31.10.07

Noman isanis land

Eu queria ser uma ilha. Mas são as ilhas mais do as esperanças de um navegante solitário? E mesmo quando escrevo coisas que só eu entendo, elas perturbam as outras. Um texto, meu deus do céu, é só um texto. Quem é que acredita em qualquer um deles? A tentativa de escrever é a tentativa de se aproximar de algum ser inapreensível. Então falamos de como a luz se derrama sobre ele, sobre a nitidez das sombras, notamos o leve deformação do ar ao seu redor, seu reflexo incerto sobre as superfícies que o circundam. As vezes, falamos dele, até ele desaparecer. Quem é estúpido a ponto de descrever uma música ou um poema? Quando a experiência em si reside naquelas porções indizíveis, que poderiam muito bem serem confundidas com a nossa imaginação, projeções de nós mesmos, não fosse o estranhamento que nos arrebatando, nos assegura de nossa insignificância e impotência. Pois que beleza é impotência, mutismo diante do absoluto. E no instante em que falo dela, nada, além do nada em que mergulho os meus sentidos. Branco.

25.10.07

Duas imagens interiores

Eu não posso mudar nada completamente, nada de uma só vez. Quando queremos que a vida empoce, ela nos arrasta como enxurrada. Quando queremos que ela se transforme, nos vemos restritos ao curso do mesmo rio. O tempo que passa um segundo de cada vez não existe. Cada unidade temporal e sua multiplicação, o que é que representam quando olhados de perto, para nós mesmos? O que representam os segundos que nos atravessaram, a cada um de nós, um segundo pode valer mais que um ano, ser igual a três dias, quase uma década.

Mas não falava do tempo, falava da mudança. E falava também da comunicação. Nos textos que venho escrevendo neste blog, já abandonei toda a pretensão de me fazer compreender. Já não conto, nem hipoteticamente, com a atenção cuidadosa de quem me lê. Como posso? Quando eu mesmo não me dedico a leitura dos textos de vocês com o carinho que deveria. Os textos que escrevo aqui terminam sendo trechos interrompidos de sensações-pensamentos de um nódulo interior qualquer.(Nossos pensamentos não são como pequenos tumores que dificultam a passagem de certos flúidos vitais?). Densidade demente que me apartar do outro e me insula do mundo.

Assumi o pressuposto de que não importa quem ou como me leêm, seguirei escrevendo. Um autista assumido então? É, parece que sim. Não minto, isso me assusta. Não era para eu ser autista, mas se o mundo não é como quero que ele seja, que eu contrua o meu? Um mundo em que ocupo o centro do sistema é melhor do que um em que não fui esquecido, porque nunca descobriram que eu existia. Esse segundo, em que ocupamos a periferia esquecida, é o mundo real. É? Ou é mais um mundo interior, só que mais assustador? A questão não é qual é o mundo real, e sim, que importa o mundo real? Minhas paranóias e disfunções devem ser contidas, viver sobre essas bases me aleija, porque deixo de acreditar que as minhas pernas me sustentam.

Levei a minha analista a distinção entre problemas psíquicos e problemas filosóficos. Ela, pessoalmente, não entende o que são problemas filosóficos, o que por si, mostra as limitações dela. Mas as limitações delas não importam, porque quando ela disse que não entendia o que são problemas filosóficos, ao invés, de começar a discutir com ela, e tentar convencê-la de que eles existem, e o que são, eu simplesmente questionei a distinção que eu, pessoalmente, faço entre esses dois tipos de problemas. E fui obrigado a reconhecer que no passado recente havia incluído na categoria filosóficos, problemas psíquicos que eu simplesmente não tinha coragem, nem vontade de enfrentar. Precisamos de análise porque não podemos confiar nos nossos pensamentos. É isso que na verdade eu penso hoje. Não é porque pensamos, que sabemos como pensamos. Não conhecemos o nosso próprio pensamento(como processo), apenas os seus resultados.

Mudança(e a impossibilidade da mudança), leva a comunicação, que leva ao blog, que leva ao autismo(negação da comunicação), que leva a análise, que leva ao meu pensamento(e a minha ignorância sobre ele). Só não entendi a relação entre mudança e comunicação. Porque é que construí essa passagem? Porque são as duas pontas que quero aproximar eu acho, porque o que quero mudar é o meu autismo, quero poder me comunicar. Mas eu já desisti e me decepcionei tanto com isso.

Minha analista insiste num conceito de normalidade ao qual eu deveria me enquadrar. Não, não a repudiei por causa disso. Me perguntei não o que essa idéia continha de errado, porque isso eu chegaria facilmente. Me perguntei o que essa idéia podia conter de verdadeiro, de correto. E de fato ela continha. E de fato eu precisava me normalizar. Sei lá o que é normalidade, mas isso não me impede de me normalizar. Porque, do ponto de vista da minha psíque, não importa o verdadeiro conceito de normalidade, não importa porque, quando eu penso em me normalizar, isso possui um sentido para mim. E o meu sentido de normalização é o de fazer as pazes com o mundo e com a vida. Será que foi isso que a minha analista quis me dizer? Provavelmente não, mas isso não importa, enquanto eu puder me servir de suas palavras para a extração de certos tumores malignos. Mas se o autismo é para mim um problema. (se lembram de quantas vezes vocês falaram comigo e eu não escutei, e estava preocupado apenas com o que eu tinha a dizer, essa é uma das forma do meu autismo). Mas se o autismo é para mim um problema, não é a minha maneira de ver e de fazer a análise, portanto a minha maneira de lidar com o autismo, também uma forma autista? Eu não estou simplesmente ignorando a minha analista, usando ela para refletir sozinho sobre o meu próprio mundo, mas sem de fato escutar o que ela tem a me dizer?

E o que me assusta mais é que eu gosto do meu mundo, e se imagino dentro dele como seria o mundo de fora, esse mundo de fora me assusta, parece inóspito, sem qualquer ordem, sem justiça, sem beleza, sem paz. Não quero abandonar o meu mundo, dentro do qual vivo todos os prazeres da vida.

Duas imagens anterios

A pessoa sentada no parapeito, não é uma pessoa é um boneco.

O búfalo é cego.

18.10.07

Formalismo subjetivo

olha aí a estrofe do Bruno:

Eu bem que queria ficar de papo pro ar
Mas a vida não dá
Olhei no relógio, estás atrasado
Estou em atraso
De tanto reclamar


Vou tratar de uma única questão. Proponho que o último verbo (reclamar) está atrapalhando o ritmo do verso e da estrofe. Ele tem uma sílaba a mais.

Me explico:

bem que queria (entre as tônicas, duas átonas)
papo pro ar (entre as tônicas, duas átonas)
vida não (entre as tônicas, duas átonas)
Olhei no regio (entre as tônicas, duas átonas)
estás atrasado (entre as tônicas, duas átonas)
Estou em atraso (entre as tônicas, duas átonas)

De tanto reclamar (tem três átonas aqui)

Até acho que o verbo reclamar nem seja essencial para cena. Há sinônimos e palavras próximas com duas sílabas que se encaixam no ritmo.

Agora, eu não sei se foi intenção ou não do Bruno quebrar o compasso. Talvez seja uma questão que não importe, tudo bem. Reafirmo, pessoalmente, eu acho que um verbo (para substituir o reclamar) de duas sílabas se encaixaria muito bem no ritmo da estrofe.

16.10.07

(primeira proposição sobre o sentido da arte)


Prêambulo

Em pelo menos uma coisa os marxistas tinham razão (às vezes sem se darem conta): toda luta política se reduz a uma disputa classificatória.

Parte única

Fui a uma palestra sobre Walter Benjamin, que distinguia três maneiras de se apropriar da “cultura”: pelo conceito de tradição, pelo de herança,e, pelo de transmissão.

A tradição é a maneira burguesa de se apropriar do passado, que é transformado num inventário de “bens culturais”, sobre os quais a sociedade burguesa exerce a propriedade.

A herança corresponde a propriação do passado pelo marxismo vulgar, que por sua vez, o reduz a um arsenal de potenciais intrumentos à disposição da luta de classes. O problema é que, neste caso, o passado segue sendo uma propriedade.

Só o conceito de transmissão é realmente revolucionário. Por que propõe não ver o passado como tempo morto, que ao ser acumulado, leva inexoravelmente ao presente. Um passado assim contruído, só pode ser mais uma forma de alienação, e portanto, mais uma barreira à verdadeira transformação. Um futuro novo exige um novo passado, pois o sonhar nasceria sempre da memória. Mas de uma outra memória, colhida nesse outro passado. Memória viva que se permite surpreender, encontrando no passado algo novo, e não apenas formas conhecidas que anunciam o presente.

Bem, bem, bem. Mas afinal, eu, sim eu, o Renato, não leio atualmente nada que, de alguma forma, não se encontre já consagrado pelo cânone ocidental. Eu devo então ser um burguês. Lembro agora que tanto eu quanto o Luiz defendíamos, e há não tanto tempo atrás, o Eliot.

Mas, não. Por outro lado, quando eu leu os clássicos não procuro neles apenas aquilo que eles contém de antecipação do presente. Intensa e incessante é a minha busca pelo diferente, por aquilo do passado que nada se assemelha conosco. Estou, então, em busca do novo! Ufa, sou revolucionário.

Mas todo mundo sabe que eu não acredito na revolução, e nem sou marxista, nem vulgar nem de grife. E sou mais vulgar que burgês, e mais de grife que marxista. E, caminhando por aí, cheguei a um aforismo ( e nele me sentei com preguiça de seguir mais adiante):

Aquilo que eu falo sobre as coisas grandes, tão grandes que eu não consigo ver, parece tão insignificante quanto aquilo que digo sobre mim, tão pequeno que ninguém me vê

E a arte não seria, talvez, essa instância, capaz de comunicar ao tão pequeno o tão grande, e de encontrar no tão grande o tão pequeno?

15.10.07

Comentário de texto

Olha isso:

Vários pescoços passavam por sua fatal espada, e a cada homem morto por ele, um grama de uma certa felicidade vinha-lhe à tona. E com mais energia para matar ele ficava.

Ou isso:

Parou seu cavalo, deu meia volta e correu girando a espada a cima (acima) de sua cabeça. Não estava pensando, estava simplesmente com ódio, desejava matar todos por aquilo. Esqueceu todas as imprudências que cometia ao correr sozinho, esqueceu que poderia vingar-se depois e esqueceu que era um simples soldado, que não podia tomar decisões por ele mesmo. Atingiu vários homens que caiam (caíam – hiato, já estudamos) com cortes e furos fatais pelo corpo, o sangue destacava as tristes figura. (bom parágrafo, Ares é um ser inteligente: dialoga com o narrador que transmite para o leitor)

Não sei ainda quão consciente você está de como anda sua escrita. Ela está boa. Mesmo porque às vezes você seja mau aluno, meio que debochado, meio que opressivo na rebeldia. Sua escrita é boa. A forma como você une a palavra aos significados é interessante de se ler. Você tem uma sensibilidade criadora.

E isso nos diz muito sobre você.

Que o seu herói tem sintomas de vilão conforme os atos vão acontecendo, percebe? Isso é um sintoma que me diz que um dia você vai gostar de Shakespeare. Por mais que por muito tempo você irá repudiá-lo e esquecê-lo num canto.

