16.12.10

Correio Elegante

hesito tanto em dizê
fico de lá para cá
quem será que é você?
que será que será?
e de cá para lá
acho que num vô


ou vô
sei lá
vô ou num vô?
sabe, tô só


e poesia di amô 
num é de brincá
num se diz por dizê
só por cantá


então tá
me deixa dizê


assim
sabe...


eu gosto docê
mas gosto 
com vontade 
di amá

6.11.10

Sonho 05/11 para 06/11 de 2010

Eu tento falar, mas na minha boca, um dente, no maxilar inferior, central, que aponta para o meu nariz, cresceu, está grande e torto, ele interrompe, atrapalha a minha lingua. Tento falar, mas a minha voz sai sibilante, os sons transversais, o ar escapa. A pessoa a minha frente, se fixa em minha boca, tenta entender o que quero dizer. Eu me esforço mais, minha língua passeia pelo dente monstruoso, toma consciencia dele, tenta contorná-lo, elevo a minha voz, meus grunidos se tornam mais grotescos, mais incompreensíveis.

Então eu forço o maxilar superior sobre o dente, pressiono-o, e num movimento único, arranco-o, ele rasga minha gengiva, num esguicho de sangue.

Termino o que tinha a dizer.

3.11.10

Xenofobia do paulista se superando

É... perdoem-me.
Terei que estragar a boniteza que está este blog, com um link dos mais lastimáveis que já vi nos últimos tempos! Sinceramente às vezes esqueço como as pessoas podem se superar...

http://www.youtube.com/watch?v=tCORsD-hx0w&feature=player_embedded#%21

27.10.10

Balanço de um ex-adolescente

Eu gosto de respostas. Gosto mesmo. Preciso delas para a coerência do enredo. Qualquer enredo, o meu principalmente. O enredo, ou discurso, é a estrutura dentro da qual precisamos encaixar as nossas experiências, escolhas, acasos, os momentos bons, os ruins. Tudo que marca, que sobrevive na memória, a gente preserva numa moldura narrativa: começou assim, depois continuou assado, e então foi por esse caminho até chegar aqui. E só então, e só depois, podemos sonhar, fazer projetos, planejar: o futuro.

O que dá liga aos enredos é o Sentido: com sua consistência de poeira, encobrindo todos os cantos da memória, cada unidade aleatória que a compõe, e atribuindo a elas um traço em comum, esse traço que as transformam em partes. Essas partes que juntas dão o todo. Esse todo que chamamos de Vida.

A poeira não nasce dos objetos que ela encobre, o Sentido também não. Não é uma enorme coincidência que tudo fique enpoierado, isso não revela a harmonia cósmica da existência. A poeira apenas indica uma coisa: a ausência de movimento. É por isso que acredito que Sentido tem consistência de poeira.

Quando nos movemos demais, a poeira levanta, o Sentido se vai. Foi assim, é assim.

Entao, eu paro, e espero. E olho.

É claro que nem sempre entendi o Sentido dessa maneira.
No início eu procurei o Sentido entre aquilo que me ofereciam. Experimentei alguns, mas não serviram.
Depois, acreditei que o Sentido fosse um segredo, a riddle, wrapped in a mystery, inside an enigma. Que era preciso descobrí-lo. Eventualmente, desisti.
Por fim, compreendi que se ele não existia, o Sentido deveria ser criado. Tiraria um da minha própria cartola.

12.10.10

Divagações sem pé: a vida contra a vida

Acho que não contei para vocês: meu irmão foi convidado para fazer o mestrado na USP pela orientadora de iniciação cientifica dele. Ela que está começando o pós-doc lá. A área: arte russa. Alguma coisa sobre as intersecções com a literatura russa. De fato o mestrado é na Letras e não no departamento de Arte.

Além de me deixar bastante orgulhoso. E me levar a pensar que finalmente algum dos filhos do Professor Rogerio concretizará seu sonho de iniciar uma linhagem de acadêmicos.

Além dessas duas coisas, tudo isso me levou a pensar num problema bem relevante para mim, apesar de quase incompreensível para quase todas as outras pessoas: como viver ao mesmo tempo uma vida prática e intelectual equilibradamente ativa?

A verdade que, espontaneamente, eu oscilo entre fases mais intelectuais e fases mais práticas. As vezes entre dias mais pra cá, e outros mais pra lá.

Isso não é em si uma dúvida existencial no sentido do "o que eu quero?" ou "quem eu sou?", mas no sentido de "como fazer funcionar?". As dúvidas de vocês, qual a natureza delas hoje? São do tipo "o que", "quem", ou mais, "como", ou na verdade, nenhuma, nem outra, mas outra completamente diferente?

O equilíbrio

(Tentar elaborar o que seria esse equilibrio é a minha maneira de refletir sobre o problema)

O que é a vida prática: para mim é o pensamento como instrumento coextensivo a ação. É o antebraço do agir. É quando o pensamento se dedica ao resultado e encontra a sua razão de ser no resultado. Quando eu fundamento a minha existência no resultado. Essas ações e resultados são públicos, se desenrolam na esfera dos objetos e objetivos comuns, eu tenho testemunhas, cúmplices, tenho adversários. Aí a importância dela, porque a minha personalidade pública - veja bem, minha, ainda que pública - só ganhou consistência - no sentido do cimento que é consistente, e não no sentido de coerência - quando passei a me dedicar as ações.

Concretamente: o trabalho - ou seja, o contexto social que ele implica, a consciência de nós mesmos que ele permite, as exigências que ele impõe, e talvez o mais importante para mim, a possibilidade de partilhar da vida de pessoas estranhas -, enfim, o trabalho me permitiu um outro acesso intelectual ao mundo, um novo chão sobre o qual pude construir a minha compreensão de mim mesmo e da minha vida.


Agora eu me pergunto: o que é vida intelectual? Intelectual não é uma boa palavra porque na verdade abarca a vida espiritual, todos as dimensões emocionais também. A vida intelectual é o lugar da contemplação infinita, mas não da contemplação do infinito. A poltrona cômoda que me transforma em observador de mim mesmo, acho que é só isso. E quando olho pro mundo como intelectual, olho para um mundo onde eu também estou dentro. E dessa poltrona eu consigo pensar os meus sentimentos, e sentir os meus pensamentos, e não há objetivos nem resultados, porque não há limites. Há estruturas mas estruturas que flutuam, surgem e depois desaparecem. Vida intelectual, hoje, para mim, é vida diletante, é o pensamento que se compromete apenas em pensar. Mesmo que depois a vida prática possa se apropriar de alguns desses pensamentos. E daí, nesse sentido obscuro que acabo de descrever, a vida acadêmica não é intelectual quando se empenha na construção de uma carreira de pesquisador ou professor. O que não quer dizer que um pesquisador ou professor não tenha vida intelectual - dessa maneira ridícula que eu coloco - mas é para distinguir que quando o pesquisar pesquisa o seu tema de pesquisa ele está na vida prática, é só que a vida prática dele se debruça sobre idéias, mas essas idéias não permitem esse transito que descrevi entre sentimentos e ideias, ideias e sentimentos. Essas ideias do pesquisador são apenas ideias, e ideias que porque servem a um objetivo bem concreto, um doutorado ou bolsa de estudos, não são livres, não podem ir para qualquer lugar que queiram. Essas ideias dos professores, de pesquisadores possuem caminhos que precisam percorrer, lugares a chegar, e um tempo cronometrado para isso.


Se por um lado, entrei na vida prática, desde o início, já com uma distância, própria do intelectual frio e apartado da realidade, distância que é impreescindível à qualquer olhar crítico, e ao mesmo tempo perigoso pela sua falta de engajamento. (A falta de engajamento é um perigo porque acho que para se tentar se aproximar da verdade precisamos, eu acho, da necessidade de alcançá-la, e me parece, essa necessidade da verdade - que nos obriga a abrir mão de argumentos fracos e cômodos - só nasce de um certo empenho subjetivo, íntimo em relação aquilo que estudamos). Ao mesmo tempo que entrei como um intelectual na vida prática, entrei na vida prática como forma de recusar a vida intelectual em si.

