31.8.07

Sobre o viajante

Voltei a ter uma imagem na cabeça, tenho refletido sobre ela nestes últimos meses. Quando eu tinha uns treze anos a desenhei: um homem de costas e com capa caminha no deserto com estrelas espiraladas como aquelas das pinturas do Van Gogh. No tarot tem um carta, o Eremita, que apresenta um velho com um cajado e uma lanterna, a mesma capa rota e marrom dos franciscanos. Outras vezes é uma mulher, que eu já desenhei também.

Sempre me apontaram a união entre o conhecimento, a solidão e a busca de si mesmo. Uma solidão dos homens, não do cosmo que banha gentilmente os ombros e a cabeça do viajante. Apeguei-me a essa imagem por uma pura empatia, uma justificativa. Também o cristianismo tem a sua versão, é o peregrino, mas sinceramente não sei o quanto absorvi de sua religiosidade ou se tenho apenas uma miragem secularizada de uma angústia espiritual.

Em todo caso, o "estar a caminho de", um eterno partir, é uma temática tão presente na minha vida que só a atesta a escassa temporalidade dos vínculos que em períodos medianos construo aqui e ali. Não se trata de ser incapaz de fazê-los, mas de saber que logo se parte. A incapacidade de deitar raízes sobre os objetos e as pessoas é o reverso dessa exaltação e alegria de olhar uma estrela distante e perseguí-la na escuridão. Esta trajetória só pode se justificada pela busca de um sentido extremo na vida, que adquire aspectos de uma ascese secularizada e um olhar feroz para o descanso, o luxo e a displicência.

Porém, todos nós sofremos com a falta de brilho das estrelas que hoje nos oferecem, às vezes apenas um meteoritos opacos e caídos de um planeta distante. Se em Sidarta "procurar significa: ter uma meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma”, então posso seguramente dizer que nunca fui livre, sempre procurei. O problema talvez não seja fazê-lo, mas uma vez trocadas as estrelas por meteoritos a perda de significado remete a toda a condição absurda da viagem empreendida pelo peregrino. Não sei se caímos em egoísmo quando se busca algo que transcenda à nossa individualidade, ou que se nela afunde, procure no que somos um substrato comum a todos os homens, tocando assim a humanidade, "a infinitude do outro" de que falou o Renato. Se as estrelas e a lua branca são pintadas, então estamos em um palco, representado para alguém e não sendo verdadeiros. Estes últimos se escondem no camarim, carrancudos e encarcerados, sem caminho e sem luz.

Mesmo que as estrelas tenham um brilho autêntico, o que são os outros seres humanos? São companheiros de viagem que caminham junto ou são abrigos e oásis que abandonamos ao amanhecer? E se não olham as mesmas luzes? E se de repente caminham por outras veredas? Desmonta-se a constelação, perdem-se os astros no absurdo de sua posição, desconectam-se as galáxias...

Mea culpa

Sim, seja o que for, o desencontro é a regra. Lu, perdoa os meus limites?

Vejo um significado possível para o desencontro de moods: a ansiedade de não encontrar no outro o que esperávamos, e esperávamos tanto, e precisamos de tanto. Mas, então, empoçados diante de nós mesmos. Pois talvez o engano seja resistir a enxergar o outro além daquilo que queríamos encontrar nele (o que é o mesmo que ver apenas a si próprio). Aí está talvez a mais grave das solidões. Mas se olhássemos de fato, talvez encontrássemos a infinitude no outro, como essa vertigem dentro de nós que nos traga. E a identificação seria tão mais forte e profunda quanto inesperada. Mas essa insistência burra, de se forçar sobre o outro, de ver a morte onde não nos encontramos. Mas há vida, tanta vida, além de nós mesmos. Em Sidarta, isso fica tão claro, mas mesmo assim, me esqueço das lições que importam, e sigo burro.

E ambos escutavam o murmúrio das ondas. Suavemente ressoava o canto das inúmeras vozes do rio. Sidarta olhava as águas e na corrente surgiram imagens: aparecia-lhe o pai solitário, a lamentar a perda do filho; aparecia-lhe ele mesmo, igualmente solitário, ligado ao filho distante pelas amarras da saudade; aparecia-lhe o filho, também ele solitário, a percorrer avidamente a pista abrasada dos seus desejos juvenis. Cada qual tinha os olhos fixos na sua meta; cada qual andava fanaticamente atrás do seu desígnio; cada qual sofria. O rio cantava com voz plangente. Cantava saudades. Angustiado, dirigia-se a sua voz, e sua voz soava melancólica.”

“Quando alguém procura muito – explicou Sidarta – pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter uma meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma.”

Em Todorov, o comportamento de Colombo não é simplesmente típico de um homem da Idade Média. Impor esquemas interpretativos sobre a realidade, a revelia dela, é o que fazemos todos os dias. Também Colombo não enxerga o outro, os ameríndios, mas sempre a si mesmo. E os ameríndios? Igualmente não enxergam os espanhóis, apenas a si mesmos. E eu? Enxergo alguém além de mim?

30.8.07

da fragilidade ou da polissemia do nu

fragilidade não quer dizer apenas “que se quebra facilmente”. gosto de pensar no frágil como o precário, o efêmero (esse sentido também está lá no dicionário). e o nu me fala disso, daí a associação com a morte do corpo (mas tá, tá, entendi que você estava falando do “seu nu”). aceito que o nu também comunica a vulnerabilidade, esse estar “sujeito a ser atacado, derrotado, prejudicado ou ofendido”. acho que o nu na crucificação diz menos sobre o frágil do que sobre o vulnerável: o fantástico do nu de Deus é que me diz que Ele também está sujeito à dor, mesmo sendo Deus ou exatamente por sê-lo. Deus não é efêmero, porque é eterno e a crucificação já anuncia a ressurreição.

mas a fragilidade que me desconcerta mesmo não é a do corpo, e sim a das relações humanas. na maior parte das vezes é o desencontro de moods, de impulsos emocionais, mas também um silêncio significando descuido ou uma palavra mal compreendida e o fio da empatia se rompe. as almas deixam de vibrar no mesmo tom, ruído. mas sabe que já cansei de buscar a coerência das coisas, do mundo, das pessoas, vejo que tudo está encharcado de tensões e de ambivalências. então vejo que as relações humanas não são somente frágeis, porque elas são um pouco fênix, tem um poder mágico de renascer das cinzas. quantas vezes todos nós já nos afastamos e nos reaproximamos só para se afastar uma vez mais.


(só por curiosidade, ainda queria achar um nu - na arte - que não fosse nem frágil nem vulnerável, se alguém cruzar com algo, posta aí. é que esses parecem mesmo ser os sentido mais fáceis de acessar, tanto para o artista quanto para o público. será que no bacon o nu adquire outras dimensões? ah, na arte grega e no renascimento, o nu é outra coisa.)

blá

há dias em que a gente é particularmente cruel com a gente mesmo. algum hormônio deslocado cruza com uma realidade não menos deslocada e aí: crise histérica e estéril de autodestruição. e aí: abro minha caixinha de sonhos e amores mofados. e aí: aquela tristeza densa, abismo, blá.

Novo título??

Criei este título, inspirado no comentário do Bruno sobre a foto do menino sobre o búfalo. De fato, apenas depois que eu li o comentário dele, tentando encontrar algum sentido na foto, é que eu acrescentei a brincadeira (sem graça) sobre a vida ser um búfalo.

Isto é, não tenho nenhum apego especial por esse título. E, por isso, estou mais do que disposto a alterá-lo. Alguma idéia?

Outra coisa: a idéia do blog era ser um espaço para trocarmos os nossos escritos e idéias entre a gente, e a gente apenas. Por isso, temos a possibilidade de transformar esse blog em um blog privado em que apenas aqueles que postam têm acesso a ele. O que vocês acham?

O nu: conversa com o comentário da Lu (ih!rimou!)


“o nu - quero dizer o nu na arte - é mesmo sempre frágil? e se esse nu comunica nossa fragilidade é por empurrar a alma, desamparada e sem disfarces, para o primeiro plano do olhar?
acho que o nu fora da arte - sempre plastificado nas formas e medidas perfeitas - é hoje mais um meio de opressão.”
Comentário da Lu

Não, não na arte, mas para mim. Para mim o nu é vulnerabilidade e desapego. E, portanto, nos quadros em que indentifico a minha arte, naqueles com os quais me comunico. Mas gosto de um nu, não por dizer a vulnerabilidade e desapego, mas por considerá-la. Se o nu nega a vulnerabilidade e desapego, ele fala dela, mas por meio de seu oposto. E, assim, fala comigo também. E, é por ter o meu nu em mente, que posso falar com outros nus que não se opõem a vulnerabilidade e desapego, mas – por exemplo - a ignoram. Se ao ignorarem, propõe outro sentido no lugar, então talvez eu consiga ler esse novo sentido, talvez não. Talvez eu goste dele, ou talvez não entenda.

