20.8.10

Porque eu leio o segundo sexo

Estou na pagina 266 de 935 do livro.
(Até aqui).Ele é feminista(me disseram), mas não fala sobre o feminismo.
Ele fala sobre o machismo(me disseram). Fala sim. Mas não diretamente.
Fala sobre o machismo porque ele fala sobre as relações entre os sexos(gêneros?).

Fico imaginando que ela quis escrever o Capital dela.
Não sobre a relação capital-trabalho, mas sobre a relação homem-mulher.
Qual é a mais importante? Não me importa.
Mas qual é a mais onipresente?

Por isso precisava de uma Capital dela.
Porque está em toda parte o tempo todo, mas e aí, que relação é essa?
Se essa relação é machista, então é sobre isso que ela fala.

Mas ela não fala assim:
O Machismo é assim....
O Machismo é assado....
Ele vem cozido....
Ele vem fritado....

Ela acumula e descreve, um exemplo histórico, outro literário,
um filme, um quadro, um filósofo, um político.
E então ela olha para esse exemplo, que é um acontecimento, uma instituição social,
de repente, uma obra de arte, e diz:
Olha bem aqui, olha como o mulher é vista aqui, como o homem se vê ali.
E então...
Olha lá, como o homem é visto aqui, como a mulher se vê ali.

E em meio a relatos escabrosos, interpretações longas e sinuosas, às vezes, vagas,
ela esboça alguma coisa como as origens dos meus sentimentos, as associações do meu cérebro.
Ela vai atrás dos meus desejos, dos meus sonhos,
Eu os reconheço, são eles, estão dentro de mim. E então ela me explica que eles não são puros,
que na verdade nem são meus, são de todos os homens,
E que nascem de um lugar feio, sujo, não, não é isso, isso é a minha opinião.
Ela só diz isso: é cruel.
Crú. Não é podre(eu acho que é), mas não é, é cru.Ponto.

Ela monta sempre o mesmo jogo: ele olha, é olhado. ela olha, é olhada.
O que ele vê? O que ele sente?
O que ela vê? O que ela sente?

E ela, a Simone, que é mulher, me diz: ele sente isso. E eu, eu sinto, sinto sim. É cru.

Por isso é que eu tô lendo.
Porque no final, não importa o feminismo, nem o machismo.
Já que ter consciência de si, não é ser melhor, nem poder mudar.
Mas é olhar e ver o que não se via.

E daí eu me pergunto:
O que ela diz é verdade?
Uma verdade que nínguem vê.
Mas essa verdade dita já há algum tempo,
não mudou nada.
Não houve revolução francesa, nem russa,
Não houve nada.
935 paginas quietinhas, estáticas, na estante.

Daí eu respondo:
É, é verdade o que ela diz, mas cadê a esperança?
Pra que serve a verdade, quando não há esperança?
Esperança de que a mudança é possível?

E então eu concluo:
Em quantos outros lugares, isso não acontece?
Esse racha entre a verdade e esperança?
Aì em vocês, aqui, no que eu faço, no que ela acredita?

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