21.1.08

da vida, pela última vez

e a vida vai seguindo em sua arbitrariedade calculada
e a gente ainda tendo ilusões com planos & caminhos & alvos
a vida acontece é nos interstícios e segundos planos
enquanto a superfície acumula seus sucessos e fracassos
a alma vai se enchendo de pessoas e de memória
ou de vazio

6.1.08

o Eliot disse, copiando a sabedoria veterotestamentária do Eclesiastes:

In my beginning is my end. In succession
Houses rise and fall, crumble, are extended,
Are removed, destroyed, restored, or in their place
Is an open field, or a factory, or a by-pass.
Old stone to new building, old timber to new fires,
Old fires to ashes, and ashes to the earth
Which is already flesh, fur and faeces,
Bone of man and beast, cornstalk and leaf.
Houses live and die: there is a time for building
And a time for living and for generation
And a time for the wind to break the loosened pane
And to shake the wainscot where the field-mouse trots
And to shake the tattered arras woven with a silent motto.


e Eu digo:

que essa noite não acaba nunca. e os dias já não penetram mais no quarto impregnado pelos odores fétidos das esperanças em putrefação. é perplexidade que se tem diante desses trilhos impossíveis, que se retorcem em mil voltas para não levar a lugar algum, ou dos elevadores que, em sonhos, só se movem em trajetórias horizontais. o mundo parou e não é mais humano o que o espelho reflete. poucos conhecem o sentimento do insuportável, e quem não conhece não pode julgar. há um limite para o acúmulo de desgraças que se consegue suportar, oito meses foi o meu. já a loucura se insinua e a morte, que é questão de tempo, até a idéia criar pernas e mãos e reduzir a pó essas desmesuras de personagem trágico.

2.1.08

trechinho de que gostei tanto

So here I am, in the middle way, having had twenty years—
Twenty years largely wasted, the years of l'entre deux guerres
Trying to use words, and every attempt
Is a wholly new start, and a different kind of failure
Because one has only learnt to get the better of words
For the thing one no longer has to say, or the way in which
One is no longer disposed to say it. And so each venture
Is a new beginning, a raid on the inarticulate
With shabby equipment always deteriorating
In the general mess of imprecision of feeling,
Undisciplined squads of emotion. And what there is to conquer
By strength and submission, has already been discovered
Once or twice, or several times, by men whom one cannot hope
To emulate—but there is no competition—
There is only the fight to recover what has been lost
And found and lost again and again: and now, under conditions
That seem unpropitious. But perhaps neither gain nor loss.
For us, there is only the trying. The rest is not our business.
(Eliot, em East Coker)

comentário tardio da Descoberta

O narrador é onisciente e o personagem é um fracassado. Também não chora com facilidade. E pensa mais do que devia.

Do outro lado o pai. Parece ser o primeiro e mais importante elemento desencadeador da emoção. O velho que nunca fora tão interessante em vida agora, morrendo, desperta um o quê tardio, que de alguma forma sei lá qual, aponta para o destino do filho. A mãe é vazia, nem o acidente trouxe qualquer estalo, tanto no personagem, quanto no narrador, que é o guia aqui.

A referencia óbvia é o machado de assis, mas tem três coisas que me lembram do camus, mais especificamente do estrangeiro. Uma é a baixa oscilação emotiva dos atos. A outra é o momento em que ocorreu a grande decisão , no calor excessivo das picadas de pernilongo. E três, a solidão.

A narrativa é toda tradicional, como se o livro tivesse sido escrito no século retrasado, ou pelo menos antes de guimarães.

Minha parte favorita é a da situação opressora de reconsiderar seus sonhos. É o peso que a liberdade coloca nas costas justamente por não se ter entraves para ir em frente. Só não sei se isso é trágico ou não.