19.9.07

Por que a verdade existe mas a realidade não...

“O questionamento do que é costumeiro é a condição de um conhecimento dos objetos mais próximos, que ignoramos justamente porque permanecem ocultos pela familiaridade que os encobre. Isso vale também para o passado.” Beatriz Sarlo

E não há nada mais costumeiro e, portanto, nada mais oculto pela familiaridade que nós mesmo. A completa ignorância a respeito de si é condição inata ao ser humano, o êxito em remediá-la, em contrapartida, depende sempre da disposição de cada um.

Diante de mim, na tentativa de me conhecer, não há um espelho pelo qual posso enxergar o meu reflexo. Não há imagem independente da minha vontade que se forma e se oferece à escrutinação. Diante de mim, há apenas textos a serem escritos, textos que só podem ser lidos a medida em que são escritos. É através dessa ação de escritura-leitura, que exercito a consciência de mim. Leio, o que em seguida se incorpora a mim, o que em seguida retorna aos grotões ocultos da familiaridade, tendo no entanto, em sua breve passagem, transformado, não a uma imagem, mas a mim mesmo.

Mas esse escrever é criar ou descobrir? Quando escrevo crio a mim mesmo? Ou revelo aquilo se ocultava? Criar é o ato cujo conseqüência simultânea é a descoberta.

Mas a leitura não é sempre interpretação? E toda interpretação não está sempre apartada da verdade? O texto que leio não é sempre a expressão imperfeita da mente de seu autor? E a própria leitura, não é sempre uma tentativa igualmente imperfeita de inferência? Sim. E é por isso que apenas em relação aos meus próprios textos, posso ter a pretensão de alcançar a verdade. Sendo apenas nesse caso que, a imperfeição da escrita somada a imperfeição da leitura, nos aproxima, ao invés de nos distanciar, da verdade.

A verdade também não é uma imagem, apreendê-la não é identificá-la. Não sei se a verdade pode ser descrita. Um som, por exemplo, só pode ser descrito em palavras corrompendo sua qualidade essencial e, consequentemente, apresentando como sua descrição a sua negação muda. Não sei se a verdade é algo que se vê, que se bebe, ou que se escuta? É algo que existe porque se manifesta, porque age e reage. Talvez apenas as nossas ações possam ser verdadeiras, e o simples ato de refletir sobre elas, produza o inverso da verdade.

O passado é como a verdade e o som. Ele vive apenas na ação, portanto no presente, apenas no instante em que é acionado pela memória. E a memória é uma modalidade da ação escritura-leitura, que cria, descobre, projeta e interpreta, não a verdade, mas os acontecimentos que ocorreram.

O problema é que o texto que a minha memória escreve tem a pretensão de se referir a uma realidade exterior, quer ser uma paráfrase do mundo e de minha presença nele. Se acredito no sucesso da minha mediação a mim mesmo, duvido da acuridade de minha mediação do mundo, pois não posso afirmar a homologia deste com a minha mente. Assim, a soma das imperfeições da escrita e da leitura, no caso da memória, ao invés de me aproximar, me distancia da realidade.

Estou, então, sempre tendendo a deixar a realidade escapar. Talvez nunca a tenha encontrado. Não sei quão próximo ou quão distante me encontro dela. Nada posso afirmar. Deve existir a pessoa que ao olhar para o passado, encontre a realidade. Talvez essa pessoa seja eu. Mas isso não importa, já que nada me permite saber que o que leio não é uma paráfrase distorcida do mundo.

16.9.07

determinismo lingüístico?

os limites da sua linguagem denotam os limites do seu mundo”, essa é uma idéia que carrego comigo desde o colegial, não me lembro mais de como chegou até mim, mas recordo bem que teve o efeito de uma revelação. a frase é do Wittgenstein, um filósofo austríaco que muitos pós-modernos gostam de citar, não conheço nada sobre ele além de que discutia filosofia da linguagem e epistemologia, ou seja, nada mesmo (logo, a forma como eu absorvi essa frase pode não ter absolutamente nenhuma relação com o que o autor queria dizer, é sempre o problema das frases descontextualizadas, mas de fato me interessa pouco o que ele queria dizer, quero comentar o que a frase me faz pensar).

essa frase me diz sobre o poder das palavras em moldar nossa percepção do mundo. sabem, olho para mim e percebo que estou sempre lutando contra as palavras, esticando-as na direção em que preciso que elas me legitimem ou encurtando-as para que não expressem mais do que o conveniente. aqui mesmo no blog, já distendi o “nu”, aparei as “classes sociais”, extingui o “amor” e até retalhei o “sexo” (não é consciente não, dei-me conta agora). não é preciosismo, é que as palavras são nossos anteolhos, iluminam somente até os limites do que designam, cegando-nos para o que não significam. se você não tem a palavra – que carrega um conceito – “capitalismo” no seu vocabulário, ele não existe para você, por mais que exista uma realidade aí cujo fim único seja a acumulação. tanto é assim que desafio alguém a encontrar essa palavrinha em qualquer meio de comunicação de massa. se as palavras fossem inofensivas, não haveria uma disputa em torno do vocabulário que pode ser usado, porque as palavras permitidas – e suas definições – já definem o que pode ser pensado.

