8.9.07

sexo no divã

apoiando-me no ímpeto categorizador analisante que todos compartilhamos, peço licença para esquadrinhar um pouquinho o sexo. com base em vasta experiência – não exatamente própria, mas as alheias –, observei que existem duas modalidades: o sexo-cena-de-filme-pornô e o sexo-ternura.

o sexo-ternura é a objetivação de algum forte laço afetivo, é uma forma linda do sentimento de gostar se materializar, quase dando-se ao alcance das mãos que, curiosas, insinuam-se como exploração do corpo do outro como um todo, seus cheiros, gostos, texturas e memórias. nessa modalidade, o gozo não está no horizonte das exigências e o que ganha importância é a presença não de um outro imaginado, mas do Ser Amado. o sexo como uma sincronia de movimentos delicados de corpos que se gostam – mesma substância da dança – nos lembra da experiência da ternura, insistentemente soterrada pelas asperezas da vida, porque tocar outro ser humano não é atitude usual do cotidiano e, por isso, vamos perdendo a prática, esquecendo-a como possibilidade de diálogo mudo entre almas.

o sexo-cena-de-filme-pornô tem como meta primordialíssima exatamente o gozo e, sendo alimentado pelo tesão, possui um alto teor imaginativo (é a este sexo que um personagem do caio f. abreu se refere quando diz acidamente que “Sexo é na cabeça: você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá gozo, não com uma pessoa real, entendeu? Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é sozinho, boy”. não é todo sexo que é sozinho assim, que é imaginação assim, para afirmar isso parece que o caio não provou da outra modalidade, que é todo o contrário disso). essa prática sexual tem sua inspiração nos filmes pornôs, compartilhando com eles duas de suas características: suas cenas tem um ritmo repetitivo e recortam o corpo, ou seja, o corpo é significado por alguma parte dele somente. minha explicação para a semelhança entre esse tipo de sexo e os filmes pornôs é que boa parte dos homens, heteros e homos, foram criados em sua adolescência com esse material educativo, o que vejo como problemático porque acaba por ditar os padrões do que é desejável, do que é prazeroso e mesmo do que é sexo e do que não é. aí a imaginação sexual fica presa nesses trilhos e os homens buscam reproduzir em suas transas aquelas cenas gravadas na memória, porque isso é o que pode ser chamado “sexo”, daí aquele gosto pela vulgaridade que se identifica tão facilmente nas narrativas masculinas (talvez extrapolando, a fantasia sexual dos homens é habitada pelo fantasma competitivo dos atores pornôs masculinos, modelos das “medidas” e das “performances”). alguém aí poderia tentar me convencer do contrário, mas considero os filmes pornôs um universo simbólico redutor das experiências possíveis de homens e mulheres. acredito que o sexo-cena-de-filme-pornô assim definido possa ser cultivado na prática, com esforço de libertação do peso simbólico das imagens adoslescentes – ou não tão adolescentes assim –, simplesmente como sexo-gozo e aí não entro em juízos de valor (a única diferença do sexo-gozo em relação ao sexo-cena-de-filme-pornô é que as fantasias sexuais não são pré-formatadas pela ditadura dos padrões pornográficos).

então agora diante do sexo-gozo e do sexo-ternura, tenho uma tentação de dizer que prefiro um ao outro, mas bom mesmo é quando um vem seguido do outro, qualquer dos dois sozinhos é frustante – mas talvez o grau de frustração pela ausência de cada um seja diferente entre eles, dependendo do momento ou da pessoa. hierarquizá-los seria algo mais ou menos assim como dizer prefiro cinema a bolo de chocolate, sabe, parecem atender a necessidades diferentes: o sexo-cena-de-filme-pornô está lá junto com o comer (penso menos em brócolis do que em chocolate) e dormir enquanto o sexo-ternura se aproxima melhor de nossa carência de ler poesia e assistir a unas películas. talvez só sejam mesmo duas formas – complementares? – de compartilhar do corpo do outro, porque a única coisa que têm em comum é que ambos exigem o nu – e entra o nu de novo na história.

queria muito muito saber a opinião de vocês sobre esse assunto mais ou menos delicado, podem e devem bater em minha visão talvez um tanto inexperiente.

Um comentário:

luciana disse...

na idéia dos contrapontos proposta pelo renato, indico um conto que encontrei totalmente sem querer, agora mesmo, de um desses jovens escritores, vejam em http://soaressilva.wunderblogs.com/archives/023159.html