Primeira ParteA Descoberta
Luis Augusto nunca teve muita consideração por si. Jamais acreditou ser capaz de realizar algo significativo. Não é que não tinha sonhos, obviamente que os tinha. Só não tinha esperança de concretizá-los. A aritmética foi simples: ponderou a sua inteligência, a intensidade de suas ambições, o grau de desconforto que estava disposto a suportar e, sem muita dificuldade, concluiu pela falta de grandeza de seu espírito. Havia lido Braz Cubas, e se entendia, portanto, muito bem acompanhado. Ademais, acrescentava ele, de si para si, “e mesmo que tivesse nascido grande de espírito, do que adiantaria? Daqui desse fim de mundo.”. Neste último ponto, talvez tivesse razão. Mococa do Sul era o fim do mundo. Nasceu, cresceu, e vivia ali até hoje, naquela cidade minúscula e miserável, cravada na monotonia interminável das lauvouras de cana.
Mas, quando num terrível acidente automotivo, seus pais morreram subitamente, foi obrigado a reconsiderar essa opinião. Não a princípio, a princípio foi acordado pela campainha às três horas da manhã, com um policial a sua porta, aparentando não dormir a anos e tremendo muito. Ele vinha pedir que Luis o acompanhasse até o hospital, que teria que reconhecer os corpos. Como o policial esqueceu de comentar sobre o acidente antes, sua primeira reação foi continuar com sono, dissipado pela reação inusitada do policial que, diante da aparente falta de reação do orfão, explodiu num choro convulsivo. E então Luis Augusto compreendeu. Não, obviamente não foi nada fácil, mesmo que por pouco mais de um minuto, o cheiro químico, a sujeira nas paredes brancas, os corpos estáticos iluminados pela luz fria. Só chorou depois de voltar para casa, encostado na parede do corredor, até cair no sono ali mesmo.
Mas não foi o fato em si que obrigou-o a reconsiderar o seu ceticismo. Investigando as propriedades do pai, seus extratos bancários, descobriu que não herdara apenas a pequena casa em que moravam, seus móveis e eletrodomésticos velhos, e a belina verde destruída no acidente. O que obrigou-o a reconsiderar o seu ceticismo foi descobrir que tinha dinheiro. Quanto dinheiro? Teria que investigar. Antes disso, no entanto, todos os sentimentos, do comichão de uma euforia que se antevê até o incômodo incompreensível de se descobrir subitamente só, foram colocados de lado por uma questão que parecia à Luis Augusto muito mais importante, muito mais preemente: porque é que seu pai havia vivido como pobre? Não pensava em tudo que essa escolha o havia privado, só queria entender que pessoa era essa, que durante toda sua vida, havia parecido simples e óbvia? Diante de quem ele nunca havia dispendido um minuto sequer de reflexão séria. De repente, aquele velho enterrado na poltrona da sala, que cuidava do jardim porque sua mãe mandava, que ia a padaria sempre às seis da tarde, que nem ao menos bebia, se tornava um enigma, era engolido pelo breu, repleto de segredos e promessas, por um passado, que pela primeira vez se dava conta, nunca conhecera.
Essa se tornou a sua ocupação. Aquela casa velha, carcomida, tão familiar, surgia como um campo arqueológico intocado, sepultando em seus esconderijos os mistérios da criação. Examinava minuciosamente cada objeto pessoal do pai, ruminava teorias, decifrava padrões nos seus comportamentos mais usuais, procurava indícios de sua vida passada, cadernos de anotações, fotos, qualquer coisa, voltou-se aos seus conhecidos na cidade, aos parentes distantes. Dormia agora na cama dos pais, faxinava a casa-nunca fizera isso antes-, e sonhava com ele de vez em quando. Os meses que se sucederam foram de muitas descobertas. Havia uma peruca empoirada no fundo de uma gaveta; meias gastas remendadas que seu pai não jogou fora; numa agenda de telefone, uma foto 3x4 de uma moça jovem e bela; uma espingarda de chumbinhos no quarto das ferramentas; uma tira de papel rasgado com um telefone pela metade, dentro de um de seus palitós; e muitos outros objetos, que ele catalogava e organizava, guardando-os, segunda distintas categorias, ao longo dos armários da sala e do seu quarto(transformado em escritório). Além disso, considerou imprescindível, a medida em que acumulava informações, contrastá-las com suas próprias memórias. Passava então, vários dias sem mexer em nada, num esforço de rememoração, tentando reviver os momentos passados com o pai, buscando pistas, reconstituindo as suas falas, a variação de seus humores, suas atitudes suspeitas, os momentos de desconforto. Em tudo, em cada uma dessas coisas de que se apropriava, podia residir a resposta para sua questão, provavelmente em todas elas simultaneamente, se fossem articuladas da maneira certa.
Sem perceber, superara a morte do pai, tornando-a a sua vida. Tomara a direção contrária, desbravando o passado, e esquecendo o futuro. Foi pensando nisso que acordou, infestado de picadas de pernilongos, suando toda gordura do seu corpo, num calor insuportável do pior verão do mundo. Olhou ao seu redor e sentiu vergonha, lembrou-se que era rico, e decidiu se mudar dali.
Cinco meses depois, já tinha vendido as terras do pai, recolhido todo o seu dinheiro, embolsado o seguro de vida, vendido a casa, e estava agora de pé na rodoviária, com duas valises grandes, uma herdada de seu pai, e um baú de madeira fechado a cadeado, esperando o ônibus que o levaria para capital. Sabia o que esperava por ele, que não devia se apaixonar por qualquer menina e que não devia dizer aos outros sobre o seu dinheiro, lera Quincas Borba. De fato, além do gerente do banco(que recebeu 1000 reais para ficar quieto), ninguém em Mococa jamais desconfiou da fortuna de sua família. E, logo, logo, isso não importaria mais. Mas Luis Augusto não havia desistido da sua questão, só havia interrompido as suas investigações, para cuidar de si, afinal, agora tinha dinheiro e não precisava mais suportar o mal-cheiro da cidade, o calor das noites de verão e, principalmente, os malditos pernilongos. Os objetos do pai que considerava mais importantes, ele ainda carregava com ele, nas duas valises. As suas poucas coisas estavam no baú, eram poucas, porque nunca teve muitas e porque pretendia comprar tudo novo na cidade. Eram nove horas da noite, decidira não se despedir de seus amigos. A distância, olhava com orgulho para si mesmo, e tentava não fugir da sensação opressora de se ver obrigado a reconsiderar o alcance que dava a seus sonhos. Nunca tinha visto um, mas talvez, quem sabe, era este um começo.