Para mim, vulnerabilidade e desapego não é o mesmo que fragilidade. Um vaso é frágil porque se esbarrarmos nele, ele pode cair e se despedaçar. O ser humano é vulnerável, porque sente dor, e a dor, se passa, se é que passa, nunca é completamente. Dor se acumula. E o corpo, diferente do vaso, não quebra, agüenta. Já o desapego é a entrega a essa vulnerabilidade, é aceita-la de corpo e de alma, sem restrições, sem esforço e sem medo da dor. Estar disposto a agüentar, em paz e com leveza.

Se atribuo esse sentido ao meu nu não é apenas porque ao me encontrar nu, senti me assim. É também porque encontrei esse nu na arte, e não sei o que foi que se deu primeiro: meu sentir na vida, ou meu sentir na arte. (apesar de gostar de acreditar que a vida sempre antecede a arte). Sem querer discutir arte como instituição social. Não acredito que “inventamos sentido” para as pinturas, eles estão lá, ou não estão, e se o compreendemos é porque dele também compartilhamos. Enxergamos o quadro porque estamos dentro dele.

E a roupa é uma maneira de marcarmos o nosso controle sobre o próprio corpo, dizer: “aqui estou eu seguro e inteiro em mim”. Produzimos a crença nesse controle, na qual de fato não acreditamos. Acreditássemos, talvez ainda usássemos roupa, mas com tanto pudor? Tanto cuidado? (Um breve comentário antropológico: sim, nem todas as sociedades usam roupas, mas todas, sem exceção, intervém no corpo: se não pela roupa, pela pintura, tatuagem, brincos, colares, etc.) Como explicar o sentimento que nos acomete quando sonhamos estarmos nu em um lugar público?

O nu em si não é o desamparo sem disfarces da alma. O nu em si não é nada, os nus são muitas coisas, sempre que artista e público se alcançarem. Tanto que o nu pode ser o próprio disfarce, e fora da arte e fora da vida, nominalmente “sempre plastificado nas formas e medidas perfeitas, ele com certeza o é. E nessa forma, a do disfarce, quando ele oprime, e com certeza ele oprime, oprime mais a consciência, e menos a alma do que certas pinturas capazes de nos despir.

Fui pedante?

28.8.07

identidad (madrid, fevereiro de 2007)

identidad
narrativa de sí mismo
imagen turbia que intento capturar
entre muchos fantasmas
unos fracasos
algunas obsesiones
y las memorias que añoro
pero la verdad es que ni siempre se puede entender
la realidad de sí mismo
la vemos en fragmentos incoherentes
y solamente a veces

25.8.07

Nós

(28 de agosto de 2001)

Os nós que fazemos de nossas vidas, as teias, que enredam pensamentos, as angústias e os desejos... são apenas nós que não (nos) vemos. Se acaso me perguntar porque mantenho a minha calma é por saber que se trata de um só fio. E ainda que investigue as razões de meu desespero é por temer a idéia de que todos somos nós em um fio só.

Octopus

(21 de julho de 2005)

Mar: salgado, inconsciente e milenar
Arrasta para o fundo esse poço que aqui me prende,
Eco insondável na procissão das vagas eternas do ausente.

Quero tudo, e tudo é longe
Lá não acaba o mundo, acaba a minha esperança:
Definhar lento e incansável de um olhar
Feito para perder aos poucos em cada espuma,
Feito da loucura dessas profundezas

Quero surdo, e mudo quedo
Cá acaba meu luto, acaba a minha mudança:
Defumar pardo e inexorável de um gosto
Feito da espuma dos que perdem aos poucos,,
Feito para os profundamente loucos

Incontável ausência terna que afaga meu ego em processo,
Afasta do mundo o poço que se fende no
Mar: raízes, só no lodoso instável

Xadrez

Faz muito tempo que não jogo xadrez, muito tempo mesmo. Acho que ainda era pré-adolescente. Era o único esporte do qual eu gostava de participar, afinal não era necessário mexer muitos músculos. Sei que aquela cena do "Sétimo Selo" já virou super clichê, mas isso não impediu o Woody Allen de fazer uma boa paródia. Nela, a Morte faz uma aposta com o pretendente a além-vida, porém de biriba. Desafortunada, a Morte perde e, sem dinheiro nem para um táxi, promete voltar outro dia.