Que sua simpatia com a Antiga Grécia - com um mundo revolucionado de guerras e aristocracia – me revela seu interesse pelo tempo. Pela história que vai deixando rastro.

(Não é? Seu metaleiro de merda? (essa parte é brincadeira))

Continue escrevendo no seu máximo, porque dá tempo. Seu livro já está encaminhado, basta se dedicar constantemente agora no final. O final, pense assim, pode ser a parte mais intrigante; afinal ele é um herói que anda passado de vícios.

Dedique-se porque o livro te dará inspiração lá na frente.

12.10.07

uma letra, por sinal horrível

Assim, Caros amigos

Ando com saudades da conversa assim baixa,
Dedilharmos um pouco de prosa e três dedos de olhar
No primeiro botequim em que se possa desaguar

Ando com aquela preguiça de escrever cartas longínquas
Destravar a minha língua em uma pena sem te enfastiar
No segundo papel já bem sei que vou me desarmar

Se encontrar um esquina por aí
Dê a volta, estou por ali
Entre duas cadeiras
Dobrando guardanapos
Tirando dois rótulos da garrafa
Mil casas de palitos de dentes

Eu bem que queira ficar de papo pro ar
Mas a vida não dá
Olhei no relógio, estás atrasado
Estou em atraso
De tanto reclamar

Ando sem deixar saudades
Agora vou para as bandas de lá
Dormir outro tanto, ter que acordar

Ando, senão a coisa enguiça
Vou te escrever mesmo enchendo linguiça
Só para não deixar de constar

8.10.07

O Blog vive! E viva o blog!


Só falta você!

O reverso da memória

Nós não somos feitos de ar. Se bater o vento, não saímos voando por aí não. Em toda a nossa finitude, rasgamos o mundo ao meio e deixamos nossa marca, e depois, todas as pessoas morrem e vamos embora junto delas. Mas até esse momento, somos de pedra, não é que o tempo nos derruba, o tempo é a proporção de nossa força, dizemos, apenas o tempo nos derruba. Um dia é uma vida inteira, e uma vida inteira, um único dia. Ou com sorte, uma hora e meia de filme.

A morte é um sentimento agudo e uma sombra densa que esconde a pupila no fundo dos olhos. Mas não vale morrer para sentir a morte. Daí não conta, porque sentimento pressupõe a continuidade da vida. Estou falando, portanto, da morte como sentimento, e não como realidade. Sobre a realidade, o que resta a ser dito? (cada um que viva a sua)

Mas voltando a morte. Que é aguda porque nos perfura de um lado a outro, e nesse movimento, sentimos algo que entra, veloz, certeiro, e em seguida, algo que sai, e brilha lâmina surpreendente para fora, diante de nossos olhos, o sentimento que se materializasse.

Já sonhei que morria com tiro de revólver e caindo de prescipício. No primeiro caso, segurava as entranhas com a mão, no segundo, sentia vertigem ao fixar os olhos nos meus pés, pequeninhos e sem chão.

Mas a morte, pra se sentir, há de permanecer. E quando vi meu avô no caixão, não vi a morte, não vi meu avô, vi estirados lá, todas as pessoas que choravam em volta, minha mãe, tias, avó. Mas vi também, vi também! Vi também os monges budistas que pediam mais dinheiro para continuar a reza e que, mesmo com aquelas roupas engraçadas e os cabelos tosados, não me convenciam, tinham cara de quitandeiros (porque japonês comerciante, para mim, é quitandeiro). Então, enfim, não vi morte lá, vi dor de alguns, lágrimas de outros, compaixão e comércio, e tudo isso que enumerei é vida e não morte.

Cade a morte, então?

Em “Santiago”, brutal e estática

(filme de João Moreira Salles)

(Má, é em branco e preto, mas vai ver...)

