21.8.07

Balzac

Balzac foi uma criança gordinha, tímida e desengonçada, que repetiu a oitava série e cresceu para se tornar um adulto igualmente gordo, proporcionalmente pedante e financeiramente inapto. Oscilou entre a mera sobrevivência (graças à ajuda de familiares e amantes) e o acúmulo crescente de dívidas. Desde sua decisão de se tornar um escritor, até o reconhecimento público, Balzac precisou de 15 anos, tempo necessário para que ele produzisse o primeiro livro digno de algum reconhecimento. Por isso, para Taillandier, é o primeiro a transformar o artista numa personagem romanesca, que sacrifica a sua vida em busca de um ideal de beleza, e que após humilhações e penúrias, alcança enfim o estrelato. Ideal romântico, ao qual Flaubert viria acrescentar a boêmia e a uma inflada subjetividade.

Mas diferente de Flaubert que defende a marginalidade social do artista como um ato heróico na sua missão de denunciar o caráter ridículo, sujo e hipócrita da sociedade burguesa, Balzac se ressente de sua posição, lamenta permanecer do lado de fora da festa, anseia pelo calor dos aplausos ao entrar no salão. Assim, quando ele ridiculariza a vida privada dos burgueses e denuncia a lógica cruel que rege o seu tempo, é mais por que aí encontra o seu filão de mercado, o gênero que o consagraria na sociedade parisiense. E, se tem facilidade para falar dos aspectos vergonhosos e patéticos do mundo burguês, é porque ele não precisa olhar mais longe do que para si próprio.

Balzac não poderia estar mais distante da imagem heróica e revolucionária do artista. Dedica-se antes pelo reconhecimento público do que pela grandeza de sua obra, ou melhor, a grandeza de sua obra só importa porque é graças a ela que ele poderá alcançar o reconhecimento. Um artista em consonância com o seu tempo. Monarquista, ele viveu a Restauração, que se seguiu a derrota nas Guerras Napoleônicas. A falta de vigor de seus ideais humanistas e a maneira como estes estão a reboque de seus interesses individuais parece não destoar do destino dado a Revolução, que foi - de um ponto de vista específico - um grande trampolim para que membros das classes subalternas substituíssem seus antigos senhores na composição da nobreza.

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