Ontem, pensei em como estamos sempre jogando xadrez com a Morte. Não é pelo motivo óbvio de sermos os últimos românticos (no sentido literário), nem pela nossa pretensa morbidez. Quem joga com a figura negra é porque não cansa de se perguntar a necessária validade de sua vida. Assim como ser ateu, ou pretender sê-lo, é um diálogo constante com Deus, quando os católicos podem iar a missa e se darem por satisfeitos consigo mesmos por terem feito aquela visita enfadonha a um parente distante.

Cogitei um pouco que morremos muito antes do nosso efetivo sepultamento. Jogamos xadrez com a ceifadora de vidas nessas coisas mínimas, em nossas escolhas, na pasmaceira do cotidiano. Há tanta gente que já pode ir escolhendo um belo caixão! Não quero dizer pela experiência dos outros, mas a minha mesmo. Ser um bom acadêmico, ou melhor, um que seja eficaz, requer algumas renúncias à sensibilidade artística e emocional que não se pode estranhar como se não perca a alma assim.

Outro dia morri um pouco diante de tantos filmes "de arte" que não me tocaram. Morri durante as últimas semanas aguardando minha qualificação, senão ao longo de todo este mestrado, suspendendo as teias emocionais que me conectassem ao pulsar das emoções dos meus amigos. Morre-se muito bem observando o próprio umbigo, quero dizer, nessa expansão ilimitada de si mesmo que belamente se diz chamar "individualidade". Ser o indíviduo pleno, autosuficiente, é morrer pela ilha de ego que nos isola dos outros? E esse gosto amargo do sucesso, essa auréola fria e superior que nos retira do convívio humano? Não sei responder, pois é só pelo reconhecimento social que existimos diante dos outros. Apenas pelo olhar dos outros reconhecemos aquilo que nos torna uma individualidade.

Nestas partidas de xadrez, ela não produz golpe certeiro, anda passo a passo com a vida, retira nossos pertences aos poucos. É por misericórdia e compaixão que arranca deste mundo aqueles seres meramente biológicos aos quais só resta o que se chama de cotidiano.

23.8.07

Experimento 1




A vulnerabilidade e o desapego implicados na nudez parecem reservar apenas dois destinos ao corpo que é entregue ao olhar do outro: a Morte e o Sexo

Filmjournal 1 - Memórias do subdesenvolvimento

Filmjournal – FW2

Renato Morita

Poderia versar sobre tantos e tantos aspectos técnicos e cinematográficos presentes numa obra como essa: contundente, de impacto desconcertante, como suele causar a lucidez sincera. Mas, desconcertado como estou - acabei de assistir o filme - só posso escrever sobre mim e nosso tempo. Propriamente, o lugar que um filme como esse ocupa em mim hoje, e neste mundinho estúpido, de ingenuidade repugnante.

Sem qualquer consentimento da sua parte, ouso colocar-me ao seu lado. Ouso identificar-me com seus sentimentos, e afirmo – sem poder provar – compartilhar desse filme com você. Sou tão jovem, e tão velho porque esvaziado de esperança, entorpecido pela melancolia. Amo este país e este povo no qual não me reconheço. Quero fazer parte dele, mas ele também não me vê. E parece que ainda procuro por mim, quando observo as multidões.

Fugi para o cinema em busca de abrigo, recusando a parte de mim que me encaminhou para Economia, a parte de mim que quis desenvolver esse país, que quis ver um povo mais digno, que acreditou nos valores liberais da justiça, da liberdade e da igualdade. Atravessei a floresta marxista, devassei os intérpretes do Subdesenvolvimento(Cepal), cruzei a fronteira da Economia e, mesmo cansado e com frio, parti para as novas paragens da sociologia e da antropogia, e ali, encontrei a morte. Já não creio, já não posso mais crer. E o desconcerto que este filme me causa, não é de revelação, mas de reconhecimento. Reconheço, vejo, sinto, o lugar que Sérgio ocupa na sociedade cubana: sua paralisia, sua entrega ao destino. Para ele, o destino de Cuba é o seu destino e, aconteça o que acontecer, ele o aceitará.

