Feriado. Muitas pernas cruzam a pequena cidade que insiste em afirmar uma autenticidade um tanto quanto postiça. Vieram para o circo das vaidades e das convenções armado com dinheiro público.
No quarto de hotel barato, a escuridão que entra pela janela trava um combate com a opaca luz da única lâmpada. Do banheiro, propagam-se os estalos dos pingos arremessados compassadamente pelo chuveiro enferrujado. O menino-homem tenta dissolver o nervosismo repetindo em voz alta palavras tão antigas como a pequena cidade. É preciso dizê-las até que soem naturais e comuniquem uma intimidade convincente. No quarto ao lado, a voz da Fátima Bernardes anuncia em tom corriqueiro a perseguição assassina aos “criminosos” de uma favela latino-americana. Outras vozes se encontram lá embaixo na calçada. Quanto tempo. Não parecem sinceras. Que bom te achar por aqui. Parabéns pelo artigo. Cumprem seus papéis. Vamos combinar qualquer coisa para qualquer dia e tal. E a voz do menino-homem segue ainda com as mesmas palavras obscuras.
O silêncio vai surgindo aos poucos, junto com o apagar das luzes das janelas vizinhas. O menino-homem resiste pouco e apaga sua lâmpada também. A quietude da madrugada deixa então se mexer o desconforto, já conhecido, já esquadrinhado, que apenas vem com a roupa nova da ocasião.
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