Quis muito recusar a vida intelectual no início, exatamente porque ela era essa distância entre mim e o mundo, e a realidade, e essa distancia, eu não a enxergava como opção, mas como covardia. Mas não era, na verdade, o problema da covardia, pensando bem. A formulação da covardia já é um sintoma da necessidade de negar a vida intelectual. Acho que o problema é que desde de que entrei na Economia, suponha a existencia de uma conexao visceral entre o mundo real e o das idéias. Quis, de verdade, fazer Economia para salvar o Brasil. Não era demagogia. E daí veio a arte e o cinema como essa outra maneira de conectar visceralmente o mundo real e o das idéias. Mas, estando lá, no sub-mundo do cinema amador, não encontrei essa conexão, encontrei apenas, a mesma cisão entre vida intelectual e vida prática. Essa cisão é algo que precisaria explicar melhor em algum momento.

Mas valor lá, continuo. O fato é que essa cisão me pareceu uma falta, obviamente, não do mundo que é objeto, neste sentido, mas da vida intelectual que não consegue chegar nele. De fato, mergulhei no sentimento de que a vida intelectual era uma falsa vida, porque com a pretensão de compreender a realidade a obliterava. Na verdade, o problema era simplesmente que a vida intelectual não dá conta da totalidade, não quer dizer que ela seja falsa.

Tentar recusar a vida intelectual, vejo agora, me permitiu um outro ponto de vista da própria vida intelectual. Olhei para eu mesmo de uma outra posição e percebi que os limites da vida intelectual não eram intransponíveis. E ao mesmo tempo, questionei a necessidade de sempre transpor todos os limites.

É engraçado, sou uma pessoa com fortes tendências obsessivas, e preciso sempre estar atento a esses impulsos, que obviamente, nunca consigo controlar completamente.

Então cheguei nesse lugar em que vida intelectual e vida prática não precisam se opor, mas precisam encontrar não apenas os seus lugares - o tempo é sempre um limite - mas também preciso encontrar os regimes de relação entre elas.

Por exemplo, agora quando escrevo, estou usando a minha vida prática como maneira de alimentar a minha vida intelectual. Mas ao mesmo tempo, acomodar a minha vida intelectual, abre espaço, torna mais comodo o encaixe da minha vida prática.


30.9.10

Entrevista com Adorno sobre a minha empreitada como empresário

Renato: Estou angustiado com a possibilidade do fracasso da minha futura empresa. O que eu posso fazer contra essa angústia?
Adorno: A angústia não deve ser reprimida. Deve-se saber conviver com a angústia, o estranho dentro de si mesmo. O sujeito que não precisa mais recalcar a angústia pode se tornar verdadeiramente autônomo, num sentido preciso: ele tampouco precisa de projeções e identificações tranquilizantes. Não precisa mais nem de heróis nem de chefes. Porque sabe de sua fragilidade primeira, tem força suficiente para resistir aos apelos totalitários das ilusões identificatórias e secundárias. Ele "não se deixa levar", ele "não vai junto", ele não se torna cúmplice.

Renato: Como o pensamento filosófico pode ajudar a minha empresa a prosperar?
Adorno: Contra a voracidade e o ativismo embrutecedores, o pensamento filosófico acolhe o objeto antes de querer subjugá-lo. Neste sentido, o pensamento é preciosamente passivo e mimético, paciente, porque espera sem impor. Tal paciência é a fonte secreta da resistência do pensamento à violência do existente; só dela, dessa paciência e dessa espera(dessa não-pressa) nascem a coragem e a aceitação do risco.
Pensar filoficamente é como que pensar por intermitências, ser perturbado por aquilo que o pensamento não é. A força do pensar é a força da resistência contra o previamente pensado.
Somente um pensar que saiba de sua passividade primeira, que tenha a virtude da paciência, um pensar que reconheça essa dimensão de sofrimento e de corporeidade até no próprio pensamento, somente este pensar paciente poderá também, sem falso orgulho, resistir ao existente e correr os riscos do desconhecido.

Renato: Muito obrigado Adorno pelos seus sábios conselhos. É realmente disso que preciso: suportar minha angústia do fracasso, tomar coragem e aceitar correr novos riscos.

Adorno: Não há de que, Renato! Saiba que estou sempre a disposição de sua brilhantíssima pessoa

(copiado/baseado na coletânea de artigos - "Lembrar escrever esquecer" - da Jeanne Marie Gagnebin sobre Adorno)

7.9.10

amor fati ou do lance de dados da vida

um oráculo de sócrates:
"tal como quando se lançam os dados, assim devemos endireitar as nossas próprias posições, de acordo com o que saiu (...) e, se nos baterem, não devemos fazer como as crianças que levam a mão ao local da pancada e perdem o tempo a gritar" (a república, 604d).

