Em meio a buscas de autores contemporâneos de nossa geração, tive a felicidade de cruzar com o livro de Cecília Gianetti, Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. É, foi feliz que fechei a contracapa do livro, feliz por ter vislumbrado beleza ali, não a beleza própria das coisas belas, mas aquela mais difícil de capturar porque emergente das camadas sujas de uma realidade brutal. No livro da Cecília, a violência urbana do Rio encontra uma expressão literária que eu sinceramente não acreditava possível, pois não é somente cenário para peripécias subjetivas, mas desempenha o papel ativo de tanto desencadear a narrativa, como de fornecer o material que deverá ser elaborado e decifrado pela mente da protagonista. O testemunho de uma cena de violência brutal detona um processo de desconstrução e reconstrução da identidade da personagem. A quase dissolução do eu em imagens tecidas em raios de lembranças e alucinações abrirá também um caminho de libertação. Nesse contexto, a tessitura do livro tem a consistência própria à memória e ao delírio, os quais impõe duplamente um caráter fragmentário à sua estrutura, o que não suprime, por outro lado, uma narrativa sutil que é sugerida aqui e ali.
Os conteúdos alucinatórios parecem ser a única resposta coerente à realidade social (pelo menos, de um ponto de vista de classe média, que é afirmado logo de partido no livro), sendo uma tentativa de organizar e conferir sentido à sua irracionalidade. Nesse esforço, competem em irrealidade com o mundo externo mesmo, conduzindo à dúvida do que é mais absurdo, se os delírios ou a sociedade.
A memória, por sua vez, abre múltiplas temporalidades no narrado. A maior parte do livro é construído como um diário do processo de desintegração do eu da personagem após o testemunho da cena de violência e isso já constitui uma forma de rememorar – e, portanto, de deformar e selecionar –, mesmo que um passado próximo. Naquele processo, como uma segunda camada de memória, lembranças distorcidas vão fornecendo pontos de referência para recompor um passado que muitas vezes a protagonista quer negar voluntariamente.
Fechar o livro da Cecília numa caixinha de poucas linhas é injusto, mas foi minha tentativa de despertar em vocês um pouquinho de vontade de compartilhar essa leitura comigo (posso emprestar o livro para quem pedir primeiro). Segue um trechinho para sentirem o ritmo da toada:
Coloco o homem porta afora. Bêbado, vai fácil. Giro a chave três vezes e fecho ainda outro trinco acima da fechadura. O homem vacila, escuto seu corpo bater contra a madeira da porta, soando magro e disforme. Dou as costas àquela aporrinhação, leve, estou livre de alguém que não reconheço mais, indiferente à dor fanfarrona do sujeito. É como se pela primeira vez eu me desse conta de mim mesma, leve, ainda que ignore informações básicas que – é possível perceber pela maneira como meus amigos me olham quando me fazem perguntas – eu deveria, por algum motivo, reter. Além de seus nomes e profissões, algumas outras informações como: a importância, na minha história, do homem que uiva do lado de fora. Subo as escadas do duplex até o quarto, adivinhando que agora ele gasta com ninguém a cara de cachorro perdido, bufando na calçada deserta a aporrinhação que me desbotaria o sangue, caso eu me deixasse abater.
Um comentário:
Luciana, sua intelectualóide!
Postar um comentário