Filmjournal – FW2
Renato Morita
Poderia versar sobre tantos e tantos aspectos técnicos e cinematográficos presentes numa obra como essa: contundente, de impacto desconcertante, como suele causar a lucidez sincera. Mas, desconcertado como estou - acabei de assistir o filme - só posso escrever sobre mim e nosso tempo. Propriamente, o lugar que um filme como esse ocupa em mim hoje, e neste mundinho estúpido, de ingenuidade repugnante.
Sem qualquer consentimento da sua parte, ouso colocar-me ao seu lado. Ouso identificar-me com seus sentimentos, e afirmo – sem poder provar – compartilhar desse filme com você. Sou tão jovem, e tão velho porque esvaziado de esperança, entorpecido pela melancolia. Amo este país e este povo no qual não me reconheço. Quero fazer parte dele, mas ele também não me vê. E parece que ainda procuro por mim, quando observo as multidões.
Fugi para o cinema em busca de abrigo, recusando a parte de mim que me encaminhou para Economia, a parte de mim que quis desenvolver esse país, que quis ver um povo mais digno, que acreditou nos valores liberais da justiça, da liberdade e da igualdade. Atravessei a floresta marxista, devassei os intérpretes do Subdesenvolvimento(Cepal), cruzei a fronteira da Economia e, mesmo cansado e com frio, parti para as novas paragens da sociologia e da antropogia, e ali, encontrei a morte. Já não creio, já não posso mais crer. E o desconcerto que este filme me causa, não é de revelação, mas de reconhecimento. Reconheço, vejo, sinto, o lugar que Sérgio ocupa na sociedade cubana: sua paralisia, sua entrega ao destino. Para ele, o destino de Cuba é o seu destino e, aconteça o que acontecer, ele o aceitará.
Assim, ultrapassando a razão do protagonista, ele sente que é cubano. O envolvimento de Sergio com Elena, só pode ser descrito pela maneira com que Sérgio descreve a própria Elena: “Uma das coisas que mais me desconcerta nas pessoas. É a sua incapacidade para sustentar um sentimento, uma idéia, sem dispersão. Elena demostrou ser totalmente inconsequente. É pura alteração, como diria Ortega”. Talvez ele não perceba, mas é tão inconseqüente quanto Elena na maneira com que se envolve com ela, e por isso, é tão cubano quanto os demais. Essa talvez seja sua maior contradição, porque é aquela que ele não consegue verbalizar, isto é, que a sua condição existencial específica só faz sentido, só poderia existir, neste país subdesenvolvido. É por isso que ele fica, que ele não vai embora com sua família. Em Cuba ele está morto, mas nos EUA ele nunca teria existido.
No momento da mesa redonda entre intelectuais, Sérgio vislumbra a precariedade do conceito de subdesenvolvimento, definido e utilizado por ele para explicar o seu mundo. E esse conceito é precário, por que é um conceito. “Não entendo nada, o americano tem razão. As palavras devoram as palavras, e deixam você nas nuvens, na lua, a milhas e milhas de tudo.” É fugindo da esterelidade inerente às palavras que também acabei no cinema. O filme, e só o filme poderia expressar a sensibilidade, a complexidade e a decadência presentes nos países subdesenvolvidos, como o nosso. Só um filme faria jus a essa realidade incompreensível porque incompreendida por aqueles que a constituem.
Isso tudo, acho que sou eu. E o que penso disto tudo, nesse nosso tempo, nesse nosso mundo de hoje? Que ninguém irá gostar desse filme. Que ninguém compreenderá. Talvez alguns, mas poucos, insignificantes porque poucos. E, um filme como esse para Filmjournal só irá contribuir para distanciar os alunos de você. Que ninguém sairá transformado desse filme, que os alunos pensarão: mais um filme chato, mais um filme político, do esquerdista de plantão. Acreditava que Eduardo Coutinho seria o único capaz de sensibilizar a minha classe, qual não foi a minha surpresa. Para mim, a sua luta sempre esteve perdida, você não conseguirá transformar os alunos da AIC. Como Sérgio, eu aceito a morte. E você? (Desculpe pelo pessimismo, se você quiser chamar de pessimismo)
Sinceramente
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