[nota de rodapé quase desnecessária: sei não se isso não se parece com a crítica de nietzsche ao ressentido. humm, nietzsche fechando com platão. será? ando no encalço dessa intuição controversa.]

From www.advivo.com.br

O 5 de Setembro da Folha

O Biscoito fino e a Massa

(faltou o link)

#DilmaFactsbyFolha: Crônica da Desmoralização de um Jornal

Escrito por Idelber

Muita gente costuma dizer que o século XVIII terminou em 1789, que o século XIX terminou em 1914 e que o século XX terminou em 1991 (ou em 11/09/2001, segundo como se veja a coisa). Claro que não são afirmações a serem tomadas literalmente. São alegorias do movimento real da história.

É neste sentido, alegórico, não literal, que poderíamos dizer que no dia 05 de setembro de 2010, o jornal Folha de São Paulo morreu no Twitter. Continuará existindo, claro, enquanto suas fontes de financiamento permitirem e enquanto existirem jornalistas dispostos, ou obrigados por necessidade, a se submeter àquilo. Mas ele morreu como veículo de comunicação ao qual se possa atribuir um mínimo farrapo de credibilidade.

O mote foi a assombrosamente mentirosa manchete de ontem, que não guardava qualquer relação com a verdade, ou sequer com a própria matéria: Consumidor pagou R$ 1 bi por falha de Dilma. Quem sabe ABC sobre política, concluiu na hora: a manchete não tinha nada a ver com informação. Era algo para Serra usar em seu programa. Como o jornal morreu, não tem sentido refutá-lo com fatos. Dilma já o fez com elegância: (ver vídeo com resposta da Dilma no blog O Biscoito fino e a Massa)

No meio da tarde de ontem, o Flávio Gomes, especialista em automobilismo, lançou esta, a partir de uma tuitada do @eduu27: Vamos criar o #DilmaFactsByFolha. "Dilma serviu o café de Ronaldo no dia da final da Copa de 1998" via @eduu27. Logo a Cynara Menezes, este atleticano blogueiro e outros tuiteiros começamos a elaborar possíveis manchetes para que a Folha servisse de bandeja ao programa eleitoral do Serra. Sucediam-se hilárias tuitadas como:

@flaviogomes69: Dilma a padre no Sul: "Enche os balõezinhos que dá". #DilmaFactsByFolha

@Lau_Roces A Al-Qaeda era só um grupo de árabes nerds fãs de RPG e aeromodelismo. Até conhecerem a Dilma. #DilmaFactsbyFolha

@alexcastrolll Antes de Dilma mergulhar no Mar Morto, ele não estava nem doente! #DilmaFactsByFolha (...)

(...) (ver texto completo no O Biscoito fino e a Massa)

(...) Para quem não conhece o Twitter: o caractere #, quando anteposto a qualquer palavra, a transforma numa "hashtag", ou seja, num link que te permite encontrar todas as outras mensagens com o mesmo assunto, desde que o internauta se lembre de incluir o # colado à palavra. Programas como oTweetdeck te permitem ler ao mesmo tempo, em três colunas, as atualizações daqueles a quem tu segues, as menções a ti mesmo por qualquer pessoa e todas as tuitadas que incluem uma determinada hashtag. Eu recomendo.

Em um par de horas, as tuitadas se sucediam numa velocidade frenética, que leitor nenhum conseguia ler na totalidade, com alusões a tudo, desde o Gênesis (Dilma criou intrigas entre Abel e Caim, por exemplo) até a Copa de 50 (Dilma levantou a saia e atrapalhou o goleiro Barbosa). Sem nenhuma coordenação, de forma espontânea e anárquica, sem qualquer orientação da campanha de Dilma ou participação de sua coordenação de internet, o #DilmafactsbyFolha ia subindo nos Trending Topics (a ferramenta que mede a popularidade de um determinado tema no Twitter) até chegar ao topo dos TT brasileiros e ao segundo lugar dos TTs mundiais. O importante site What the Trend repercutiu, com matéria em inglês. No começo da noite, eu já recebia emails de amigos norte-americanos e até o telefonema de um jornal dos EUA, perguntando: What's #DilmaFactsbyFolha?

