não conta, porque sentimento pressupõe a continuidade da vida. Estou falando, portanto, da morte como sentimento, e não como realidade. Sobre a realidade, o que resta a ser dito? (cada um que viva a sua)

Mas voltando a morte. Que é aguda porque nos perfura de um lado a outro, e nesse movimento, sentimos algo que entra, veloz, certeiro, e em seguida, algo que sai, e brilha lâmina surpreendente para fora, diante de nossos olhos, o sentimento que se materializasse.

Já sonhei que morria com tiro de revólver e caindo de prescipício. No primeiro caso, segurava as entranhas com a mão, no segundo, sentia vertigem ao fixar os olhos nos meus pés, pequeninhos e sem chão.

Mas a morte, pra se sentir, há de permanecer. E quando vi meu avô no caixão, não vi a morte, não vi meu avô, vi estirados lá, todas as pessoas que choravam em volta, minha mãe, tias, avó. Mas vi também, vi também! Vi também os monges budistas que pediam mais dinheiro para continuar a reza e que, mesmo com aquelas roupas engraçadas e os cabelos tosados, não me convenciam, tinham cara de quitandeiros (porque japonês comerciante, para mim, é quitandeiro). Então, enfim, não vi morte lá, vi dor de alguns, lágrimas de outros, compaixão e comércio, e tudo isso que enumerei é vida e não morte.

Cade a morte, então?

Em “Santiago”, brutal e estática

(filme de João Moreira Salles)

(Má, é em branco e preto, mas vai ver...)

(Quem não gostar do filme, nem comenta que assistiu)

(Quem gostar, eu amo três vezes mais, ou cinco minutos a mais)

Música e Filme

Há algum tempo venho pensando que deveria fazer minha primeira intervenção nesse nosso espaço. Várias idéias surgiram, mas deveria ser algo impactante, já que havia esperado tanto. No entanto, nada mais simples e óbvio do que uma recomendação musical fruto do caos aéreo (de fato, resolvi escutar essa cantora por recomendação da revista da Gol) e uma cobrança de que todos aqui assistam ao filme Tropa de Elite (se é que já não o fizeram).
Não sei se algum de vocês já conhecem, mas estou tomada pela voz da Mariana Aydar. Seu único CD se chama Kavita.
Já o filme é capaz de provocar uma gama bastante ampla de sensações naqueles que o assistem e, até agora, ele tem se demonstrado perfeito em revelar como seus espectadores/habitantes de uma grandes metrópoles entendem os "mocinhos" e "bandidos" de nosso cotidiano. Garanto que ele não passará em branco para vocês. Para mim confirmou algo que eu pensava sobre mim mesma. Se é que vale de algo para vocês, valeu para saber que a hipocrisia nunca foi um traço marcante em mim. Aos mais críticos, recomendo que vão deixando de lado as críticas ao roteiro e àquilo que o filme não explora e se deixem levar pelas emoções que o filme provoca. Assim que todos tiverem assistido, proponho explorar mais o assunto.
Quem sabe, agora eu desencanto.

5.10.07

Recomendo

Em meio a buscas de autores contemporâneos de nossa geração, tive a felicidade de cruzar com o livro de Cecília Gianetti, Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. É, foi feliz que fechei a contracapa do livro, feliz por ter vislumbrado beleza ali, não a beleza própria das coisas belas, mas aquela mais difícil de capturar porque emergente das camadas sujas de uma realidade brutal. No livro da Cecília, a violência urbana do Rio encontra uma expressão literária que eu sinceramente não acreditava possível, pois não é somente cenário para peripécias subjetivas, mas desempenha o papel ativo de tanto desencadear a narrativa, como de fornecer o material que deverá ser elaborado e decifrado pela mente da protagonista. O testemunho de uma cena de violência brutal detona um processo de desconstrução e reconstrução da identidade da personagem. A quase dissolução do eu em imagens tecidas em raios de lembranças e alucinações abrirá também um caminho de libertação. Nesse contexto, a tessitura do livro tem a consistência própria à memória e ao delírio, os quais impõe duplamente um caráter fragmentário à sua estrutura, o que não suprime, por outro lado, uma narrativa sutil que é sugerida aqui e ali.
Os conteúdos alucinatórios parecem ser a única resposta coerente à realidade social (pelo menos, de um ponto de vista de classe média, que é afirmado logo de partido no livro), sendo uma tentativa de organizar e conferir sentido à sua irracionalidade. Nesse esforço, competem em irrealidade com o mundo externo mesmo, conduzindo à dúvida do que é mais absurdo, se os delírios ou a sociedade.
A memória, por sua vez, abre múltiplas temporalidades no narrado. A maior parte do livro é construído como um diário do processo de desintegração do eu da personagem após o testemunho da cena de violência e isso já constitui uma forma de rememorar – e, portanto, de deformar e selecionar –, mesmo que um passado próximo. Naquele processo, como uma segunda camada de memória, lembranças distorcidas vão fornecendo pontos de referência para recompor um passado que muitas vezes a protagonista quer negar voluntariamente.
Fechar o livro da Cecília numa caixinha de poucas linhas é injusto, mas foi minha tentativa de despertar em vocês um pouquinho de vontade de compartilhar essa leitura comigo (posso emprestar o livro para quem pedir primeiro). Segue um trechinho para sentirem o ritmo da toada:


Coloco o homem porta afora. Bêbado, vai fácil. Giro a chave três vezes e fecho ainda outro trinco acima da fechadura. O homem vacila, escuto seu corpo bater contra a madeira da porta, soando magro e disforme. Dou as costas àquela aporrinhação, leve, estou livre de alguém que não reconheço mais, indiferente à dor fanfarrona do sujeito. É como se pela primeira vez eu me desse conta de mim mesma, leve, ainda que ignore informações básicas que – é possível perceber pela maneira como meus amigos me olham quando me fazem perguntas – eu deveria, por algum motivo, reter. Além de seus nomes e profissões, algumas outras informações como: a importância, na minha história, do homem que uiva do lado de fora. Subo as escadas do duplex até o quarto, adivinhando que agora ele gasta com ninguém a cara de cachorro perdido, bufando na calçada deserta a aporrinhação que me desbotaria o sangue, caso eu me deixasse abater.

3.10.07

Sonho de 4 de dezembro de 2006

Sonho de 4 de dezembro de 2006, na noite entre o primeiro e o Segundo dia de filmagem de Réquiem. (É um sonho sonhado mesmo!)


Um jovem, inexperiente, percorre todas as madrugadas um mesmo percurso de carro. Em uma delas, por acaso ele precisa parar num Bar de beira de estrada. Este bar não é um lugar que ele normalmente pararia, escuro, letárgico, as pessoas que o freqüentam parecem vagabundos, viciados, bandidos. A atmosfera decadente chama a sua atenção, No bar não há mulheres com exceção de uma (Não sei seu nome), ela é mestiça de negra e indígena, tem o rosto assimétrico, a pele mal-tratada, veste-se vulgarmente, saia curta, peças transparentes, coxas grossas, traseiro abundante, o cabelo alisado, mas se comparada com as outras pessoas daquele lugar é linda. Ela parece acompanhada por um homem ruivo, com terno e gravata, mas o colarinho da camisa aberta e o terno meio encardido, uma barriga de chope, bigode e uma barbicha ruivas. Calvo, mas com cabelos ao redor da cabeça e parece que a muito tempo não os corta. Para o jovem, o homem é completamente repugnante, olhos fundos, suor, os movimentos pesados, parece completamente bêbado. O jovem repara nela, tenta distinguir se o ruivo realmente está com ela. Neste instante parece um absurdo que um homem tão ridículo e pequeno esteja ao lado de uma mulher violentamente maravilhosa. Ela é violenta. Ele sabe no fundo que a mulher é completamente vulgar, mas a acha sexy, um olhar seguro, que se impõe como se nada a ameaçasse, parece se sentir em casa, e não temer a violência do mundo. O jovem está cagando de medo do bar e das pessoas que o freqüentam, mas ao mesmo tempo é atraído pela atmosfera e pela presença perturbante da mulher. A mulher repara que ele olha para ela, ela olha fixamente, ele desvia o olhar, ela cochicha algo com o homem ruivo, ele sorri com ela e depois olha para o jovem, sem se importar com o fato de que o jovem percebe estar sendo observado. O jovem sabe que ela sabe que ele se sente atraído por ela. Quando ela olha para o jovem da forma como ela olhou, é como se ela dissesse para ele, algo que ele preferia não ter assumido para ele mesmo. O ruivo termina a dose que tomava, agarra a mulher pela cintura e passa por traz do jovem, o jovem sabe que está sendo provoca pelos dois. O casal deixa o bar, e ele sai em seguida. Volta para a estrada, sua vida continua

