Eu queria ser uma ilha. Mas são as ilhas mais do as esperanças de um navegante solitário? E mesmo quando escrevo coisas que só eu entendo, elas perturbam as outras. Um texto, meu deus do céu, é só um texto. Quem é que acredita em qualquer um deles? A tentativa de escrever é a tentativa de se aproximar de algum ser inapreensível. Então falamos de como a luz se derrama sobre ele, sobre a nitidez das sombras, notamos o leve deformação do ar ao seu redor, seu reflexo incerto sobre as superfícies que o circundam. As vezes, falamos dele, até ele desaparecer. Quem é estúpido a ponto de descrever uma música ou um poema? Quando a experiência em si reside naquelas porções indizíveis, que poderiam muito bem serem confundidas com a nossa imaginação, projeções de nós mesmos, não fosse o estranhamento que nos arrebatando, nos assegura de nossa insignificância e impotência. Pois que beleza é impotência, mutismo diante do absoluto. E no instante em que falo dela, nada, além do nada em que mergulho os meus sentidos. Branco.
31.10.07
25.10.07
Duas imagens interiores
Eu não posso mudar nada completamente, nada de uma só vez. Quando queremos que a vida empoce, ela nos arrasta como enxurrada. Quando queremos que ela se transforme, nos vemos restritos ao curso do mesmo rio. O tempo que passa um segundo de cada vez não existe. Cada unidade temporal e sua multiplicação, o que é que representam quando olhados de perto, para nós mesmos? O que representam os segundos que nos atravessaram, a cada um de nós, um segundo pode valer mais que um ano, ser igual a três dias, quase uma década.
Mas não falava do tempo, falava da mudança. E falava também da comunicação. Nos textos que venho escrevendo neste blog, já abandonei toda a pretensão de me fazer compreender. Já não conto, nem hipoteticamente, com a atenção cuidadosa de quem me lê. Como posso? Quando eu mesmo não me dedico a leitura dos textos de vocês com o carinho que deveria. Os textos que escrevo aqui terminam sendo trechos interrompidos de sensações-pensamentos de um nódulo interior qualquer.(Nossos pensamentos não são como pequenos tumores que dificultam a passagem de certos flúidos vitais?). Densidade demente que me apartar do outro e me insula do mundo.
Assumi o pressuposto de que não importa quem ou como me leêm, seguirei escrevendo. Um autista assumido então? É, parece que sim. Não minto, isso me assusta. Não era para eu ser autista, mas se o mundo não é como quero que ele seja, que eu contrua o meu? Um mundo em que ocupo o centro do sistema é melhor do que um em que não fui esquecido, porque nunca descobriram que eu existia. Esse segundo, em que ocupamos a periferia esquecida, é o mundo real. É? Ou é mais um mundo interior, só que mais assustador? A questão não é qual é o mundo real, e sim, que importa o mundo real? Minhas paranóias e disfunções devem ser contidas, viver sobre essas bases me aleija, porque deixo de acreditar que as minhas pernas me sustentam.
Levei a minha analista a distinção entre problemas psíquicos e problemas filosóficos. Ela, pessoalmente, não entende o que são problemas filosóficos, o que por si, mostra as limitações dela. Mas as limitações delas não importam, porque quando ela disse que não entendia o que são problemas filosóficos, ao invés, de começar a discutir com ela, e tentar convencê-la de que eles existem, e o que são, eu simplesmente questionei a distinção que eu, pessoalmente, faço entre esses dois tipos de problemas. E fui obrigado a reconhecer que no passado recente havia incluído na categoria filosóficos, problemas psíquicos que eu simplesmente não tinha coragem, nem vontade de enfrentar. Precisamos de análise porque não podemos confiar nos nossos pensamentos. É isso que na verdade eu penso hoje. Não é porque pensamos, que sabemos como pensamos. Não conhecemos o nosso próprio pensamento(como processo), apenas os seus resultados.
Mudança(e a impossibilidade da mudança), leva a comunicação, que leva ao blog, que leva ao autismo(negação da comunicação), que leva a análise, que leva ao meu pensamento(e a minha ignorância sobre ele). Só não entendi a relação entre mudança e comunicação. Porque é que construí essa passagem? Porque são as duas pontas que quero aproximar eu acho, porque o que quero mudar é o meu autismo, quero poder me comunicar. Mas eu já desisti e me decepcionei tanto com isso.
Minha analista insiste num conceito de normalidade ao qual eu deveria me enquadrar. Não, não a repudiei por causa disso. Me perguntei não o que essa idéia continha de errado, porque isso eu chegaria facilmente. Me perguntei o que essa idéia podia conter de verdadeiro, de correto. E de fato ela continha. E de fato eu precisava me normalizar. Sei lá o que é normalidade, mas isso não me impede de me normalizar. Porque, do ponto de vista da minha psíque, não importa o verdadeiro conceito de normalidade, não importa porque, quando eu penso em me normalizar, isso possui um sentido para mim. E o meu sentido de normalização é o de fazer as pazes com o mundo e com a vida. Será que foi isso que a minha analista quis me dizer? Provavelmente não, mas isso não importa, enquanto eu puder me servir de suas palavras para a extração de certos tumores malignos. Mas se o autismo é para mim um problema. (se lembram de quantas vezes vocês falaram comigo e eu não escutei, e estava preocupado apenas com o que eu tinha a dizer, essa é uma das forma do meu autismo). Mas se o autismo é para mim um problema, não é a minha maneira de ver e de fazer a análise, portanto a minha maneira de lidar com o autismo, também uma forma autista? Eu não estou simplesmente ignorando a minha analista, usando ela para refletir sozinho sobre o meu próprio mundo, mas sem de fato escutar o que ela tem a me dizer?
E o que me assusta mais é que eu gosto do meu mundo, e se imagino dentro dele como seria o mundo de fora, esse mundo de fora me assusta, parece inóspito, sem qualquer ordem, sem justiça, sem beleza, sem paz. Não quero abandonar o meu mundo, dentro do qual vivo todos os prazeres da vida.
24.10.07
18.10.07
Formalismo subjetivo
Eu bem que queria ficar de papo pro ar
Mas a vida não dá
Olhei no relógio, estás atrasado
Estou em atraso
De tanto reclamar
Vou tratar de uma única questão. Proponho que o último verbo (reclamar) está atrapalhando o ritmo do verso e da estrofe. Ele tem uma sílaba a mais.
Me explico:
bem que queria (entre as tônicas, duas átonas)
papo pro ar (entre as tônicas, duas átonas)
vida não dá (entre as tônicas, duas átonas)
Olhei no relógio (entre as tônicas, duas átonas)
estás atrasado (entre as tônicas, duas átonas)
Estou em atraso (entre as tônicas, duas átonas)
De tanto reclamar (tem três átonas aqui)
Até acho que o verbo reclamar nem seja essencial para cena. Há sinônimos e palavras próximas com duas sílabas que se encaixam no ritmo.
Agora, eu não sei se foi intenção ou não do Bruno quebrar o compasso. Talvez seja uma questão que não importe, tudo bem. Reafirmo, pessoalmente, eu acho que um verbo (para substituir o reclamar) de duas sílabas se encaixaria muito bem no ritmo da estrofe.