8.9.07

sexo no divã

apoiando-me no ímpeto categorizador analisante que todos compartilhamos, peço licença para esquadrinhar um pouquinho o sexo. com base em vasta experiência – não exatamente própria, mas as alheias –, observei que existem duas modalidades: o sexo-cena-de-filme-pornô e o sexo-ternura.

o sexo-ternura é a objetivação de algum forte laço afetivo, é uma forma linda do sentimento de gostar se materializar, quase dando-se ao alcance das mãos que, curiosas, insinuam-se como exploração do corpo do outro como um todo, seus cheiros, gostos, texturas e memórias. nessa modalidade, o gozo não está no horizonte das exigências e o que ganha importância é a presença não de um outro imaginado, mas do Ser Amado. o sexo como uma sincronia de movimentos delicados de corpos que se gostam – mesma substância da dança – nos lembra da experiência da ternura, insistentemente soterrada pelas asperezas da vida, porque tocar outro ser humano não é atitude usual do cotidiano e, por isso, vamos perdendo a prática, esquecendo-a como possibilidade de diálogo mudo entre almas.

o sexo-cena-de-filme-pornô tem como meta primordialíssima exatamente o gozo e, sendo alimentado pelo tesão, possui um alto teor imaginativo (é a este sexo que um personagem do caio f. abreu se refere quando diz acidamente que “Sexo é na cabeça: você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá gozo, não com uma pessoa real, entendeu? Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é sozinho, boy”. não é todo sexo que é sozinho assim, que é imaginação assim, para afirmar isso parece que o caio não provou da outra modalidade, que é todo o contrário disso). essa prática sexual tem sua inspiração nos filmes pornôs, compartilhando com eles duas de suas características: suas cenas tem um ritmo repetitivo e recortam o corpo, ou seja, o corpo é significado por alguma parte dele somente. minha explicação para a semelhança entre esse tipo de sexo e os filmes pornôs é que boa parte dos homens, heteros e homos, foram criados em sua adolescência com esse material educativo, o que vejo como problemático porque acaba por ditar os padrões do que é desejável, do que é prazeroso e mesmo do que é sexo e do que não é. aí a imaginação sexual fica presa nesses trilhos e os homens buscam reproduzir em suas transas aquelas cenas gravadas na memória, porque isso é o que pode ser chamado “sexo”, daí aquele gosto pela vulgaridade que se identifica tão facilmente nas narrativas masculinas (talvez extrapolando, a fantasia sexual dos homens é habitada pelo fantasma competitivo dos atores pornôs masculinos, modelos das “medidas” e das “performances”). alguém aí poderia tentar me convencer do contrário, mas considero os filmes pornôs um universo simbólico redutor das experiências possíveis de homens e mulheres. acredito que o sexo-cena-de-filme-pornô assim definido possa ser cultivado na prática, com esforço de libertação do peso simbólico das imagens adoslescentes – ou não tão adolescentes assim –, simplesmente como sexo-gozo e aí não entro em juízos de valor (a única diferença do sexo-gozo em relação ao sexo-cena-de-filme-pornô é que as fantasias sexuais não são pré-formatadas pela ditadura dos padrões pornográficos).

então agora diante do sexo-gozo e do sexo-ternura, tenho uma tentação de dizer que prefiro um ao outro, mas bom mesmo é quando um vem seguido do outro, qualquer dos dois sozinhos é frustante – mas talvez o grau de frustração pela ausência de cada um seja diferente entre eles, dependendo do momento ou da pessoa. hierarquizá-los seria algo mais ou menos assim como dizer prefiro cinema a bolo de chocolate, sabe, parecem atender a necessidades diferentes: o sexo-cena-de-filme-pornô está lá junto com o comer (penso menos em brócolis do que em chocolate) e dormir enquanto o sexo-ternura se aproxima melhor de nossa carência de ler poesia e assistir a unas películas. talvez só sejam mesmo duas formas – complementares? – de compartilhar do corpo do outro, porque a única coisa que têm em comum é que ambos exigem o nu – e entra o nu de novo na história.

queria muito muito saber a opinião de vocês sobre esse assunto mais ou menos delicado, podem e devem bater em minha visão talvez um tanto inexperiente.

7.9.07

Post-it

Tem horas que as coisas me escapam, perco "essa calma que inventei, bem sei" (Elis). Embrenha-se delicamente a fissura abaixo de mim, na minha cabeça e no meu peito. Olho-me e vejo pontos desconexos entre o passado, o presente e o futuro. Sou uma figura que algum deus brinca de traçar, ligando às vezes os pontos pelo avesso. Pergunto-me sobre o que sou e me vem um enigma. Este, por incrível que pareça, nunca é escuro, sempre claro, colorido e retilíneo: um cubo mágico. Sento no chão, cruzo as pernas e passei a tarde inteira ontem olhando-o. Sempre me escapo. Todos os qualitativos que pregramos nas pessoas são fugazes, apoios que soltam como um post-it amarelo no calor do vento abafado. Tem gente que não sobra nada, era só adjetivo. Mas lutamos tanto por estes papeizinhos!
Obs.: se os nudistas deste blog assim quiserem, este é o meu conceito de ficar nu.