Outro dia, passando de novo pela estrada de madrugada, ele não resiste e pára de novo. Dessa vez, o ruivo está passado no balcão. A mulher está ali, como se nada tivesse acontecido. O jovem se senta em outro ponto do balcão de onde ele pode ver a mulher. Ele olha, o jovem não sabia se estava lá para arrefecer o seu desejo ou alimenta-lo. Nega-lo ou realiza-lo. Mas quando ela veio andando em sua direção, tudo que ele pode sentir foi um medo opressor e um desejo incontornável. Ela o pega pela mão e o leva para um quarto numa pensãozinha ao lado do bar. Ninguém no bar reage a atitude da mulher, o ruivo continua apagado no balcão. Só quando os dois já estão no quarto que ela fala com ele. Sentada na cama, ele de pé, começa a tirar a roupa e o informa que o programa é 12 reais. Só aí o jovem entendeu que ela era uma prostituta. Ele fica chocado e depois constrangido: porque ele não havia deduzido isso.

Ele mais uma vez fica constrangido, agora, ao pensar que ele desejava comer uma mulher que dava por 12 reais. Sentiu nojo, mas não dela, mas de si mesmo, por desejar uma mulher que certamente havia passado por homens asquerosos. Não sabia o que fazer. Ele já não queria mais ficar, mas tinha vergonha de sair, medo da reação dela. O jovem perguntou para ela do ruivo, ela explicou que sim, que eles eram um casal. Que eles moravam em outro quarto naquela pensão, que ele a sustentava e ela cuidava dele. O jovem perguntou por que, e ela respondeu que porque sim. Neste instante, mesmo ela custando 12 reais, o jovem voltou a se sentir atraída por ela. A mesma força, segurança, olhos incisivos, voz calma e sincera, nada afetada. Ela conseguia dar dignidade para a situação. Apesar dela cobrar 12 reais, ele percebeu que também ela se sentia atraída por ele.

O ruivo entra de repente no quarto, ela não reage, o jovem quase morre do coração. O ruivo entra, desaba na cama e começa a dormir. Assustado, o jovem sai correndo do quarto, absurdamente constrangido e jurando nunca mais voltar. Mas ele voltará. Ele está apaixonado pelas circunstâncias. Aquele mundo decadente e estranho é humano também, nem mais, nem menos.

2.10.07

Endoscopia

Quem sabe este blog ainda encontra o seu propósito, quem sabe ele segue em frente, até, finalmente, o dia em que as outras pessoas que dele fazem parte também tomem o exercício da escrita como seus. Se quando nos encontramos, o fazemos em bando, já muita coisa se perdeu, talvez tênue demais para ser encontrado. Aqui, sem pretensão, ou tão pouco quanto consigo, ofereço alguns pensa(senti)mentos, na esperança de que eles contenham um pouco de mim, e que nesse pouco, ponto cego do texto, alguém identifique, nos contornos borrados, nas cores esmaecidas, um amigo, ainda que a distância.

Aos meus amigos, queria oferecer longas descrições de memórias e sonhos. Gosto deles hoje ainda mais. Gosto de meditar sobre do que são feitos, imaginar uma mesma matéria translúcida que modelamos na mais recondida intimidade, tão profunda e primordial, que se mantém além do alcance de nossas consciências. Hannah Arentd poderia ter dito, que ali onde os sonhos e a memória são feitos, é que se encontra a última fortaleza da individualidade, fonte da verdadeira esperança contra toda forma de totalitarismo. Memórias e sonhos como nossos duplos, espectrais e fantasmagóricos, mas que diante de nós, ainda preservam a força da vida, a marca do instante que não se repete, o rastro do tempo.

Está lá ainda meu quarto de dormir, a luz amarelada de um fim de tarde, a escrivaninha de pinho, fácil de marcar com a ponta do lápis, o cheiro da roupa de cama, diferente em cada casa, a resistência perfumada do sabonete de glicerina. Objetos-sensações que forçam a continuidade entre fragmentos de vida, mais ou menos dispersos, indiferentes entre si, que chamamos de eu.

E todas as narrativas que nossa consciência ata e desata? Aí não há nada sólido como as sensações, nada certo como nos sonhos, daí nascem apenas confusão e ambiguidade. É o nosso jogo de montar peças que não se encaixam, nosso mal-hábito de deduzir o passado do presente, o presente do futuro, e este último do primeiro.

