Nós não somos feitos de ar. Se bater o vento, não saímos voando por aí não. Em toda a nossa finitude, rasgamos o mundo ao meio e deixamos nossa marca, e depois, todas as pessoas morrem e vamos embora junto delas. Mas até esse momento, somos de pedra, não é que o tempo nos derruba, o tempo é a proporção de nossa força, dizemos, apenas o tempo nos derruba. Um dia é uma vida inteira, e uma vida inteira, um único dia. Ou com sorte, uma hora e meia de filme.
A morte é um sentimento agudo e uma sombra densa que esconde a pupila no fundo dos olhos. Mas não vale morrer para sentir a morte. Daí não conta, porque sentimento pressupõe a continuidade da vida. Estou falando, portanto, da morte como sentimento, e não como realidade. Sobre a realidade, o que resta a ser dito? (cada um que viva a sua)
Mas voltando a morte. Que é aguda porque nos perfura de um lado a outro, e nesse movimento, sentimos algo que entra, veloz, certeiro, e em seguida, algo que sai, e brilha lâmina surpreendente para fora, diante de nossos olhos, o sentimento que se materializasse.
Já sonhei que morria com tiro de revólver e caindo de prescipício. No primeiro caso, segurava as entranhas com a mão, no segundo, sentia vertigem ao fixar os olhos nos meus pés, pequeninhos e sem chão.
Mas a morte, pra se sentir, há de permanecer. E quando vi meu avô no caixão, não vi a morte, não vi meu avô, vi estirados lá, todas as pessoas que choravam em volta, minha mãe, tias, avó. Mas vi também, vi também! Vi também os monges budistas que pediam mais dinheiro para continuar a reza e que, mesmo com aquelas roupas engraçadas e os cabelos tosados, não me convenciam, tinham cara de quitandeiros (porque japonês comerciante, para mim, é quitandeiro). Então, enfim, não vi morte lá, vi dor de alguns, lágrimas de outros, compaixão e comércio, e tudo isso que enumerei é vida e não morte.
Cade a morte, então?
Em “Santiago”, brutal e estática
(filme de João Moreira Salles)
(Má, é em branco e preto, mas vai ver...)
(Quem não gostar do filme, nem comenta que assistiu)
(Quem gostar, eu amo três vezes mais, ou cinco minutos a mais)
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