25.8.07

Xadrez

Faz muito tempo que não jogo xadrez, muito tempo mesmo. Acho que ainda era pré-adolescente. Era o único esporte do qual eu gostava de participar, afinal não era necessário mexer muitos músculos. Sei que aquela cena do "Sétimo Selo" já virou super clichê, mas isso não impediu o Woody Allen de fazer uma boa paródia. Nela, a Morte faz uma aposta com o pretendente a além-vida, porém de biriba. Desafortunada, a Morte perde e, sem dinheiro nem para um táxi, promete voltar outro dia.

Ontem, pensei em como estamos sempre jogando xadrez com a Morte. Não é pelo motivo óbvio de sermos os últimos românticos (no sentido literário), nem pela nossa pretensa morbidez. Quem joga com a figura negra é porque não cansa de se perguntar a necessária validade de sua vida. Assim como ser ateu, ou pretender sê-lo, é um diálogo constante com Deus, quando os católicos podem iar a missa e se darem por satisfeitos consigo mesmos por terem feito aquela visita enfadonha a um parente distante.

Cogitei um pouco que morremos muito antes do nosso efetivo sepultamento. Jogamos xadrez com a ceifadora de vidas nessas coisas mínimas, em nossas escolhas, na pasmaceira do cotidiano. Há tanta gente que já pode ir escolhendo um belo caixão! Não quero dizer pela experiência dos outros, mas a minha mesmo. Ser um bom acadêmico, ou melhor, um que seja eficaz, requer algumas renúncias à sensibilidade artística e emocional que não se pode estranhar como se não perca a alma assim.

Outro dia morri um pouco diante de tantos filmes "de arte" que não me tocaram. Morri durante as últimas semanas aguardando minha qualificação, senão ao longo de todo este mestrado, suspendendo as teias emocionais que me conectassem ao pulsar das emoções dos meus amigos. Morre-se muito bem observando o próprio umbigo, quero dizer, nessa expansão ilimitada de si mesmo que belamente se diz chamar "individualidade". Ser o indíviduo pleno, autosuficiente, é morrer pela ilha de ego que nos isola dos outros? E esse gosto amargo do sucesso, essa auréola fria e superior que nos retira do convívio humano? Não sei responder, pois é só pelo reconhecimento social que existimos diante dos outros. Apenas pelo olhar dos outros reconhecemos aquilo que nos torna uma individualidade.

Nestas partidas de xadrez, ela não produz golpe certeiro, anda passo a passo com a vida, retira nossos pertences aos poucos. É por misericórdia e compaixão que arranca deste mundo aqueles seres meramente biológicos aos quais só resta o que se chama de cotidiano.

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