10.8.08

Há alguns anos atrás, aprendi a gostar de música erudita. Aprender, não no sentido negativo da educação formal, não no sentido de me forçar a me adequar a um padrão socialmente imposto. Aprendi, no único sentido que eu gostaria que existisse: o de sermos tocados por uma nova experiência(intelectual, física, emocional, que seja!), e permitir que ela nos transforme.
Ou seja, ir além do conhecimento do objeto, além desse contato racional, que não apreende sem julgar. E que julga, cotejando o novo àqueles nossos caros, e lentamente lapidados(em alguns casos), pressupostos.
Digo ir além, não abandonar o conhecimento do objeto, mas ir além dele, e permitir a plena manifestação do novo, permitir que o novo, sem julgar, reilumine os nossos antigos pressupostos. Digo reiluminar e não julgar, porque o julgamento, como o entendo, leva a uma decisão do tipo preservar o bom, descartar o mau. Enquanto a reiluminação tudo abarca e resignifica. O aprendizado como transformação, para mim é isso: as mesmas coisas, mas completamente diferentes. No aprendizado não há abandono de velhos paradigmas, não há superação, mas sempre resignificação, ou melhor, sobre-significação. Porque não é como refazer, em que desmanchamos o antigo para dar forma ao novo, mas sobre-fazer, mantemos o antigo, do qual nasce o novo. Uma experiência nova não no sentido de inédita, de nunca experimentada antes. A música erudita não é nova, nem foi a primeira vez que tive a oportunidade de escutá-la. Mas, eu escutar música erudita naquele momento, foi uma experiência nova, para mim.

Bom, mas eu dizia, que há alguns anos atrás, aprendi a gostar de música erudita. Mas não gostava de canto lírico. Diferente da música instrumental, o canto não reverberava nas minhas entranhas, não expandia meu universo de sensações.

Duas semanas atrás, eu havia chegado ao limite entre a angústia e o desespero (supondo que a angústia preceda o desespero). Tinha-me pesado e exausto, esgotado todas as fugas que a realidade me permite. Mudo e anestesiado. Com aquela sensação de grito contido. Me sentia assim, quando encontrei a Paixão Segundo São Mateus(do Bach). Sempre gostei dela, e senti a necessidade de escutá-la. Sem intenção de prestar atenção, coloquei pra tocar, enquanto organizava os CDs aqui de casa. Aos poucos, fui deixando os CDs de lado. Fui me entregando a música. Cada vez mais, a medida em que sentia o peso do mundo se dissolvendo dentro de mim, lentamente, derretendo sob o calor pacífico da melodia. Até que, com a entrada de uma ária, que não sei qual é, uma voz masculina e aveludada desliza para dentro, e, de uma vez, despeja pra fora todo o meu sofrimento. Começo a chorar, convulsivamente, choro toda a beleza do mundo, toda a distância que me separa dela. Choro os meus sofrimentos, a idéia da morte e a espera por ela.

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