Viver só pode ser um mal-entendido.

19.9.07

Por que a verdade existe mas a realidade não...

“O questionamento do que é costumeiro é a condição de um conhecimento dos objetos mais próximos, que ignoramos justamente porque permanecem ocultos pela familiaridade que os encobre. Isso vale também para o passado.” Beatriz Sarlo

E não há nada mais costumeiro e, portanto, nada mais oculto pela familiaridade que nós mesmo. A completa ignorância a respeito de si é condição inata ao ser humano, o êxito em remediá-la, em contrapartida, depende sempre da disposição de cada um.

Diante de mim, na tentativa de me conhecer, não há um espelho pelo qual posso enxergar o meu reflexo. Não há imagem independente da minha vontade que se forma e se oferece à escrutinação. Diante de mim, há apenas textos a serem escritos, textos que só podem ser lidos a medida em que são escritos. É através dessa ação de escritura-leitura, que exercito a consciência de mim. Leio, o que em seguida se incorpora a mim, o que em seguida retorna aos grotões ocultos da familiaridade, tendo no entanto, em sua breve passagem, transformado, não a uma imagem, mas a mim mesmo.

Mas esse escrever é criar ou descobrir? Quando escrevo crio a mim mesmo? Ou revelo aquilo se ocultava? Criar é o ato cujo conseqüência simultânea é a descoberta.

Mas a leitura não é sempre interpretação? E toda interpretação não está sempre apartada da verdade? O texto que leio não é sempre a expressão imperfeita da mente de seu autor? E a própria leitura, não é sempre uma tentativa igualmente imperfeita de inferência? Sim. E é por isso que apenas em relação aos meus próprios textos, posso ter a pretensão de alcançar a verdade. Sendo apenas nesse caso que, a imperfeição da escrita somada a imperfeição da leitura, nos aproxima, ao invés de nos distanciar, da verdade.

A verdade também não é uma imagem, apreendê-la não é identificá-la. Não sei se a verdade pode ser descrita. Um som, por exemplo, só pode ser descrito em palavras corrompendo sua qualidade essencial e, consequentemente, apresentando como sua descrição a sua negação muda. Não sei se a verdade é algo que se vê, que se bebe, ou que se escuta? É algo que existe porque se manifesta, porque age e reage. Talvez apenas as nossas ações possam ser verdadeiras, e o simples ato de refletir sobre elas, produza o inverso da verdade.

O passado é como a verdade e o som. Ele vive apenas na ação, portanto no presente, apenas no instante em que é acionado pela memória. E a memória é uma modalidade da ação escritura-leitura, que cria, descobre, projeta e interpreta, não a verdade, mas os acontecimentos que ocorreram.

O problema é que o texto que a minha memória escreve tem a pretensão de se referir a uma realidade exterior, quer ser uma paráfrase do mundo e de minha presença nele. Se acredito no sucesso da minha mediação a mim mesmo, duvido da acuridade de minha mediação do mundo, pois não posso afirmar a homologia deste com a minha mente. Assim, a soma das imperfeições da escrita e da leitura, no caso da memória, ao invés de me aproximar, me distancia da realidade.

Estou, então, sempre tendendo a deixar a realidade escapar. Talvez nunca a tenha encontrado. Não sei quão próximo ou quão distante me encontro dela. Nada posso afirmar. Deve existir a pessoa que ao olhar para o passado, encontre a realidade. Talvez essa pessoa seja eu. Mas isso não importa, já que nada me permite saber que o que leio não é uma paráfrase distorcida do mundo.

16.9.07

determinismo lingüístico?

os limites da sua linguagem denotam os limites do seu mundo”, essa é uma idéia que carrego comigo desde o colegial, não me lembro mais de como chegou até mim, mas recordo bem que teve o efeito de uma revelação. a frase é do Wittgenstein, um filósofo austríaco que muitos pós-modernos gostam de citar, não conheço nada sobre ele além de que discutia filosofia da linguagem e epistemologia, ou seja, nada mesmo (logo, a forma como eu absorvi essa frase pode não ter absolutamente nenhuma relação com o que o autor queria dizer, é sempre o problema das frases descontextualizadas, mas de fato me interessa pouco o que ele queria dizer, quero comentar o que a frase me faz pensar).

essa frase me diz sobre o poder das palavras em moldar nossa percepção do mundo. sabem, olho para mim e percebo que estou sempre lutando contra as palavras, esticando-as na direção em que preciso que elas me legitimem ou encurtando-as para que não expressem mais do que o conveniente. aqui mesmo no blog, já distendi o “nu”, aparei as “classes sociais”, extingui o “amor” e até retalhei o “sexo” (não é consciente não, dei-me conta agora). não é preciosismo, é que as palavras são nossos anteolhos, iluminam somente até os limites do que designam, cegando-nos para o que não significam. se você não tem a palavra – que carrega um conceito – “capitalismo” no seu vocabulário, ele não existe para você, por mais que exista uma realidade aí cujo fim único seja a acumulação. tanto é assim que desafio alguém a encontrar essa palavrinha em qualquer meio de comunicação de massa. se as palavras fossem inofensivas, não haveria uma disputa em torno do vocabulário que pode ser usado, porque as palavras permitidas – e suas definições – já definem o que pode ser pensado.

8.9.07

sexo no divã

apoiando-me no ímpeto categorizador analisante que todos compartilhamos, peço licença para esquadrinhar um pouquinho o sexo. com base em vasta experiência – não exatamente própria, mas as alheias –, observei que existem duas modalidades: o sexo-cena-de-filme-pornô e o sexo-ternura.

o sexo-ternura é a objetivação de algum forte laço afetivo, é uma forma linda do sentimento de gostar se materializar, quase dando-se ao alcance das mãos que, curiosas, insinuam-se como exploração do corpo do outro como um todo, seus cheiros, gostos, texturas e memórias. nessa modalidade, o gozo não está no horizonte das exigências e o que ganha importância é a presença não de um outro imaginado, mas do Ser Amado. o sexo como uma sincronia de movimentos delicados de corpos que se gostam – mesma substância da dança – nos lembra da experiência da ternura, insistentemente soterrada pelas asperezas da vida, porque tocar outro ser humano não é atitude usual do cotidiano e, por isso, vamos perdendo a prática, esquecendo-a como possibilidade de diálogo mudo entre almas.

o sexo-cena-de-filme-pornô tem como meta primordialíssima exatamente o gozo e, sendo alimentado pelo tesão, possui um alto teor imaginativo (é a este sexo que um personagem do caio f. abreu se refere quando diz acidamente que “Sexo é na cabeça: você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá gozo, não com uma pessoa real, entendeu? Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é sozinho, boy”. não é todo sexo que é sozinho assim, que é imaginação assim, para afirmar isso parece que o caio não provou da outra modalidade, que é todo o contrário disso). essa prática sexual tem sua inspiração nos filmes pornôs, compartilhando com eles duas de suas características: suas cenas tem um ritmo repetitivo e recortam o corpo, ou seja, o corpo é significado por alguma parte dele somente. minha explicação para a semelhança entre esse tipo de sexo e os filmes pornôs é que boa parte dos homens, heteros e homos, foram criados em sua adolescência com esse material educativo, o que vejo como problemático porque acaba por ditar os padrões do que é desejável, do que é prazeroso e mesmo do que é sexo e do que não é. aí a imaginação sexual fica presa nesses trilhos e os homens buscam reproduzir em suas transas aquelas cenas gravadas na memória, porque isso é o que pode ser chamado “sexo”, daí aquele gosto pela vulgaridade que se identifica tão facilmente nas narrativas masculinas (talvez extrapolando, a fantasia sexual dos homens é habitada pelo fantasma competitivo dos atores pornôs masculinos, modelos das “medidas” e das “performances”). alguém aí poderia tentar me convencer do contrário, mas considero os filmes pornôs um universo simbólico redutor das experiências possíveis de homens e mulheres. acredito que o sexo-cena-de-filme-pornô assim definido possa ser cultivado na prática, com esforço de libertação do peso simbólico das imagens adoslescentes – ou não tão adolescentes assim –, simplesmente como sexo-gozo e aí não entro em juízos de valor (a única diferença do sexo-gozo em relação ao sexo-cena-de-filme-pornô é que as fantasias sexuais não são pré-formatadas pela ditadura dos padrões pornográficos).

então agora diante do sexo-gozo e do sexo-ternura, tenho uma tentação de dizer que prefiro um ao outro, mas bom mesmo é quando um vem seguido do outro, qualquer dos dois sozinhos é frustante – mas talvez o grau de frustração pela ausência de cada um seja diferente entre eles, dependendo do momento ou da pessoa. hierarquizá-los seria algo mais ou menos assim como dizer prefiro cinema a bolo de chocolate, sabe, parecem atender a necessidades diferentes: o sexo-cena-de-filme-pornô está lá junto com o comer (penso menos em brócolis do que em chocolate) e dormir enquanto o sexo-ternura se aproxima melhor de nossa carência de ler poesia e assistir a unas películas. talvez só sejam mesmo duas formas – complementares? – de compartilhar do corpo do outro, porque a única coisa que têm em comum é que ambos exigem o nu – e entra o nu de novo na história.

queria muito muito saber a opinião de vocês sobre esse assunto mais ou menos delicado, podem e devem bater em minha visão talvez um tanto inexperiente.

7.9.07

Post-it

Tem horas que as coisas me escapam, perco "essa calma que inventei, bem sei" (Elis). Embrenha-se delicamente a fissura abaixo de mim, na minha cabeça e no meu peito. Olho-me e vejo pontos desconexos entre o passado, o presente e o futuro. Sou uma figura que algum deus brinca de traçar, ligando às vezes os pontos pelo avesso. Pergunto-me sobre o que sou e me vem um enigma. Este, por incrível que pareça, nunca é escuro, sempre claro, colorido e retilíneo: um cubo mágico. Sento no chão, cruzo as pernas e passei a tarde inteira ontem olhando-o. Sempre me escapo. Todos os qualitativos que pregramos nas pessoas são fugazes, apoios que soltam como um post-it amarelo no calor do vento abafado. Tem gente que não sobra nada, era só adjetivo. Mas lutamos tanto por estes papeizinhos!
Obs.: se os nudistas deste blog assim quiserem, este é o meu conceito de ficar nu.

5.9.07

entre coisas e nomes, um universo

um dos grandes lemas de auto salvamento do bruno diante de nossa desconfortável condição de acadêmicos-em-formação-assustados-com-uma-academia-bem-menor-do-que-nossos-sonhos-desesperados-na-busca-por-caminhos-de-adaptação-e-sobreviência-emocionais é que mesmo nas pequenas coisas contempladas pelos limites de uma dissertação de mestrado é possível cruzar com as grandes questões (dê em post futuro uma versão mais elaborada de sua teoria, se quiser). então queria contar para vocês qual é a descomunal questão epistemológica quase filosófica com que me deparo ao estudar meu pequeno-grande tema sobre classes sociais, porque esse é um assunto que encontro na raiz de tantos mal-e-meio-entendidos em tantas discussões nas ciências sociais e nas mesas de bar.

minha principal conclusão ao estudar as teorias sobre classes sociais é que o problema de fundo quando se busca uma definição das relações de classe é que a realidade é constituída de duas dimensões: uma objetiva, que independe das percepções e do conhecimento dos agentes; e outra construída, que abarca as representações dos agentes sobre o mundo social. a dificuldade que essa dupla constituição da realidade social cria para uma teoria vem do fato de que essas duas dimensões não são coincidentes, não se correspondem imediatamente, porque entre as coisas e seus nomes há um grande espaço para manipulações e interpretações.
daí a debilidade de qualquer teoria de classes que se mantenha na apreensão da dimensão objetiva das relações de classe, definindo critérios capazes de especificar quem está fora e quem está dentro de determinada classe. não é possível falar das fronteiras entre quaisquer grupos sociais sem considerar como essas fronteiras são simbolicamente construídas na sociedade. não basta dizer como é o mundo aí, porque esse mundo aí só tem valor explicativo em função de como é elaborado pela percepção dos agentes que participam dele.
e quando digo percepção dos agentes é preciso incluir a influência das próprias teorias, que se apresentam como autorizadas a dizer o que é o mundo social. nesse sentido, é possível dizer que o marxismo – sua interpretação sobre a sociedade capitalista – contribuiu para criar o proletariado. claro que as percepções e conhecimentos não podem ser completas alucinações, mas devem estar referidas em alguma medida à dimensão objetiva, que, no entanto, é um limite bastante amplo para a elaboração lingüística e semântica.

quem acha que tá confuso?