Era a Folha de São Paulo internacionalmente humilhada no Twitter.

Evidentemente, a desonestidade da Folha permite que, na edição de segunda-feira, ela tenha ignorado dezenas ou centenas de milhares de tuitadas que correram o mundo virtual e foram comentadas em redações até aqui nos EUA, mas fizesse alusão a um tuíte de Roberto Jefferson. Tanta distração só pode ser culpa da Dilma.

PS: Se, depois desta, tu ainda não te animas a fazer uma conta no Twitter, eu não sei o que te dizer. Além de usar esta caixa para comentar o que queiras, façamos também duas coisas: selecionar alguns dos tuítes favoritos dos leitores do Biscoito (é só clicar na tag e ir descendo a página) e dirimir dúvidas para quem quer se juntar ao microblog e ainda não sabe como ele funciona. Se você ainda não me segue no Twitter, é só ir lá e clicar no "follow". Estou circulando notícias da campanha com certa regularidade por lá.

Atualização: Para a seleção de tuítes citada acima, contei com o auxílio luxuoso de Alex Castro. Valeu.

Nosso último encontro foi legal, não foi? Eu achei que foi.
Depois, dormi na casa do Luís, que não é mais casa, é apartamento, e que não é mais do Luís, mas dos pais dele.
Eu gosto da casa dos outros. De acordar no meio de uma intimidade que não é minha. Me incomoda menos o status de intruso, do que me agrada ver as pessoas menos escondidas.
Gosto de olhar para as coisas e para as pessoas não por seus valores aparentes, mas pelas relações que estabelecem entre si.
A casa dos pais do Luís é assim:
O quarto em que dormi, fica no final de um corredor, que termina em T, do lado direito, o "meu" quarto, em frente, outro. Ao sair do quarto, a um metro e meio de distância, vi a mãe, meio curvada meio agachada, ajeitando a colcha da cama de casal. Ela se levantou para me cumprimentar, e recebi um sorridente bom dia. Sorrisos ao acordar são gostosos, não são?
A sala está na base do T, antes dela, há ainda o quarto da avó do Luis, que durante o café, a pedido do neto, sentou-se a mesa para conversar um pouco.
A avó do Luis tem o rosto mais enrugado que já vi, olhinhos azuis redondos e brilhantes, e bochechas fofas cor de rosa. Um jeito de imaginá-la é pensar num bebê que envelheceu antes de crescer. Seu cabelo é curto, volumoso e liso, de um branco bem branco, mas um branco brilhante, quase metálico. Me lembrei, sempre me lembro, da história de que ainda na Russia, ela andava descalça na neve. Então imagino ela jovem, com seu rosto de bebê sendo castigado primeiro pelo frio russo e depois pelo calor campineiro, e sendo obrigado a se proteger, pouco a pouco se encolhendo em si mesmo, se enrugando, todos os dias, um pouco, até virar uma ameixa leitosa e rosada. Ela também sorri. O Luis sorri? Não sei, perto da avó, ele é quase cinza, de tão acostumado que estou com a sua cara.
O Luis é igual ao pai dele, só que menos barrigudo e com o cabelo mais comprido. O pai dele o chama de Luisão e guarda recortes de jornal para o filhão. É assim eu acho, pais são pais, sorriem menos, e inventam estratégias constrangedoras na tentativa de demonstrar carinho. Recortes de jornal, por exemplo, ou conselhos sobre o seu carro. Pais são assim meio indiretos. E talvez por isso, achamos serem mais difíceis de conquistar e nos esforçamos mais para agradar.





5.9.10

el tango!

O tango é um pensamento triste que se pode dançar.
Discépolo. Poeta, compositor, ator e autor de peças de teatro e de letras de tngo argentino.



vídeos da aula de tango pra vocês, camaradas:
NOCTURNO, HISTORIA DE LA NOCHE PORTEÑA / EL TANGO


País: Argentina
Duração:00:23:00
Diretor:Adrián Cossettini

Sinopse
DO EPISÓDIO: A história e o presente do tango, autêntica expressão artística argentina seja como dança, música ou poesia.

4.9.10

Decubra o tucano que existe em você


Meça a sua afinidade com as idéias de cada candidato a presidência
Compartilhe o seu resultado !!
Eu:
Dilma 52%
Plínio 45%
Ivan Pinheiro 35%
Marina 32%
José Serra 13%



22.8.10

O Mito Feminino segundo S.B.

