16.10.07

(primeira proposição sobre o sentido da arte)


Prêambulo

Em pelo menos uma coisa os marxistas tinham razão (às vezes sem se darem conta): toda luta política se reduz a uma disputa classificatória.

Parte única

Fui a uma palestra sobre Walter Benjamin, que distinguia três maneiras de se apropriar da “cultura”: pelo conceito de tradição, pelo de herança,e, pelo de transmissão.

A tradição é a maneira burguesa de se apropriar do passado, que é transformado num inventário de “bens culturais”, sobre os quais a sociedade burguesa exerce a propriedade.

A herança corresponde a propriação do passado pelo marxismo vulgar, que por sua vez, o reduz a um arsenal de potenciais intrumentos à disposição da luta de classes. O problema é que, neste caso, o passado segue sendo uma propriedade.

Só o conceito de transmissão é realmente revolucionário. Por que propõe não ver o passado como tempo morto, que ao ser acumulado, leva inexoravelmente ao presente. Um passado assim contruído, só pode ser mais uma forma de alienação, e portanto, mais uma barreira à verdadeira transformação. Um futuro novo exige um novo passado, pois o sonhar nasceria sempre da memória. Mas de uma outra memória, colhida nesse outro passado. Memória viva que se permite surpreender, encontrando no passado algo novo, e não apenas formas conhecidas que anunciam o presente.

Bem, bem, bem. Mas afinal, eu, sim eu, o Renato, não leio atualmente nada que, de alguma forma, não se encontre já consagrado pelo cânone ocidental. Eu devo então ser um burguês. Lembro agora que tanto eu quanto o Luiz defendíamos, e há não tanto tempo atrás, o Eliot.

Mas, não. Por outro lado, quando eu leu os clássicos não procuro neles apenas aquilo que eles contém de antecipação do presente. Intensa e incessante é a minha busca pelo diferente, por aquilo do passado que nada se assemelha conosco. Estou, então, em busca do novo! Ufa, sou revolucionário.

Mas todo mundo sabe que eu não acredito na revolução, e nem sou marxista, nem vulgar nem de grife. E sou mais vulgar que burgês, e mais de grife que marxista. E, caminhando por aí, cheguei a um aforismo ( e nele me sentei com preguiça de seguir mais adiante):

Aquilo que eu falo sobre as coisas grandes, tão grandes que eu não consigo ver, parece tão insignificante quanto aquilo que digo sobre mim, tão pequeno que ninguém me vê

E a arte não seria, talvez, essa instância, capaz de comunicar ao tão pequeno o tão grande, e de encontrar no tão grande o tão pequeno?

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