Quem sabe este blog ainda encontra o seu propósito, quem sabe ele segue em frente, até, finalmente, o dia em que as outras pessoas que dele fazem parte também tomem o exercício da escrita como seus. Se quando nos encontramos, o fazemos em bando, já muita coisa se perdeu, talvez tênue demais para ser encontrado. Aqui, sem pretensão, ou tão pouco quanto consigo, ofereço alguns pensa(senti)mentos, na esperança de que eles contenham um pouco de mim, e que nesse pouco, ponto cego do texto, alguém identifique, nos contornos borrados, nas cores esmaecidas, um amigo, ainda que a distância.
Aos meus amigos, queria oferecer longas descrições de memórias e sonhos. Gosto deles hoje ainda mais. Gosto de meditar sobre do que são feitos, imaginar uma mesma matéria translúcida que modelamos na mais recondida intimidade, tão profunda e primordial, que se mantém além do alcance de nossas consciências. Hannah Arentd poderia ter dito, que ali onde os sonhos e a memória são feitos, é que se encontra a última fortaleza da individualidade, fonte da verdadeira esperança contra toda forma de totalitarismo. Memórias e sonhos como nossos duplos, espectrais e fantasmagóricos, mas que diante de nós, ainda preservam a força da vida, a marca do instante que não se repete, o rastro do tempo.
Está lá ainda meu quarto de dormir, a luz amarelada de um fim de tarde, a escrivaninha de pinho, fácil de marcar com a ponta do lápis, o cheiro da roupa de cama, diferente em cada casa, a resistência perfumada do sabonete de glicerina. Objetos-sensações que forçam a continuidade entre fragmentos de vida, mais ou menos dispersos, indiferentes entre si, que chamamos de eu.
E todas as narrativas que nossa consciência ata e desata? Aí não há nada sólido como as sensações, nada certo como nos sonhos, daí nascem apenas confusão e ambiguidade. É o nosso jogo de montar peças que não se encaixam, nosso mal-hábito de deduzir o passado do presente, o presente do futuro, e este último do primeiro.
Viver só pode ser um mal-entendido.
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