"É por ela, através do que nela há de pior e de melhor, que o homem faz a aprendizagem da felicidade, do sofrimento, do vício, da virtude, do desejo, da renúncia, do devotamento, da tirania, que faz a aprendizagem de si mesmo; ela é o jogo e a aventura, mas também a provação; é o triunfo da vitória e, mais áspero, o do fracasso superado; é a vertigem da perda, o fascínio da danação, da morte"

"Do bem ao mal, ela encarna carnalmente todos os valores morais e seus contrários; é a substância da ação e o que se lhe opõe, o domínio do homem sobre o mundo e seu malogro; como tal, é a fonte de toda reflexão do homem sobre a própria existência e de toda expressão que possa dar-lhe; entretanto, ela se esforça por desviá-lo de si mesmo, por fazê-lo afundar no silêncio e na morte."

20.8.10

Saudades de todos

Simone de novo

Citação:
"Nunca se pode separar o aspecto imanente(eu: do que está em nós) do aspecto transcendente(eu: do que está fora de nós) da experiência viva: o que receio ou desejo é sempre um avatar de minha própria existência, mas nada me acontece senão através do que não é eu.

Porque eu leio o segundo sexo

Estou na pagina 266 de 935 do livro.
(Até aqui).Ele é feminista(me disseram), mas não fala sobre o feminismo.
Ele fala sobre o machismo(me disseram). Fala sim. Mas não diretamente.
Fala sobre o machismo porque ele fala sobre as relações entre os sexos(gêneros?).

Fico imaginando que ela quis escrever o Capital dela.
Não sobre a relação capital-trabalho, mas sobre a relação homem-mulher.
Qual é a mais importante? Não me importa.
Mas qual é a mais onipresente?

Por isso precisava de uma Capital dela.
Porque está em toda parte o tempo todo, mas e aí, que relação é essa?
Se essa relação é machista, então é sobre isso que ela fala.

Mas ela não fala assim:
O Machismo é assim....
O Machismo é assado....
Ele vem cozido....
Ele vem fritado....

Ela acumula e descreve, um exemplo histórico, outro literário,
um filme, um quadro, um filósofo, um político.
E então ela olha para esse exemplo, que é um acontecimento, uma instituição social,
de repente, uma obra de arte, e diz:
Olha bem aqui, olha como o mulher é vista aqui, como o homem se vê ali.
E então...
Olha lá, como o homem é visto aqui, como a mulher se vê ali.

E em meio a relatos escabrosos, interpretações longas e sinuosas, às vezes, vagas,
ela esboça alguma coisa como as origens dos meus sentimentos, as associações do meu cérebro.
Ela vai atrás dos meus desejos, dos meus sonhos,
Eu os reconheço, são eles, estão dentro de mim. E então ela me explica que eles não são puros,
que na verdade nem são meus, são de todos os homens,
E que nascem de um lugar feio, sujo, não, não é isso, isso é a minha opinião.
Ela só diz isso: é cruel.
Crú. Não é podre(eu acho que é), mas não é, é cru.Ponto.

Ela monta sempre o mesmo jogo: ele olha, é olhado. ela olha, é olhada.
O que ele vê? O que ele sente?
O que ela vê? O que ela sente?

E ela, a Simone, que é mulher, me diz: ele sente isso. E eu, eu sinto, sinto sim. É cru.

Por isso é que eu tô lendo.
Porque no final, não importa o feminismo, nem o machismo.
Já que ter consciência de si, não é ser melhor, nem poder mudar.
Mas é olhar e ver o que não se via.

E daí eu me pergunto:
O que ela diz é verdade?
Uma verdade que nínguem vê.
Mas essa verdade dita já há algum tempo,
não mudou nada.
Não houve revolução francesa, nem russa,
Não houve nada.
935 paginas quietinhas, estáticas, na estante.

Daí eu respondo:
É, é verdade o que ela diz, mas cadê a esperança?
Pra que serve a verdade, quando não há esperança?
Esperança de que a mudança é possível?

E então eu concluo:
Em quantos outros lugares, isso não acontece?
Esse racha entre a verdade e esperança?
Aì em vocês, aqui, no que eu faço, no que ela acredita?