1.9.07

outra imagem e uma descoberta

falando em imagens - agora uma bem mais banal - e em corpos nus, lembram que eu dizia que era uma cabeça gigante pregada a um corpinho? pois é, descobri que não sou não, nem nunca fui. meu corpo é do tamanho do meu coração, imenso, e se expande em todas as direções só para embrulhar o outro na minha ternura. tudo esteve sempre ali, mas só agora enxerguei claramente que o amor, para mim, não é feito de palavras, nem de acertos, nem de atenção, é feito de tato. “eu te amo” não vai muito além de um conjunto de sons cantados por quase todas as músicas, mas é no toque que encontro e comunico o sem fundo do que sinto pelo outro. o amor está na ponta dos dedos que vasculham milímetro a milímetro as fissuras e reentrâncias do corpo alheio, sondando o vibrar da alma e deixando rastros na forma de desenhos imaginários. na ausência do carinho, nenhuma palavra é capaz de ser ponte e então o outro torna-se, de repente, o estranho-distante-frio.
vejo muitas vezes as pessoas se debatendo e se esforçando por decifrar mentalmente qual o tamanho do seu amor pelo outro, se ele é real. perguntas do tipo “será que é amor o que eu sinto?” nunca fizeram muito sentido para mim, o que a gente sente, a gente sente e não cabe em tipologias mentais nem em esquadrinhamentos conceituais. o meu amor é do tamanho do meu impulso de te abraçar te amassar te tocar! aliás, eu até defenderia a abolição da palavra amor, por excesso de uso já se gastou.
fantástico, é a primeira coisa que descubro em mim de que realmente gosto. e não é nada óbvio, pois eu sempre comprei a imagem que vendo de mim por aí, cabeça gigante pregada a um corpinho...
como eu alcancei essa descoberta? bem, aí é segredo.
nem tinha a intenção de falar assim tão descuidadamente sobre o amor, queria mesmo era anunciar minha descoberta, mas já que desemboquei aqui, acho que todo mundo tem algo a dizer sobre o amor – seja já vivido, ainda vivente, mal amado, atropelado, amarrotado, perdido –, queria escutar. alguém pode contar como vocês expressam o amor? as linguagens do amor devem ser tão variadas como nossas psiques.

31.8.07

Sobre o viajante

Voltei a ter uma imagem na cabeça, tenho refletido sobre ela nestes últimos meses. Quando eu tinha uns treze anos a desenhei: um homem de costas e com capa caminha no deserto com estrelas espiraladas como aquelas das pinturas do Van Gogh. No tarot tem um carta, o Eremita, que apresenta um velho com um cajado e uma lanterna, a mesma capa rota e marrom dos franciscanos. Outras vezes é uma mulher, que eu já desenhei também.

Sempre me apontaram a união entre o conhecimento, a solidão e a busca de si mesmo. Uma solidão dos homens, não do cosmo que banha gentilmente os ombros e a cabeça do viajante. Apeguei-me a essa imagem por uma pura empatia, uma justificativa. Também o cristianismo tem a sua versão, é o peregrino, mas sinceramente não sei o quanto absorvi de sua religiosidade ou se tenho apenas uma miragem secularizada de uma angústia espiritual.

Em todo caso, o "estar a caminho de", um eterno partir, é uma temática tão presente na minha vida que só a atesta a escassa temporalidade dos vínculos que em períodos medianos construo aqui e ali. Não se trata de ser incapaz de fazê-los, mas de saber que logo se parte. A incapacidade de deitar raízes sobre os objetos e as pessoas é o reverso dessa exaltação e alegria de olhar uma estrela distante e perseguí-la na escuridão. Esta trajetória só pode se justificada pela busca de um sentido extremo na vida, que adquire aspectos de uma ascese secularizada e um olhar feroz para o descanso, o luxo e a displicência.

Porém, todos nós sofremos com a falta de brilho das estrelas que hoje nos oferecem, às vezes apenas um meteoritos opacos e caídos de um planeta distante. Se em Sidarta "procurar significa: ter uma meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma”, então posso seguramente dizer que nunca fui livre, sempre procurei. O problema talvez não seja fazê-lo, mas uma vez trocadas as estrelas por meteoritos a perda de significado remete a toda a condição absurda da viagem empreendida pelo peregrino. Não sei se caímos em egoísmo quando se busca algo que transcenda à nossa individualidade, ou que se nela afunde, procure no que somos um substrato comum a todos os homens, tocando assim a humanidade, "a infinitude do outro" de que falou o Renato. Se as estrelas e a lua branca são pintadas, então estamos em um palco, representado para alguém e não sendo verdadeiros. Estes últimos se escondem no camarim, carrancudos e encarcerados, sem caminho e sem luz.

