“O questionamento do que é costumeiro é a condição de um conhecimento dos objetos mais próximos, que ignoramos justamente porque permanecem ocultos pela familiaridade que os encobre. Isso vale também para o passado.” Beatriz Sarlo
E não há nada mais costumeiro e, portanto, nada mais oculto pela familiaridade que nós mesmo. A completa ignorância a respeito de si é condição inata ao ser humano, o êxito em remediá-la, em contrapartida, depende sempre da disposição de cada um.
Diante de mim, na tentativa de me conhecer, não há um espelho pelo qual posso enxergar o meu reflexo. Não há imagem independente da minha vontade que se forma e se oferece à escrutinação. Diante de mim, há apenas textos a serem escritos, textos que só podem ser lidos a medida em que são escritos. É através dessa ação de escritura-leitura, que exercito a consciência de mim. Leio, o que em seguida se incorpora a mim, o que em seguida retorna aos grotões ocultos da familiaridade, tendo no entanto, em sua breve passagem, transformado, não a uma imagem, mas a mim mesmo.
Mas esse escrever é criar ou descobrir? Quando escrevo crio a mim mesmo? Ou revelo aquilo se ocultava? Criar é o ato cujo conseqüência simultânea é a descoberta.
Mas a leitura não é sempre interpretação? E toda interpretação não está sempre apartada da verdade? O texto que leio não é sempre a expressão imperfeita da mente de seu autor? E a própria leitura, não é sempre uma tentativa igualmente imperfeita de inferência? Sim. E é por isso que apenas em relação aos meus próprios textos, posso ter a pretensão de alcançar a verdade. Sendo apenas nesse caso que, a imperfeição da escrita somada a imperfeição da leitura, nos aproxima, ao invés de nos distanciar, da verdade.
A verdade também não é uma imagem, apreendê-la não é identificá-la. Não sei se a verdade pode ser descrita. Um som, por exemplo, só pode ser descrito em palavras corrompendo sua qualidade essencial e, consequentemente, apresentando como sua descrição a sua negação muda. Não sei se a verdade é algo que se vê, que se bebe, ou que se escuta? É algo que existe porque se manifesta, porque age e reage. Talvez apenas as nossas ações possam ser verdadeiras, e o simples ato de refletir sobre elas, produza o inverso da verdade.
O passado é como a verdade e o som. Ele vive apenas na ação, portanto no presente, apenas no instante em que é acionado pela memória. E a memória é uma modalidade da ação escritura-leitura, que cria, descobre, projeta e interpreta, não a verdade, mas os acontecimentos que ocorreram.
O problema é que o texto que a minha memória escreve tem a pretensão de se referir a uma realidade exterior, quer ser uma paráfrase do mundo e de minha presença nele. Se acredito no sucesso da minha mediação a mim mesmo, duvido da acuridade de minha mediação do mundo, pois não posso afirmar a homologia deste com a minha mente. Assim, a soma das imperfeições da escrita e da leitura, no caso da memória, ao invés de me aproximar, me distancia da realidade.
Estou, então, sempre tendendo a deixar a realidade escapar. Talvez nunca a tenha encontrado. Não sei quão próximo ou quão distante me encontro dela. Nada posso afirmar. Deve existir a pessoa que ao olhar para o passado, encontre a realidade. Talvez essa pessoa seja eu. Mas isso não importa, já que nada me permite saber que o que leio não é uma paráfrase distorcida do mundo.