2.12.07

Paisagem

Uma descrição ingênua, talvez infantil: a brisa fresca que sopra, a sombra extensa de uma paineira que sempre esteve ali, o perfume cítrico de certas folhas que lambuzam os nossos dedos quando as esmagamos, todas as tonalidades de verde; um córrego, caminho de pedras polidas, de água gelada e cristalina; com prazer, megulhamos nossos pés descalços na terra escura e lodosa das margens. E tudo isso foi, de fato em fato. Não me culpe, me culpe. Repito a mim mesmo não se tratar de tristeza. Quero ver a vida se estender dourada, com horizontes purpúreos, mãos dadas por aléias floridas, sempre tomadas por novos odores, que se evanescem antes de os identificarmos. Tenho-me num formigamento d’alma, de quem compreende. Dor não percorre o meu corpo convulsionante, não vejo abismo, nada me esmaga, apenas o chão, quietinho, se desfaz, os metais enferrujam, corrói-se, tudo se desprende sem alarde e, de cinzas em cinzas, se acumula nas profundezas lodosas do lago. Ele se decompõem, lentamente, alastrando as suas margens podres, lentamente, incorporando a vida ao redor, não como um câncer, não com violência; com descaso, sem intenção, como curso inevitável.

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