5.9.07

entre coisas e nomes, um universo

um dos grandes lemas de auto salvamento do bruno diante de nossa desconfortável condição de acadêmicos-em-formação-assustados-com-uma-academia-bem-menor-do-que-nossos-sonhos-desesperados-na-busca-por-caminhos-de-adaptação-e-sobreviência-emocionais é que mesmo nas pequenas coisas contempladas pelos limites de uma dissertação de mestrado é possível cruzar com as grandes questões (dê em post futuro uma versão mais elaborada de sua teoria, se quiser). então queria contar para vocês qual é a descomunal questão epistemológica quase filosófica com que me deparo ao estudar meu pequeno-grande tema sobre classes sociais, porque esse é um assunto que encontro na raiz de tantos mal-e-meio-entendidos em tantas discussões nas ciências sociais e nas mesas de bar.

minha principal conclusão ao estudar as teorias sobre classes sociais é que o problema de fundo quando se busca uma definição das relações de classe é que a realidade é constituída de duas dimensões: uma objetiva, que independe das percepções e do conhecimento dos agentes; e outra construída, que abarca as representações dos agentes sobre o mundo social. a dificuldade que essa dupla constituição da realidade social cria para uma teoria vem do fato de que essas duas dimensões não são coincidentes, não se correspondem imediatamente, porque entre as coisas e seus nomes há um grande espaço para manipulações e interpretações.
daí a debilidade de qualquer teoria de classes que se mantenha na apreensão da dimensão objetiva das relações de classe, definindo critérios capazes de especificar quem está fora e quem está dentro de determinada classe. não é possível falar das fronteiras entre quaisquer grupos sociais sem considerar como essas fronteiras são simbolicamente construídas na sociedade. não basta dizer como é o mundo aí, porque esse mundo aí só tem valor explicativo em função de como é elaborado pela percepção dos agentes que participam dele.
e quando digo percepção dos agentes é preciso incluir a influência das próprias teorias, que se apresentam como autorizadas a dizer o que é o mundo social. nesse sentido, é possível dizer que o marxismo – sua interpretação sobre a sociedade capitalista – contribuiu para criar o proletariado. claro que as percepções e conhecimentos não podem ser completas alucinações, mas devem estar referidas em alguma medida à dimensão objetiva, que, no entanto, é um limite bastante amplo para a elaboração lingüística e semântica.

quem acha que tá confuso?

1.9.07

outra imagem e uma descoberta

falando em imagens - agora uma bem mais banal - e em corpos nus, lembram que eu dizia que era uma cabeça gigante pregada a um corpinho? pois é, descobri que não sou não, nem nunca fui. meu corpo é do tamanho do meu coração, imenso, e se expande em todas as direções só para embrulhar o outro na minha ternura. tudo esteve sempre ali, mas só agora enxerguei claramente que o amor, para mim, não é feito de palavras, nem de acertos, nem de atenção, é feito de tato. “eu te amo” não vai muito além de um conjunto de sons cantados por quase todas as músicas, mas é no toque que encontro e comunico o sem fundo do que sinto pelo outro. o amor está na ponta dos dedos que vasculham milímetro a milímetro as fissuras e reentrâncias do corpo alheio, sondando o vibrar da alma e deixando rastros na forma de desenhos imaginários. na ausência do carinho, nenhuma palavra é capaz de ser ponte e então o outro torna-se, de repente, o estranho-distante-frio.
vejo muitas vezes as pessoas se debatendo e se esforçando por decifrar mentalmente qual o tamanho do seu amor pelo outro, se ele é real. perguntas do tipo “será que é amor o que eu sinto?” nunca fizeram muito sentido para mim, o que a gente sente, a gente sente e não cabe em tipologias mentais nem em esquadrinhamentos conceituais. o meu amor é do tamanho do meu impulso de te abraçar te amassar te tocar! aliás, eu até defenderia a abolição da palavra amor, por excesso de uso já se gastou.
fantástico, é a primeira coisa que descubro em mim de que realmente gosto. e não é nada óbvio, pois eu sempre comprei a imagem que vendo de mim por aí, cabeça gigante pregada a um corpinho...
como eu alcancei essa descoberta? bem, aí é segredo.
nem tinha a intenção de falar assim tão descuidadamente sobre o amor, queria mesmo era anunciar minha descoberta, mas já que desemboquei aqui, acho que todo mundo tem algo a dizer sobre o amor – seja já vivido, ainda vivente, mal amado, atropelado, amarrotado, perdido –, queria escutar. alguém pode contar como vocês expressam o amor? as linguagens do amor devem ser tão variadas como nossas psiques.