Assim, ultrapassando a razão do protagonista, ele sente que é cubano. O envolvimento de Sergio com Elena, só pode ser descrito pela maneira com que Sérgio descreve a própria Elena: “Uma das coisas que mais me desconcerta nas pessoas. É a sua incapacidade para sustentar um sentimento, uma idéia, sem dispersão. Elena demostrou ser totalmente inconsequente. É pura alteração, como diria Ortega”. Talvez ele não perceba, mas é tão inconseqüente quanto Elena na maneira com que se envolve com ela, e por isso, é tão cubano quanto os demais. Essa talvez seja sua maior contradição, porque é aquela que ele não consegue verbalizar, isto é, que a sua condição existencial específica só faz sentido, só poderia existir, neste país subdesenvolvido. É por isso que ele fica, que ele não vai embora com sua família. Em Cuba ele está morto, mas nos EUA ele nunca teria existido.

No momento da mesa redonda entre intelectuais, Sérgio vislumbra a precariedade do conceito de subdesenvolvimento, definido e utilizado por ele para explicar o seu mundo. E esse conceito é precário, por que é um conceito. “Não entendo nada, o americano tem razão. As palavras devoram as palavras, e deixam você nas nuvens, na lua, a milhas e milhas de tudo.” É fugindo da esterelidade inerente às palavras que também acabei no cinema. O filme, e só o filme poderia expressar a sensibilidade, a complexidade e a decadência presentes nos países subdesenvolvidos, como o nosso. Só um filme faria jus a essa realidade incompreensível porque incompreendida por aqueles que a constituem.

Isso tudo, acho que sou eu. E o que penso disto tudo, nesse nosso tempo, nesse nosso mundo de hoje? Que ninguém irá gostar desse filme. Que ninguém compreenderá. Talvez alguns, mas poucos, insignificantes porque poucos. E, um filme como esse para Filmjournal só irá contribuir para distanciar os alunos de você. Que ninguém sairá transformado desse filme, que os alunos pensarão: mais um filme chato, mais um filme político, do esquerdista de plantão. Acreditava que Eduardo Coutinho seria o único capaz de sensibilizar a minha classe, qual não foi a minha surpresa. Para mim, a sua luta sempre esteve perdida, você não conseguirá transformar os alunos da AIC. Como Sérgio, eu aceito a morte. E você? (Desculpe pelo pessimismo, se você quiser chamar de pessimismo)

Sinceramente

O que é um filmjournal?

Filmjournal era o nome das análises de filmes que eu precisava entregar semanalmente durante o curso de cinema na AIC

Experimento

Eisenstein foi um dos cineastas que se opôs veementemente à introdução do som no cinema. Mas, depois de comprovado que o filme sonoro não era uma moda passageira, buscou se posicionar diante da inovação. A introdução de um novo elemento na arte cinematográfica só se justificava se contribuísse para torná-la mais rica. E riqueza para ele era sempre produto da montagem, dos sentidos que a justaposição de imagens era capaz de comunicar. Sentidos novos e únicos, porque imagem fotográfica – como unidade básica da “escrita” cinematográfica - não era equivalente, e não podia ser substituída, pela palavra. A qualidade singular da imagem decorreria da correspondência que guarda com o pensamento e a imaginação humana (nunca somos capazes de dizer exatamente aquilo que pensamos), e portanto, o cinema significava uma forma mais elevada e mais complexa de pensamento/comunicação. Como bom engenheiro que era, levou essa proposição ao paroxismo, chegando a trabalhar na adaptação de “O Capital” para o cinema.

Mas de volta ao som. Ele só poderia contribuir ao desenvolvimento da arte se cumprisse uma função contrapontística. Isto é nunca apenas reforçando ou ilustrando algo que a própria imagem já é capaz de comunicar.

Se estendemos esse raciocínio a toda a justaposição de meios expressivos distintos(não só a imagem e o som, mas a imagem e a escrita), temos o experimento que proponho (nada novo nem original).

21.8.07

do Outro

acho que tudo começou de verdade ao caminhar pelas ruas de uma europa orgulhosa de sua tradição cultural e ver misturadas nas paisagens de cartão postal umas caras que destoavam e pareciam gritar que o mundo não era aquilo não. essas caras eram os pobres do terceiro mundo, latino americanos, africanos, muçulmanos, nossos Outros globalizados. esse Outro que produz em nós o medo e a compaixão – assim mesmo misturados –, mas tenho certeza que nunca a identificação. sou uma cidadã latino americana, mas antes sou da classe-média-globalizada-participante-dos-circuitos-internacionais-universitários-turísticos-de-consumo. Não, não sou uma cidadã latino americana, pelo menos não no círculo da classe-média-globalizada-participante-dos-circuitos-internacionais-universitários-turísticos-de-consumo que freqüentei por lá. latino americanos são os imigrantes pobres, desgraçados, sujos, preguiçosos, bêbados, ilógicos.

e aí tropecei n’a conquista da américa, do todorov, e no orientalismo, do said, e lá encontrei umas vozes européias que ressoaram na minha mente outras vozes européias que escutei quase ontem. incrível como as visões corrompidas do Outro vão se reciclando através dos séculos e justificando e alimentando a destruição, velada ou escancarada, desse Outro maldito.

então me pergunto se a alteridade é um lugar existencial impossível ou somente improvável.

[texto ainda em construção, só como um voto de intenção de participar]

Balzac

Balzac foi uma criança gordinha, tímida e desengonçada, que repetiu a oitava série e cresceu para se tornar um adulto igualmente gordo, proporcionalmente pedante e financeiramente inapto. Oscilou entre a mera sobrevivência (graças à ajuda de familiares e amantes) e o acúmulo crescente de dívidas. Desde sua decisão de se tornar um escritor, até o reconhecimento público, Balzac precisou de 15 anos, tempo necessário para que ele produzisse o primeiro livro digno de algum reconhecimento. Por isso, para Taillandier, é o primeiro a transformar o artista numa personagem romanesca, que sacrifica a sua vida em busca de um ideal de beleza, e que após humilhações e penúrias, alcança enfim o estrelato. Ideal romântico, ao qual Flaubert viria acrescentar a boêmia e a uma inflada subjetividade.

Mas diferente de Flaubert que defende a marginalidade social do artista como um ato heróico na sua missão de denunciar o caráter ridículo, sujo e hipócrita da sociedade burguesa, Balzac se ressente de sua posição, lamenta permanecer do lado de fora da festa, anseia pelo calor dos aplausos ao entrar no salão. Assim, quando ele ridiculariza a vida privada dos burgueses e denuncia a lógica cruel que rege o seu tempo, é mais por que aí encontra o seu filão de mercado, o gênero que o consagraria na sociedade parisiense. E, se tem facilidade para falar dos aspectos vergonhosos e patéticos do mundo burguês, é porque ele não precisa olhar mais longe do que para si próprio.

Balzac não poderia estar mais distante da imagem heróica e revolucionária do artista. Dedica-se antes pelo reconhecimento público do que pela grandeza de sua obra, ou melhor, a grandeza de sua obra só importa porque é graças a ela que ele poderá alcançar o reconhecimento. Um artista em consonância com o seu tempo. Monarquista, ele viveu a Restauração, que se seguiu a derrota nas Guerras Napoleônicas. A falta de vigor de seus ideais humanistas e a maneira como estes estão a reboque de seus interesses individuais parece não destoar do destino dado a Revolução, que foi - de um ponto de vista específico - um grande trampolim para que membros das classes subalternas substituíssem seus antigos senhores na composição da nobreza.

O blog é uma corrente de vida

Nos últimos meses, decidi interromper os meus estudos em cinema e comecei a estudar para dois concursos públicos. Este momento será um dia conhecido por meus biógrafos como “the burocratic turn”. É verdade que esta decisão, como afinal todas as anteriores a respeito da minha vida profissional, aparece aos olhos daqueles que perdem seu tempo olhando para mim, ser mais uma decisão precipitada, tomada de maneira negligente, e porque não, fadada ao fracasso. Desta vez, no entanto, tenho graves e robustas razões para acreditar que a este passo para frente, não se seguirão dois para trás. Como, afinal, eu sempre tive para todas as decisões anteriores. E é por isso mesmo, que me abstenho em enumerá-las aqui.

“The burocratic turn” é um período de transição. De uma vida voltada ao cinema, literatura e teatro, para uma vida responsável e auto-sustentável, voltada – sempre que possível - ao cinema, literatura e teatro. A efetivação desse novo regime existencial, baseado num compromisso não apenas com o prazer mas igualmente com o dinheiro, depende da participação de todos. Falo a seus corações e consciências, quando peço que participem deste blog. E, assim, reafirmem os seus votos de compromisso com a minha saúde e bem-estar. Afinal, a construção de uma amizade duradoura - entre todos nós - depende da minha saúde física, mental e financeira.

O menino, a folha e o búfalo



E é assim que inauguramos o nosso blog... porque assim é a vida:um búfalo inerte, e estamos sentado sobre ele, pelados, com medo, mas a espera de que ele se mova. Mas ele não mexe, e nem vai se mexer