27.10.10

Balanço de um ex-adolescente

Eu gosto de respostas. Gosto mesmo. Preciso delas para a coerência do enredo. Qualquer enredo, o meu principalmente. O enredo, ou discurso, é a estrutura dentro da qual precisamos encaixar as nossas experiências, escolhas, acasos, os momentos bons, os ruins. Tudo que marca, que sobrevive na memória, a gente preserva numa moldura narrativa: começou assim, depois continuou assado, e então foi por esse caminho até chegar aqui. E só então, e só depois, podemos sonhar, fazer projetos, planejar: o futuro.

O que dá liga aos enredos é o Sentido: com sua consistência de poeira, encobrindo todos os cantos da memória, cada unidade aleatória que a compõe, e atribuindo a elas um traço em comum, esse traço que as transformam em partes. Essas partes que juntas dão o todo. Esse todo que chamamos de Vida.

A poeira não nasce dos objetos que ela encobre, o Sentido também não. Não é uma enorme coincidência que tudo fique enpoierado, isso não revela a harmonia cósmica da existência. A poeira apenas indica uma coisa: a ausência de movimento. É por isso que acredito que Sentido tem consistência de poeira.

Quando nos movemos demais, a poeira levanta, o Sentido se vai. Foi assim, é assim.

Entao, eu paro, e espero. E olho.

É claro que nem sempre entendi o Sentido dessa maneira.
No início eu procurei o Sentido entre aquilo que me ofereciam. Experimentei alguns, mas não serviram.
Depois, acreditei que o Sentido fosse um segredo, a riddle, wrapped in a mystery, inside an enigma. Que era preciso descobrí-lo. Eventualmente, desisti.
Por fim, compreendi que se ele não existia, o Sentido deveria ser criado. Tiraria um da minha própria cartola.

12.10.10

Divagações sem pé: a vida contra a vida

Acho que não contei para vocês: meu irmão foi convidado para fazer o mestrado na USP pela orientadora de iniciação cientifica dele. Ela que está começando o pós-doc lá. A área: arte russa. Alguma coisa sobre as intersecções com a literatura russa. De fato o mestrado é na Letras e não no departamento de Arte.

Além de me deixar bastante orgulhoso. E me levar a pensar que finalmente algum dos filhos do Professor Rogerio concretizará seu sonho de iniciar uma linhagem de acadêmicos.

Além dessas duas coisas, tudo isso me levou a pensar num problema bem relevante para mim, apesar de quase incompreensível para quase todas as outras pessoas: como viver ao mesmo tempo uma vida prática e intelectual equilibradamente ativa?

A verdade que, espontaneamente, eu oscilo entre fases mais intelectuais e fases mais práticas. As vezes entre dias mais pra cá, e outros mais pra lá.

Isso não é em si uma dúvida existencial no sentido do "o que eu quero?" ou "quem eu sou?", mas no sentido de "como fazer funcionar?". As dúvidas de vocês, qual a natureza delas hoje? São do tipo "o que", "quem", ou mais, "como", ou na verdade, nenhuma, nem outra, mas outra completamente diferente?

O equilíbrio

(Tentar elaborar o que seria esse equilibrio é a minha maneira de refletir sobre o problema)

O que é a vida prática: para mim é o pensamento como instrumento coextensivo a ação. É o antebraço do agir. É quando o pensamento se dedica ao resultado e encontra a sua razão de ser no resultado. Quando eu fundamento a minha existência no resultado. Essas ações e resultados são públicos, se desenrolam na esfera dos objetos e objetivos comuns, eu tenho testemunhas, cúmplices, tenho adversários. Aí a importância dela, porque a minha personalidade pública - veja bem, minha, ainda que pública - só ganhou consistência - no sentido do cimento que é consistente, e não no sentido de coerência - quando passei a me dedicar as ações.

Concretamente: o trabalho - ou seja, o contexto social que ele implica, a consciência de nós mesmos que ele permite, as exigências que ele impõe, e talvez o mais importante para mim, a possibilidade de partilhar da vida de pessoas estranhas -, enfim, o trabalho me permitiu um outro acesso intelectual ao mundo, um novo chão sobre o qual pude construir a minha compreensão de mim mesmo e da minha vida.


