21.3.09

vocabulário

SERENDIPITY
capacidade de fazer grandes descobertas por acaso

Sérendipité
habilité à faire des découvertes de valeurs fortuitement

25.2.09

nostalgia

Eu passei um tempo agora relendo um monte de coisa do site, da gente. E gostei, gostei assim, simplesmente gostei.

E acho que a gente sim tem uma certa vocação para entrar em discussões que não chegam a lugar algum, e o lugar algum é tão gostoso de encontrar em vocês.

E essa vida horrorosa que impera parece que atropela nosso ambiente criado. E aí a gente não discute, não discorda, só aceita internamente o cotidiano do outro e é chato assim. Cadê nosso intelecto funcionando? Sabe lá.

Precisamos de projetos conjuntos pra nos entender.

12.8.08

Liberdade

Ser tão assustador e delicado quanto os instantes que antecedem a tempestade.
Ser ira sem ódio, a violência invisível. Livre fluxo impiedoso, silenciosamente, desmembrando seres, curvando árvores, turvando rios. Onda invisível carregando tudo. Colapso anônimo da realidade. Força incessante, sem fim, nem meio. Pura.

Eu acordei no meio da noite. Eu vi só a tempestadade se formando. Eu quis que ela não acabasse, contra o céu purpura, tive o rosto tocado. Eu quis tombar. Eu quis ser levado sem dor. Simples. Desaparecer. Sem túmulo, sem terra por cima, sem lembrança, sem fim.

10.8.08

Há alguns anos atrás, aprendi a gostar de música erudita. Aprender, não no sentido negativo da educação formal, não no sentido de me forçar a me adequar a um padrão socialmente imposto. Aprendi, no único sentido que eu gostaria que existisse: o de sermos tocados por uma nova experiência(intelectual, física, emocional, que seja!), e permitir que ela nos transforme.
Ou seja, ir além do conhecimento do objeto, além desse contato racional, que não apreende sem julgar. E que julga, cotejando o novo àqueles nossos caros, e lentamente lapidados(em alguns casos), pressupostos.
Digo ir além, não abandonar o conhecimento do objeto, mas ir além dele, e permitir a plena manifestação do novo, permitir que o novo, sem julgar, reilumine os nossos antigos pressupostos. Digo reiluminar e não julgar, porque o julgamento, como o entendo, leva a uma decisão do tipo preservar o bom, descartar o mau. Enquanto a reiluminação tudo abarca e resignifica. O aprendizado como transformação, para mim é isso: as mesmas coisas, mas completamente diferentes. No aprendizado não há abandono de velhos paradigmas, não há superação, mas sempre resignificação, ou melhor, sobre-significação. Porque não é como refazer, em que desmanchamos o antigo para dar forma ao novo, mas sobre-fazer, mantemos o antigo, do qual nasce o novo. Uma experiência nova não no sentido de inédita, de nunca experimentada antes. A música erudita não é nova, nem foi a primeira vez que tive a oportunidade de escutá-la. Mas, eu escutar música erudita naquele momento, foi uma experiência nova, para mim.

Bom, mas eu dizia, que há alguns anos atrás, aprendi a gostar de música erudita. Mas não gostava de canto lírico. Diferente da música instrumental, o canto não reverberava nas minhas entranhas, não expandia meu universo de sensações.

Duas semanas atrás, eu havia chegado ao limite entre a angústia e o desespero (supondo que a angústia preceda o desespero). Tinha-me pesado e exausto, esgotado todas as fugas que a realidade me permite. Mudo e anestesiado. Com aquela sensação de grito contido. Me sentia assim, quando encontrei a Paixão Segundo São Mateus(do Bach). Sempre gostei dela, e senti a necessidade de escutá-la. Sem intenção de prestar atenção, coloquei pra tocar, enquanto organizava os CDs aqui de casa. Aos poucos, fui deixando os CDs de lado. Fui me entregando a música. Cada vez mais, a medida em que sentia o peso do mundo se dissolvendo dentro de mim, lentamente, derretendo sob o calor pacífico da melodia. Até que, com a entrada de uma ária, que não sei qual é, uma voz masculina e aveludada desliza para dentro, e, de uma vez, despeja pra fora todo o meu sofrimento. Começo a chorar, convulsivamente, choro toda a beleza do mundo, toda a distância que me separa dela. Choro os meus sofrimentos, a idéia da morte e a espera por ela.

31.7.08

Ursos e mordomos(mordomos tem acento?)