(Quem não gostar do filme, nem comenta que assistiu)

(Quem gostar, eu amo três vezes mais, ou cinco minutos a mais)

Música e Filme

Há algum tempo venho pensando que deveria fazer minha primeira intervenção nesse nosso espaço. Várias idéias surgiram, mas deveria ser algo impactante, já que havia esperado tanto. No entanto, nada mais simples e óbvio do que uma recomendação musical fruto do caos aéreo (de fato, resolvi escutar essa cantora por recomendação da revista da Gol) e uma cobrança de que todos aqui assistam ao filme Tropa de Elite (se é que já não o fizeram).
Não sei se algum de vocês já conhecem, mas estou tomada pela voz da Mariana Aydar. Seu único CD se chama Kavita.
Já o filme é capaz de provocar uma gama bastante ampla de sensações naqueles que o assistem e, até agora, ele tem se demonstrado perfeito em revelar como seus espectadores/habitantes de uma grandes metrópoles entendem os "mocinhos" e "bandidos" de nosso cotidiano. Garanto que ele não passará em branco para vocês. Para mim confirmou algo que eu pensava sobre mim mesma. Se é que vale de algo para vocês, valeu para saber que a hipocrisia nunca foi um traço marcante em mim. Aos mais críticos, recomendo que vão deixando de lado as críticas ao roteiro e àquilo que o filme não explora e se deixem levar pelas emoções que o filme provoca. Assim que todos tiverem assistido, proponho explorar mais o assunto.
Quem sabe, agora eu desencanto.

5.10.07

Recomendo

Em meio a buscas de autores contemporâneos de nossa geração, tive a felicidade de cruzar com o livro de Cecília Gianetti, Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. É, foi feliz que fechei a contracapa do livro, feliz por ter vislumbrado beleza ali, não a beleza própria das coisas belas, mas aquela mais difícil de capturar porque emergente das camadas sujas de uma realidade brutal. No livro da Cecília, a violência urbana do Rio encontra uma expressão literária que eu sinceramente não acreditava possível, pois não é somente cenário para peripécias subjetivas, mas desempenha o papel ativo de tanto desencadear a narrativa, como de fornecer o material que deverá ser elaborado e decifrado pela mente da protagonista. O testemunho de uma cena de violência brutal detona um processo de desconstrução e reconstrução da identidade da personagem. A quase dissolução do eu em imagens tecidas em raios de lembranças e alucinações abrirá também um caminho de libertação. Nesse contexto, a tessitura do livro tem a consistência própria à memória e ao delírio, os quais impõe duplamente um caráter fragmentário à sua estrutura, o que não suprime, por outro lado, uma narrativa sutil que é sugerida aqui e ali.
Os conteúdos alucinatórios parecem ser a única resposta coerente à realidade social (pelo menos, de um ponto de vista de classe média, que é afirmado logo de partido no livro), sendo uma tentativa de organizar e conferir sentido à sua irracionalidade. Nesse esforço, competem em irrealidade com o mundo externo mesmo, conduzindo à dúvida do que é mais absurdo, se os delírios ou a sociedade.
A memória, por sua vez, abre múltiplas temporalidades no narrado. A maior parte do livro é construído como um diário do processo de desintegração do eu da personagem após o testemunho da cena de violência e isso já constitui uma forma de rememorar – e, portanto, de deformar e selecionar –, mesmo que um passado próximo. Naquele processo, como uma segunda camada de memória, lembranças distorcidas vão fornecendo pontos de referência para recompor um passado que muitas vezes a protagonista quer negar voluntariamente.
Fechar o livro da Cecília numa caixinha de poucas linhas é injusto, mas foi minha tentativa de despertar em vocês um pouquinho de vontade de compartilhar essa leitura comigo (posso emprestar o livro para quem pedir primeiro). Segue um trechinho para sentirem o ritmo da toada:


Coloco o homem porta afora. Bêbado, vai fácil. Giro a chave três vezes e fecho ainda outro trinco acima da fechadura. O homem vacila, escuto seu corpo bater contra a madeira da porta, soando magro e disforme. Dou as costas àquela aporrinhação, leve, estou livre de alguém que não reconheço mais, indiferente à dor fanfarrona do sujeito. É como se pela primeira vez eu me desse conta de mim mesma, leve, ainda que ignore informações básicas que – é possível perceber pela maneira como meus amigos me olham quando me fazem perguntas – eu deveria, por algum motivo, reter. Além de seus nomes e profissões, algumas outras informações como: a importância, na minha história, do homem que uiva do lado de fora. Subo as escadas do duplex até o quarto, adivinhando que agora ele gasta com ninguém a cara de cachorro perdido, bufando na calçada deserta a aporrinhação que me desbotaria o sangue, caso eu me deixasse abater.

3.10.07

Sonho de 4 de dezembro de 2006

Sonho de 4 de dezembro de 2006, na noite entre o primeiro e o Segundo dia de filmagem de Réquiem. (É um sonho sonhado mesmo!)


Um jovem, inexperiente, percorre todas as madrugadas um mesmo percurso de carro. Em uma delas, por acaso ele precisa parar num Bar de beira de estrada. Este bar não é um lugar que ele normalmente pararia, escuro, letárgico, as pessoas que o freqüentam parecem vagabundos, viciados, bandidos. A atmosfera decadente chama a sua atenção, No bar não há mulheres com exceção de uma (Não sei seu nome), ela é mestiça de negra e indígena, tem o rosto assimétrico, a pele mal-tratada, veste-se vulgarmente, saia curta, peças transparentes, coxas grossas, traseiro abundante, o cabelo alisado, mas se comparada com as outras pessoas daquele lugar é linda. Ela parece acompanhada por um homem ruivo, com terno e gravata, mas o colarinho da camisa aberta e o terno meio encardido, uma barriga de chope, bigode e uma barbicha ruivas. Calvo, mas com cabelos ao redor da cabeça e parece que a muito tempo não os corta. Para o jovem, o homem é completamente repugnante, olhos fundos, suor, os movimentos pesados, parece completamente bêbado. O jovem repara nela, tenta distinguir se o ruivo realmente está com ela. Neste instante parece um absurdo que um homem tão ridículo e pequeno esteja ao lado de uma mulher violentamente maravilhosa. Ela é violenta. Ele sabe no fundo que a mulher é completamente vulgar, mas a acha sexy, um olhar seguro, que se impõe como se nada a ameaçasse, parece se sentir em casa, e não temer a violência do mundo. O jovem está cagando de medo do bar e das pessoas que o freqüentam, mas ao mesmo tempo é atraído pela atmosfera e pela presença perturbante da mulher. A mulher repara que ele olha para ela, ela olha fixamente, ele desvia o olhar, ela cochicha algo com o homem ruivo, ele sorri com ela e depois olha para o jovem, sem se importar com o fato de que o jovem percebe estar sendo observado. O jovem sabe que ela sabe que ele se sente atraído por ela. Quando ela olha para o jovem da forma como ela olhou, é como se ela dissesse para ele, algo que ele preferia não ter assumido para ele mesmo. O ruivo termina a dose que tomava, agarra a mulher pela cintura e passa por traz do jovem, o jovem sabe que está sendo provoca pelos dois. O casal deixa o bar, e ele sai em seguida. Volta para a estrada, sua vida continua

Outro dia, passando de novo pela estrada de madrugada, ele não resiste e pára de novo. Dessa vez, o ruivo está passado no balcão. A mulher está ali, como se nada tivesse acontecido. O jovem se senta em outro ponto do balcão de onde ele pode ver a mulher. Ele olha, o jovem não sabia se estava lá para arrefecer o seu desejo ou alimenta-lo. Nega-lo ou realiza-lo. Mas quando ela veio andando em sua direção, tudo que ele pode sentir foi um medo opressor e um desejo incontornável. Ela o pega pela mão e o leva para um quarto numa pensãozinha ao lado do bar. Ninguém no bar reage a atitude da mulher, o ruivo continua apagado no balcão. Só quando os dois já estão no quarto que ela fala com ele. Sentada na cama, ele de pé, começa a tirar a roupa e o informa que o programa é 12 reais. Só aí o jovem entendeu que ela era uma prostituta. Ele fica chocado e depois constrangido: porque ele não havia deduzido isso.

