31.8.07

Sobre o viajante

Voltei a ter uma imagem na cabeça, tenho refletido sobre ela nestes últimos meses. Quando eu tinha uns treze anos a desenhei: um homem de costas e com capa caminha no deserto com estrelas espiraladas como aquelas das pinturas do Van Gogh. No tarot tem um carta, o Eremita, que apresenta um velho com um cajado e uma lanterna, a mesma capa rota e marrom dos franciscanos. Outras vezes é uma mulher, que eu já desenhei também.

Sempre me apontaram a união entre o conhecimento, a solidão e a busca de si mesmo. Uma solidão dos homens, não do cosmo que banha gentilmente os ombros e a cabeça do viajante. Apeguei-me a essa imagem por uma pura empatia, uma justificativa. Também o cristianismo tem a sua versão, é o peregrino, mas sinceramente não sei o quanto absorvi de sua religiosidade ou se tenho apenas uma miragem secularizada de uma angústia espiritual.

Em todo caso, o "estar a caminho de", um eterno partir, é uma temática tão presente na minha vida que só a atesta a escassa temporalidade dos vínculos que em períodos medianos construo aqui e ali. Não se trata de ser incapaz de fazê-los, mas de saber que logo se parte. A incapacidade de deitar raízes sobre os objetos e as pessoas é o reverso dessa exaltação e alegria de olhar uma estrela distante e perseguí-la na escuridão. Esta trajetória só pode se justificada pela busca de um sentido extremo na vida, que adquire aspectos de uma ascese secularizada e um olhar feroz para o descanso, o luxo e a displicência.

Porém, todos nós sofremos com a falta de brilho das estrelas que hoje nos oferecem, às vezes apenas um meteoritos opacos e caídos de um planeta distante. Se em Sidarta "procurar significa: ter uma meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma”, então posso seguramente dizer que nunca fui livre, sempre procurei. O problema talvez não seja fazê-lo, mas uma vez trocadas as estrelas por meteoritos a perda de significado remete a toda a condição absurda da viagem empreendida pelo peregrino. Não sei se caímos em egoísmo quando se busca algo que transcenda à nossa individualidade, ou que se nela afunde, procure no que somos um substrato comum a todos os homens, tocando assim a humanidade, "a infinitude do outro" de que falou o Renato. Se as estrelas e a lua branca são pintadas, então estamos em um palco, representado para alguém e não sendo verdadeiros. Estes últimos se escondem no camarim, carrancudos e encarcerados, sem caminho e sem luz.

Mesmo que as estrelas tenham um brilho autêntico, o que são os outros seres humanos? São companheiros de viagem que caminham junto ou são abrigos e oásis que abandonamos ao amanhecer? E se não olham as mesmas luzes? E se de repente caminham por outras veredas? Desmonta-se a constelação, perdem-se os astros no absurdo de sua posição, desconectam-se as galáxias...

Nenhum comentário: