31.7.08

Ursos e mordomos(mordomos tem acento?)

Talvez a coisa mais incrível, seja como a humanidade, cada um de nós, cada um entre os bilhões de nós que infestamos esse planeta, guarda em si a tragédia de todos os outros. Como a paisagem sentimental sob a qual se desenrola o drama de cada um, contém todas as cores e tonalidades para se compreender qualquer, absolutamente qualquer, experiência humana, desde o ódio mais opaco ao júbilo mais sublime. Somos todos diferentes, sentimos igualzinho. Mesmo assim nos desentendemos, somos insensíveis com os dramas dos outros, alguns não se reconhecem nesta vida, outros negam que existir desta ou daquela maneira seja viver realmente. Talvez porque, apesar da tragédia que nos uni, não aceitemos os dramas sem protagonistas. Nem nenhum outro protagonista que não seja nós mesmos. Isso é claro que não é novo,(para quem se importa que as coisas ditas sejam novas), mas como disse André Gide: "Todas as coisas já foram ditas; mas, como ninguém escuta [especialmente aquele que escreve*], força é recomeçar sempre."
*comentário meu

Outro dia conversando com a Marcela, ela apontou para a minha necessidade de sempre contar e recontar a minha vida como se ela fosse uma história independente de mim. E é claro que é verdade, e até já havia parado para pensar nisso, só que nunca tinha escutado isso de outra pessoa, da boca, da mente de outro pessoa, num tom de voz, e com um sentido distinto do meu, porque fora da história que eu conto pros outros pra poder contar para mim mesmo. O ser mais amado de todos, o amigo mais amigo de todos, será sempre um coadjuvante na nossa história?
Já estou mudando de assunto.

Na verdade, eu queria falar um pouco sobre o Homem-Urso. Eu amo esse filme, como amo Santiago, porque foram dois filmes em que o cineasta reconheceu o drama do outro como igualzinho ao seu, por mais bizarro que fosse o outro, por mais diferente que fosse o outro. Porque eu pude reconhecer a paisagem sentimental dessas pessoas. O amor, o amor imenso, descontrolado, solitário e trágico que aquele americano maluco sentia pelos ursos e por aquele lugar, esse amor que se confundia com a sua autoestima, com a visão que ele tinha de si mesmo. Isso é para mim tão, tão, tão presente. Essa entrega desperada ao mundo selvagem que, em última instância, você sabe não irá corresponder a sua dedicação, ao seu amor, isso é muito - para mim - a vida. A confusão que marca tudo que ele faz, a indefinição de sua personalidade, a busca incessante não é simplesmente a de se encontrar, como talvez digam os psicólogos e psicanalistas, mas de se encontrar no outro, e encontrar o outro em si mesmo. Mas o outro não é só gente, talvez até melhor que não seja gente. Talvez essa cara do Urso seja de Peixes(o signo), e talvez por isso, eu me identifique tanto com ele.

E Santiago é sobre isso também: a busca de si no outro, impossível, de fim improvável, do cineasta em relação ao seu filme; do mordômo em relação....em relação a que mesmo? É tão abstrato aquilo que ele busca, tão abstrato quanto Ursos. Entende? O que uma pessoa encontra em Ursos? Ou em filmes? Ou em dinheiro? Ou em família? Ou em sucesso? É tudo tão abstrato e incompreensível.

E tem aquela cara do Escafandro e a Borboleta. Que cara é esse? Puta merda, que cara é esse? Escrever um livro, e depois ele morre. Se poesia não é a vida depurada, então não sei mais de nada.(Obs. o filme é menos poético do que a história que ele conta)

A Marcela disse assim, ser feliz é riscar do seu vocabulário as palavras "crise existencial". E foram mais ou menos esses os termos que ela usou. Grifo em “vocabulário”. E é sim, é claro que é um problema lingüístico. Na verdade, o que vivemos hoje é uma grande crise lingüística, crise profunda. E isso não é uma tiração de sarro, por favor, não é! Não é, não é! É qualquer coisa menos isso, porque eu acredito. E acredito cada vez menos nas palavras, e preciso cada vez mais delas. E isso também no fundo, todos nós sabemos, mas quem é que quer – de verdade – parar de proteger os Ursos? Eu não.