Mesmo que as estrelas tenham um brilho autêntico, o que são os outros seres humanos? São companheiros de viagem que caminham junto ou são abrigos e oásis que abandonamos ao amanhecer? E se não olham as mesmas luzes? E se de repente caminham por outras veredas? Desmonta-se a constelação, perdem-se os astros no absurdo de sua posição, desconectam-se as galáxias...

Mea culpa

Sim, seja o que for, o desencontro é a regra. Lu, perdoa os meus limites?

Vejo um significado possível para o desencontro de moods: a ansiedade de não encontrar no outro o que esperávamos, e esperávamos tanto, e precisamos de tanto. Mas, então, empoçados diante de nós mesmos. Pois talvez o engano seja resistir a enxergar o outro além daquilo que queríamos encontrar nele (o que é o mesmo que ver apenas a si próprio). Aí está talvez a mais grave das solidões. Mas se olhássemos de fato, talvez encontrássemos a infinitude no outro, como essa vertigem dentro de nós que nos traga. E a identificação seria tão mais forte e profunda quanto inesperada. Mas essa insistência burra, de se forçar sobre o outro, de ver a morte onde não nos encontramos. Mas há vida, tanta vida, além de nós mesmos. Em Sidarta, isso fica tão claro, mas mesmo assim, me esqueço das lições que importam, e sigo burro.

E ambos escutavam o murmúrio das ondas. Suavemente ressoava o canto das inúmeras vozes do rio. Sidarta olhava as águas e na corrente surgiram imagens: aparecia-lhe o pai solitário, a lamentar a perda do filho; aparecia-lhe ele mesmo, igualmente solitário, ligado ao filho distante pelas amarras da saudade; aparecia-lhe o filho, também ele solitário, a percorrer avidamente a pista abrasada dos seus desejos juvenis. Cada qual tinha os olhos fixos na sua meta; cada qual andava fanaticamente atrás do seu desígnio; cada qual sofria. O rio cantava com voz plangente. Cantava saudades. Angustiado, dirigia-se a sua voz, e sua voz soava melancólica.”

“Quando alguém procura muito – explicou Sidarta – pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter uma meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma.”

Em Todorov, o comportamento de Colombo não é simplesmente típico de um homem da Idade Média. Impor esquemas interpretativos sobre a realidade, a revelia dela, é o que fazemos todos os dias. Também Colombo não enxerga o outro, os ameríndios, mas sempre a si mesmo. E os ameríndios? Igualmente não enxergam os espanhóis, apenas a si mesmos. E eu? Enxergo alguém além de mim?

30.8.07

da fragilidade ou da polissemia do nu

fragilidade não quer dizer apenas “que se quebra facilmente”. gosto de pensar no frágil como o precário, o efêmero (esse sentido também está lá no dicionário). e o nu me fala disso, daí a associação com a morte do corpo (mas tá, tá, entendi que você estava falando do “seu nu”). aceito que o nu também comunica a vulnerabilidade, esse estar “sujeito a ser atacado, derrotado, prejudicado ou ofendido”. acho que o nu na crucificação diz menos sobre o frágil do que sobre o vulnerável: o fantástico do nu de Deus é que me diz que Ele também está sujeito à dor, mesmo sendo Deus ou exatamente por sê-lo. Deus não é efêmero, porque é eterno e a crucificação já anuncia a ressurreição.

mas a fragilidade que me desconcerta mesmo não é a do corpo, e sim a das relações humanas. na maior parte das vezes é o desencontro de moods, de impulsos emocionais, mas também um silêncio significando descuido ou uma palavra mal compreendida e o fio da empatia se rompe. as almas deixam de vibrar no mesmo tom, ruído. mas sabe que já cansei de buscar a coerência das coisas, do mundo, das pessoas, vejo que tudo está encharcado de tensões e de ambivalências. então vejo que as relações humanas não são somente frágeis, porque elas são um pouco fênix, tem um poder mágico de renascer das cinzas. quantas vezes todos nós já nos afastamos e nos reaproximamos só para se afastar uma vez mais.


(só por curiosidade, ainda queria achar um nu - na arte - que não fosse nem frágil nem vulnerável, se alguém cruzar com algo, posta aí. é que esses parecem mesmo ser os sentido mais fáceis de acessar, tanto para o artista quanto para o público. será que no bacon o nu adquire outras dimensões? ah, na arte grega e no renascimento, o nu é outra coisa.)