Agora eu me pergunto: o que é vida intelectual? Intelectual não é uma boa palavra porque na verdade abarca a vida espiritual, todos as dimensões emocionais também. A vida intelectual é o lugar da contemplação infinita, mas não da contemplação do infinito. A poltrona cômoda que me transforma em observador de mim mesmo, acho que é só isso. E quando olho pro mundo como intelectual, olho para um mundo onde eu também estou dentro. E dessa poltrona eu consigo pensar os meus sentimentos, e sentir os meus pensamentos, e não há objetivos nem resultados, porque não há limites. Há estruturas mas estruturas que flutuam, surgem e depois desaparecem. Vida intelectual, hoje, para mim, é vida diletante, é o pensamento que se compromete apenas em pensar. Mesmo que depois a vida prática possa se apropriar de alguns desses pensamentos. E daí, nesse sentido obscuro que acabo de descrever, a vida acadêmica não é intelectual quando se empenha na construção de uma carreira de pesquisador ou professor. O que não quer dizer que um pesquisador ou professor não tenha vida intelectual - dessa maneira ridícula que eu coloco - mas é para distinguir que quando o pesquisar pesquisa o seu tema de pesquisa ele está na vida prática, é só que a vida prática dele se debruça sobre idéias, mas essas idéias não permitem esse transito que descrevi entre sentimentos e ideias, ideias e sentimentos. Essas ideias do pesquisador são apenas ideias, e ideias que porque servem a um objetivo bem concreto, um doutorado ou bolsa de estudos, não são livres, não podem ir para qualquer lugar que queiram. Essas ideias dos professores, de pesquisadores possuem caminhos que precisam percorrer, lugares a chegar, e um tempo cronometrado para isso.


Se por um lado, entrei na vida prática, desde o início, já com uma distância, própria do intelectual frio e apartado da realidade, distância que é impreescindível à qualquer olhar crítico, e ao mesmo tempo perigoso pela sua falta de engajamento. (A falta de engajamento é um perigo porque acho que para se tentar se aproximar da verdade precisamos, eu acho, da necessidade de alcançá-la, e me parece, essa necessidade da verdade - que nos obriga a abrir mão de argumentos fracos e cômodos - só nasce de um certo empenho subjetivo, íntimo em relação aquilo que estudamos). Ao mesmo tempo que entrei como um intelectual na vida prática, entrei na vida prática como forma de recusar a vida intelectual em si.

Quis muito recusar a vida intelectual no início, exatamente porque ela era essa distância entre mim e o mundo, e a realidade, e essa distancia, eu não a enxergava como opção, mas como covardia. Mas não era, na verdade, o problema da covardia, pensando bem. A formulação da covardia já é um sintoma da necessidade de negar a vida intelectual. Acho que o problema é que desde de que entrei na Economia, suponha a existencia de uma conexao visceral entre o mundo real e o das idéias. Quis, de verdade, fazer Economia para salvar o Brasil. Não era demagogia. E daí veio a arte e o cinema como essa outra maneira de conectar visceralmente o mundo real e o das idéias. Mas, estando lá, no sub-mundo do cinema amador, não encontrei essa conexão, encontrei apenas, a mesma cisão entre vida intelectual e vida prática. Essa cisão é algo que precisaria explicar melhor em algum momento.

Mas valor lá, continuo. O fato é que essa cisão me pareceu uma falta, obviamente, não do mundo que é objeto, neste sentido, mas da vida intelectual que não consegue chegar nele. De fato, mergulhei no sentimento de que a vida intelectual era uma falsa vida, porque com a pretensão de compreender a realidade a obliterava. Na verdade, o problema era simplesmente que a vida intelectual não dá conta da totalidade, não quer dizer que ela seja falsa.

Tentar recusar a vida intelectual, vejo agora, me permitiu um outro ponto de vista da própria vida intelectual. Olhei para eu mesmo de uma outra posição e percebi que os limites da vida intelectual não eram intransponíveis. E ao mesmo tempo, questionei a necessidade de sempre transpor todos os limites.

É engraçado, sou uma pessoa com fortes tendências obsessivas, e preciso sempre estar atento a esses impulsos, que obviamente, nunca consigo controlar completamente.

Então cheguei nesse lugar em que vida intelectual e vida prática não precisam se opor, mas precisam encontrar não apenas os seus lugares - o tempo é sempre um limite - mas também preciso encontrar os regimes de relação entre elas.

Por exemplo, agora quando escrevo, estou usando a minha vida prática como maneira de alimentar a minha vida intelectual. Mas ao mesmo tempo, acomodar a minha vida intelectual, abre espaço, torna mais comodo o encaixe da minha vida prática.