30.12.07
Eu me vingo...
Sou aquele menino de cabelos cacheados sentado ali no canto, ao lado da pilastra de madeira. Sou jovem e suficientemente belo. Conheço algumas moças que me desposariam. Em casa, em frente ao fogo da lareira, dispo-me, e me ponho a admirar os meus músculos- movo o meu corpo- sou como um felino. Durante o verão trabalho nos vinhedos. No inverno, procuro uma ou outra ocupação. Estou sentado agora ali no canto da taberna. Estou bêbado e eletrizado pelas palavras que ecoam por sobre as mesas. Alguém me chama para a batalha, e meu corpo se contorce, estou em pleno gozo. Sou aquele jovem de cabelos castanhos e cachos firmes, sentado no canto, ao fundo, e estou exultante. Dentro de poucos meses eu serei bala, pistola, serei avião de bombardeio; eu serei o asfalto sobre o qual passará o tanque, eu ultrapassarei a trincheira ou então serei o seu adubo. Sou aquele rapaz, logo ali, magnífico, glorioso.
Quando caminho na direção contrária de você,
sou estúpida trágica alegria.23.12.07
Indelicadeza(publicar o que não é meu, mas eu gosto, então, e daí!?)
Vício
By Luis Junqueira
Foi num trago entorpecente
Destes do final da tarde
Onde as gotas do escuro
Escorregam do extremo
Se misturam e entranham
No amargo gosto da vida
Lá, parados um instante
Contemplando uma pequena
Morte, ele, um amigo
Mais velho de dores fortes
No ego, inspira profundo
Espera, segura e solta
A vista é névoa
O vício é vida
(pausa) se é vida
cheira tempestade
espreita tragédia
é unha cravada no chão
é vida então
as rugas no espelho
a corda no peito
o laço na mão.
Feliz Natal
Nestes momentos de terror supremamente silenciosos não sei o que sou materialmente, o que costumo fazer, o que me é usual querer, sentir e pensar. Sinto-me perdido de mim mesmo, fora do meu alcance. A ânsia moral de lutar, o esforço intelectual para sistematizar e compreender, a irrequieta aspiração artística a produzir uma coisa que ora não compreendo, mas que me lembro de compreender, e a que chamo beleza, tudo isso se me some do instinto do real, tudo isso se me afigura nem digno de ser pensado inútil, vazio e longínquo. Sinto-me apenas um vácuo, uma ilusão de uma alma, um lugar de um ser, uma escuridão de consciência onde estranho inseto procurasse em vão sequer a cálida lembrança de uma luz
9.12.07
o eliot que eu gosto
Já começou a brotar? Dará flores este ano?"
(T. S. Eliot, Terra Desolada, I. O enterro dos mortos)
literatura como imagem, símbolo, tradutora das várias tentativas de ser. e um gosto especial por essas imagens de contrários que se tocam, de pólos que se transmutam em seus opostos e carregam de ambigüidade todos os símbolos.
6.12.07
Lógica
Sabe, começa a me preocupar o fato de que talvez não seja verdade que a medida que envelhecemos, nos tornamos mais sábios. Alguém poderia objetar-me, dizendo que isso é óbvio. Mas, outro responderia que exatamente por ser óbvia a falsidade dos mitos, esquecemos que não acreditamos mais neles, e continuamos agindo como se eles falassem a verdade. (recuperando a lição da Beatriz Sarlo).
Pois bem, sempre esqueço que não acredito mais que a idade me ensinará a viver melhor. Quer dizer, contra as dúvidas de hoje sobre o que realmente quero, envelhecer é encontrar as certezas que me faltam. E depois, envelhecer mais um pouco para aprender como alcançar aquilo que a idade me mostrou querer. A falha de hoje, então, é sempre uma lição necessária, não um pedágio, mas o próprio cascalho que pavimenta o caminho àquilo que quero. Me esqueço que não acredito nisso.
Mas, agora, tenho uma decisão difícil a tomar. E se ela for a errada, não terei aprendido um pouco mais sobre tomar decisões difíceis. Não existirá compensação pelo preço que pagarei. Os erros que cometo, não servirão para serem trocados por acertos futuros. Erro, se acumula. Como as cinzas no fundo daquele lago. E se você aprendeu alguma coisa com o seu, desconfie. Um erro é bem capaz de te ensinar a acreditar numa certeza absurda e nociva.
Bem, se errar não serve pra nada, ainda bem que esquecemos. O Santiago lembrava de tudo. Esquecer é não aprender, e, de fato, os velhos, que supostamente mais teriam aprendido na vida, são os que menos se lembram de qualquer coisa. De fato, meu pai ainda fala abobrinha, talvez fale mais ainda hoje do que a dez anos atrás, mas sei lá, não me lembro mais.
Então, viver não tem nada a ver com descobrir o que se quer, e construir o caminho até lá. Mas daí, já não entendo mais nada, digo, sobre mim mesmo. Segunda-feira dessa semana, chorei muito, e um dos motivos, foi exatamente por, com 26 anos no ano que vem, não estar construindo o meu caminho. (Existe a crise dos 26?). Bem, mas se não há caminho a ser construído, por que não somos capazes de aprender nada com a vida, então, não devo deixar me incomodar o fato de estar desempregado e vivendo com os meus pais.
Que alívio! o incomparável conforto dos raciocínios niilistas... única coisa, que esse aí não foi niilista, foi pura sensatez, para não dizer, um senso comum. Nunca será uma proposição filosófica dizer que a vida na Terra não se organiza em torno dos desejos de cada indivíduo. Se dissesse o contrário, aí sim teríamos uma polêmica.
Enfim, teria logrado evitar futuras crises de choro da minha parte, não fosse a constatação óbvia que falta: essa conclusão é estapafúrdia, inaceitável, completamente estúpida! Sejam quais forem os meus argumentos, não posso aceitar, e não aceito, não ver como um problema os meus 26 anos desempregados e vivendo com meus pais. Donde, a única conclusão que resta, é que realmente, definitavemente, não há o que se aprender com a vida. (o que confirma as minhas premissas, ao negar a conclusão que elas permitem chegar)
2.12.07
Paisagem
Uma descrição ingênua, talvez infantil: a brisa fresca que sopra, a sombra extensa de uma paineira que sempre esteve ali, o perfume cítrico de certas folhas que lambuzam os nossos dedos quando as esmagamos, todas as tonalidades de verde; um córrego, caminho de pedras polidas, de água gelada e cristalina; com prazer, megulhamos nossos pés descalços na terra escura e lodosa das margens. E tudo isso foi, de fato em fato. Não me culpe, me culpe. Repito a mim mesmo não se tratar de tristeza. Quero ver a vida se estender dourada, com horizontes purpúreos, mãos dadas por aléias floridas, sempre tomadas por novos odores, que se evanescem antes de os identificarmos. Tenho-me num formigamento d’alma, de quem compreende. Dor não percorre o meu corpo convulsionante, não vejo abismo, nada me esmaga, apenas o chão, quietinho, se desfaz, os metais enferrujam, corrói-se, tudo se desprende sem alarde e, de cinzas em cinzas, se acumula nas profundezas lodosas do lago. Ele se decompõem, lentamente, alastrando as suas margens podres, lentamente, incorporando a vida ao redor, não como um câncer, não com violência; com descaso, sem intenção, como curso inevitável.