30.8.07

O nu: conversa com o comentário da Lu (ih!rimou!)


“o nu - quero dizer o nu na arte - é mesmo sempre frágil? e se esse nu comunica nossa fragilidade é por empurrar a alma, desamparada e sem disfarces, para o primeiro plano do olhar?
acho que o nu fora da arte - sempre plastificado nas formas e medidas perfeitas - é hoje mais um meio de opressão.”
Comentário da Lu

Não, não na arte, mas para mim. Para mim o nu é vulnerabilidade e desapego. E, portanto, nos quadros em que indentifico a minha arte, naqueles com os quais me comunico. Mas gosto de um nu, não por dizer a vulnerabilidade e desapego, mas por considerá-la. Se o nu nega a vulnerabilidade e desapego, ele fala dela, mas por meio de seu oposto. E, assim, fala comigo também. E, é por ter o meu nu em mente, que posso falar com outros nus que não se opõem a vulnerabilidade e desapego, mas – por exemplo - a ignoram. Se ao ignorarem, propõe outro sentido no lugar, então talvez eu consiga ler esse novo sentido, talvez não. Talvez eu goste dele, ou talvez não entenda.

Para mim, vulnerabilidade e desapego não é o mesmo que fragilidade. Um vaso é frágil porque se esbarrarmos nele, ele pode cair e se despedaçar. O ser humano é vulnerável, porque sente dor, e a dor, se passa, se é que passa, nunca é completamente. Dor se acumula. E o corpo, diferente do vaso, não quebra, agüenta. Já o desapego é a entrega a essa vulnerabilidade, é aceita-la de corpo e de alma, sem restrições, sem esforço e sem medo da dor. Estar disposto a agüentar, em paz e com leveza.

Se atribuo esse sentido ao meu nu não é apenas porque ao me encontrar nu, senti me assim. É também porque encontrei esse nu na arte, e não sei o que foi que se deu primeiro: meu sentir na vida, ou meu sentir na arte. (apesar de gostar de acreditar que a vida sempre antecede a arte). Sem querer discutir arte como instituição social. Não acredito que “inventamos sentido” para as pinturas, eles estão lá, ou não estão, e se o compreendemos é porque dele também compartilhamos. Enxergamos o quadro porque estamos dentro dele.

E a roupa é uma maneira de marcarmos o nosso controle sobre o próprio corpo, dizer: “aqui estou eu seguro e inteiro em mim”. Produzimos a crença nesse controle, na qual de fato não acreditamos. Acreditássemos, talvez ainda usássemos roupa, mas com tanto pudor? Tanto cuidado? (Um breve comentário antropológico: sim, nem todas as sociedades usam roupas, mas todas, sem exceção, intervém no corpo: se não pela roupa, pela pintura, tatuagem, brincos, colares, etc.) Como explicar o sentimento que nos acomete quando sonhamos estarmos nu em um lugar público?

O nu em si não é o desamparo sem disfarces da alma. O nu em si não é nada, os nus são muitas coisas, sempre que artista e público se alcançarem. Tanto que o nu pode ser o próprio disfarce, e fora da arte e fora da vida, nominalmente “sempre plastificado nas formas e medidas perfeitas, ele com certeza o é. E nessa forma, a do disfarce, quando ele oprime, e com certeza ele oprime, oprime mais a consciência, e menos a alma do que certas pinturas capazes de nos despir.

Fui pedante?

Um comentário:

Luis disse...

o nu apareceu 13 vezes no seu post. =D