Ele mais uma vez fica constrangido, agora, ao pensar que ele desejava comer uma mulher que dava por 12 reais. Sentiu nojo, mas não dela, mas de si mesmo, por desejar uma mulher que certamente havia passado por homens asquerosos. Não sabia o que fazer. Ele já não queria mais ficar, mas tinha vergonha de sair, medo da reação dela. O jovem perguntou para ela do ruivo, ela explicou que sim, que eles eram um casal. Que eles moravam em outro quarto naquela pensão, que ele a sustentava e ela cuidava dele. O jovem perguntou por que, e ela respondeu que porque sim. Neste instante, mesmo ela custando 12 reais, o jovem voltou a se sentir atraída por ela. A mesma força, segurança, olhos incisivos, voz calma e sincera, nada afetada. Ela conseguia dar dignidade para a situação. Apesar dela cobrar 12 reais, ele percebeu que também ela se sentia atraída por ele.

O ruivo entra de repente no quarto, ela não reage, o jovem quase morre do coração. O ruivo entra, desaba na cama e começa a dormir. Assustado, o jovem sai correndo do quarto, absurdamente constrangido e jurando nunca mais voltar. Mas ele voltará. Ele está apaixonado pelas circunstâncias. Aquele mundo decadente e estranho é humano também, nem mais, nem menos.

2.10.07

Endoscopia

Quem sabe este blog ainda encontra o seu propósito, quem sabe ele segue em frente, até, finalmente, o dia em que as outras pessoas que dele fazem parte também tomem o exercício da escrita como seus. Se quando nos encontramos, o fazemos em bando, já muita coisa se perdeu, talvez tênue demais para ser encontrado. Aqui, sem pretensão, ou tão pouco quanto consigo, ofereço alguns pensa(senti)mentos, na esperança de que eles contenham um pouco de mim, e que nesse pouco, ponto cego do texto, alguém identifique, nos contornos borrados, nas cores esmaecidas, um amigo, ainda que a distância.

Aos meus amigos, queria oferecer longas descrições de memórias e sonhos. Gosto deles hoje ainda mais. Gosto de meditar sobre do que são feitos, imaginar uma mesma matéria translúcida que modelamos na mais recondida intimidade, tão profunda e primordial, que se mantém além do alcance de nossas consciências. Hannah Arentd poderia ter dito, que ali onde os sonhos e a memória são feitos, é que se encontra a última fortaleza da individualidade, fonte da verdadeira esperança contra toda forma de totalitarismo. Memórias e sonhos como nossos duplos, espectrais e fantasmagóricos, mas que diante de nós, ainda preservam a força da vida, a marca do instante que não se repete, o rastro do tempo.

Está lá ainda meu quarto de dormir, a luz amarelada de um fim de tarde, a escrivaninha de pinho, fácil de marcar com a ponta do lápis, o cheiro da roupa de cama, diferente em cada casa, a resistência perfumada do sabonete de glicerina. Objetos-sensações que forçam a continuidade entre fragmentos de vida, mais ou menos dispersos, indiferentes entre si, que chamamos de eu.

E todas as narrativas que nossa consciência ata e desata? Aí não há nada sólido como as sensações, nada certo como nos sonhos, daí nascem apenas confusão e ambiguidade. É o nosso jogo de montar peças que não se encaixam, nosso mal-hábito de deduzir o passado do presente, o presente do futuro, e este último do primeiro.

Viver só pode ser um mal-entendido.