Talvez a coisa mais incrível, seja como a humanidade, cada um de nós, cada um entre os bilhões de nós que infestamos esse planeta, guarda em si a tragédia de todos os outros. Como a paisagem sentimental sob a qual se desenrola o drama de cada um, contém todas as cores e tonalidades para se compreender qualquer, absolutamente qualquer, experiência humana, desde o ódio mais opaco ao júbilo mais sublime. Somos todos diferentes, sentimos igualzinho. Mesmo assim nos desentendemos, somos insensíveis com os dramas dos outros, alguns não se reconhecem nesta vida, outros negam que existir desta ou daquela maneira seja viver realmente. Talvez porque, apesar da tragédia que nos uni, não aceitemos os dramas sem protagonistas. Nem nenhum outro protagonista que não seja nós mesmos. Isso é claro que não é novo,(para quem se importa que as coisas ditas sejam novas), mas como disse André Gide: "Todas as coisas já foram ditas; mas, como ninguém escuta [especialmente aquele que escreve*], força é recomeçar sempre."
*comentário meu

Outro dia conversando com a Marcela, ela apontou para a minha necessidade de sempre contar e recontar a minha vida como se ela fosse uma história independente de mim. E é claro que é verdade, e até já havia parado para pensar nisso, só que nunca tinha escutado isso de outra pessoa, da boca, da mente de outro pessoa, num tom de voz, e com um sentido distinto do meu, porque fora da história que eu conto pros outros pra poder contar para mim mesmo. O ser mais amado de todos, o amigo mais amigo de todos, será sempre um coadjuvante na nossa história?
Já estou mudando de assunto.

Na verdade, eu queria falar um pouco sobre o Homem-Urso. Eu amo esse filme, como amo Santiago, porque foram dois filmes em que o cineasta reconheceu o drama do outro como igualzinho ao seu, por mais bizarro que fosse o outro, por mais diferente que fosse o outro. Porque eu pude reconhecer a paisagem sentimental dessas pessoas. O amor, o amor imenso, descontrolado, solitário e trágico que aquele americano maluco sentia pelos ursos e por aquele lugar, esse amor que se confundia com a sua autoestima, com a visão que ele tinha de si mesmo. Isso é para mim tão, tão, tão presente. Essa entrega desperada ao mundo selvagem que, em última instância, você sabe não irá corresponder a sua dedicação, ao seu amor, isso é muito - para mim - a vida. A confusão que marca tudo que ele faz, a indefinição de sua personalidade, a busca incessante não é simplesmente a de se encontrar, como talvez digam os psicólogos e psicanalistas, mas de se encontrar no outro, e encontrar o outro em si mesmo. Mas o outro não é só gente, talvez até melhor que não seja gente. Talvez essa cara do Urso seja de Peixes(o signo), e talvez por isso, eu me identifique tanto com ele.

E Santiago é sobre isso também: a busca de si no outro, impossível, de fim improvável, do cineasta em relação ao seu filme; do mordômo em relação....em relação a que mesmo? É tão abstrato aquilo que ele busca, tão abstrato quanto Ursos. Entende? O que uma pessoa encontra em Ursos? Ou em filmes? Ou em dinheiro? Ou em família? Ou em sucesso? É tudo tão abstrato e incompreensível.

E tem aquela cara do Escafandro e a Borboleta. Que cara é esse? Puta merda, que cara é esse? Escrever um livro, e depois ele morre. Se poesia não é a vida depurada, então não sei mais de nada.(Obs. o filme é menos poético do que a história que ele conta)

A Marcela disse assim, ser feliz é riscar do seu vocabulário as palavras "crise existencial". E foram mais ou menos esses os termos que ela usou. Grifo em “vocabulário”. E é sim, é claro que é um problema lingüístico. Na verdade, o que vivemos hoje é uma grande crise lingüística, crise profunda. E isso não é uma tiração de sarro, por favor, não é! Não é, não é! É qualquer coisa menos isso, porque eu acredito. E acredito cada vez menos nas palavras, e preciso cada vez mais delas. E isso também no fundo, todos nós sabemos, mas quem é que quer – de verdade – parar de proteger os Ursos? Eu não.

7.5.08

Que silêncio vazio é esse?(do nosso blog)

Existe o silêncio e o vazio dos filmes do Sergio Leone. Como em Era uma vez no Oeste, carregados de antecipação, contagem regressiva para algum acontecimento espetacular, essa preparação dos sentidos que ao mesmo tempo nos desarma, para poder em seguida nos pegar de surpresa.

Existe o silêncio e o vazio dos filmes do Tarkovsky, ruído quase insuportável, representação definitiva do tempo como densidade viva, como força da natureza que a tudo carrega e apodrece, a todos diminui e iguá-la. do tempo como medida da insignificância da vida.

Existe o silêncio e o vazio do Kurosawa, lugar de interrupção do próprio tempo, de intervalo para a existência da imagem bruta, parênteses entre idéias, em que a imagem tenta revelar ao espectador sua materialidade, sua artificialidade, porque apenas assim - como a textura das tintas nos quadros de Van Gogh - é que ela pode transmitir a vida da obra. Veja bem, que para Kurosawa, assim como para Van Gogh, não se trata de convencer-nos de que a obra transmite, alcança, toca a vida, mas apenas de mostrar que na própria obra há, de fato, vida - a vida do artista que a produziu. A vida na forma de matéria trabalhada por um ente vivo.

Existe o silêncio e o vazio dos filmes do Bergman.....